Conversamos com a psicóloga Maria Clara Rabelo, especializada na abordagem terapêutica Daseinsanalyse sobre a importância de compreender nosso papel como indivíduos dentro de um coletivo para buscar uma vida mais significativa 

Sentir é um modo de presença, uma maneira de ser inteiro no mundo. Essa foi uma das reflexões que a psicóloga Maria Clara Rabelo trouxe em um bate-papo virtual com o SobreSentir. Idealizadora da Amorada, um coworking para psicólogos em Belo Horizonte, Maria Clara é especialista em Daseinsanalyse, abordagem baseada nas ideias do filósofo Martin Heidegger. O termo alemão Dasein, que poderia ser traduzido como ser-aí ou ser-no-mundo, refere-se à responsabilidade individual e intransferível de ser do homem – mas que não exclui o coletivo. A tradução em português faz uso do hífen que já demarca graficamente a unidade desse ser com o seu aí, com o mundo. O Dasein está sempre em relação com o mundo e com os outros. 

Psicológa Maria Clara Rabelo
A psicóloga Maria Clara Rabelo é especialista em Daseinsanalyse, abordagem baseada nas ideias do filósofo Martin Heidegger.

Segundo Heidegger, o Dasein é o único ser que questiona a sua razão de existir, tendo a tarefa de ser, de cuidar desse ser – mesmo que de um modo descuidado. Mas, será que nós temos cumprido bem essa missão? Será que estamos totalmente conscientes deste papel existencial fundamental da vida. Baseada em sua experiência clínica, a constatação de Maria Clara Rabelo é de que as pessoas estão muito afastadas delas mesmas. “Não sabem o que sentem, porque muitas vezes vão no automático”, disse.”O meu trabalho é devolver a pessoa para ela mesmo (…) Meu trabalho é fazer com que o paciente se sinta seguro para ser quem é, seguro com as próprias ações.” 

SS O que é a Daseinsanalyse? 

Maria Clara Rabelo – Daseinsanalyse é a análise do Dasein, a análise do paciente. 

SS – Por que o Heidegger usa o termo Dasein? 

Maria Clara Rabelo – No português a tradução “ser-aí” já diz que a gente já “é” na relação com o mundo. Não existe o ser sem o aí e não existe o aí sem o ser. O Heidegger vai falar: olha, a gente está no mundo. Não tem como eu saber como eu seria sem o mundo e como seria o mundo sem mim. Estamos em relação. Heidegger revolucionou muito da filosofia porque ele saiu da dicotomia que antes existia de consciência e de mundo, do plano das ideias versus o plano tangível e concreto. Ele foi aluno do filósofo e matemático alemão Edmund Husserl, o pai da Fenomenologia, que  trabalha muito a questão da intencionalidade, do nosso eu, da nossa consciência, olhar para as coisas com uma certa intenção. “Ser e Tempo”, que é a obra prima do Heidegger, foi escrita basicamente através do método fenomenológico. Na fenomenologia a gente coloca tudo o que acredita em suspensão para ter acesso ao fenômeno. É abrir mão dos nossos pré-conceitos, dos conceitos prévios, para a gente poder de fato estar ali. Heidegger vai radicalizar isso porque vai falar que nós somos a própria intencionalidade.

SS – Como assim? 

Maria Clara Rabelo – Heidegger começou com a pergunta: quem somos? Quem é o homem? Quem é esse ser? Ele foi destrinchando essa ideia bem do início. Qual é a nossa diferença para os outros, animais, para as outras coisas? Segundo Heidegger, a diferença seria que somos o único ser que pergunta sobre o nosso ser. Então, somos os únicos seres que temos a responsabilidade de ser. Eu me pergunto: quem eu sou? Então, eu tenho a tarefa – usamos essa palavra mesmo – a tarefa de ser. A Ontologia é o ramo da filosofia que lida com a natureza e a constituiçãoorganização do ser. Mas, na terapia o que aparece é a vida da pessoa, o que aconteceu, sua história de vida, o ambiente em que viveu. Essas condição ões do Dasein é o que chamamos de ôntico. 

SS -Em que momento  essa filosofia passa para a psicologia? 

Maria Clara Rabelo – Daseinsanalyse foi um termo cunhado por Ludwig Binswanger para a Psiquiatria a partir da  concepção heideggeriana da essência do existir humano. Binswanger acabou se afastando do pensamento de Heidegger e aí o termo Daseinanalyses passou a ser utilizado pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Medard Boss. Depois de ler “Ser e Tempo”, Medard Boss convidou o Heidegger para proferir uma série de palestras para médicos psiquiatras em Zollikon, cidade suíça onde ele morava. Seminários realizados entre 1959 e 1969 e que são considerados fundamentais na concepção e conceituação da Daseinsanalyse. Tem uma obra muito importante, “Seminários de Zollikon” com o conteúdo desses seminários. 

SS – Há semelhanças entre a psicanálise e a Daseinanalyses?

Maria Clara Rabelo – Esteticamente, a Daseinanalyses é muito mais próxima da psicanálise. A gente trabalha com livre associação, com divã, com compreensão dos sonhos. Só que no Brasil, a Daseinanalyses foi colocada muito mais próxima da Terceira Força, que são todas as linhas existenciais, fenomenológicas. Boss foi aluno de Freud, fazia análise didática com Freud. Embora amasse o seu professor, Boss achava que o Freud teórico era extremamente diferente do terapeuta, que era muito mais fenomenológico. Ele acreditava que o Freud sucumbiu à ideia de Técnica, sucumbiu à ideia de ciência, ao criar uma teoria que seria aplicável a todo mundo. Ironicamente, há um forte debate atual sobre isso, sobre a psicanálise não ser considerada uma ciência. Boss discorda dessa abordagem, desta necessidade de se criar toda uma estrutura de inconsciente. Para ele, as coisas inconscientes existem. Mas eu não estou sempre atento a elas. Boss questiona muito a metapsicologia de maneira geral.

SS – De que forma o que esse “ser” heideggeriano tem a ver com o sentir? 

Maria Clara Rabelo – Não tem nada que constitui a gente. Se a gente perguntar muitas coisas para o Dasein, concluímos que o Dasein é um nada. Não tem nada que seja pré-definido. A única certeza que a gente tem é que vai morrer. A morte vai ser muito importante para essa compreensão do Dasein. Existe, inclusive, a expressão ser-para-a-morte.  A inexistência de uma pré-definição somada à tarefa de ser é extremamente angustiante. Por isso, um dos existenciais, uma das condições ontológicas do Dasein é a angústia. Outro existencial é a culpa, porque eu tenho a tarefa de ser eu mesmo. Se eu deixo de ser, a responsabilidade é minha.

SS – Como cumprir essa tarefa? 

Maria Clara Rabelo – Existem dois modos de ser: o próprio e o impróprio. Como a gente não tem nada, o que nos dá referência é o mundo em que nascemos. Por isso o contexto sócio-histórico também é importante. Por que eu pego esse copo e bebo dessa forma? Porque eu aprendi isso no mundo. Por que eu vou para a escola, depois eu vou para a faculdade, depois eu caso, depois eu vou trabalhar? Sabe quando a resposta é: “porque todo mundo faz!” ? Esse modo do “a gente” é o modo impróprio do ser. Pois bem, Heidegger vai dizer que a gente decai no mundo, no sentido que aquele mundo vai preenchendo nossas formas de fazer e de ser. A partir daí a gente começa a ter modos impróprios de ser no mundo. O que faz parte. Não é como se fosse melhor ou pior do que o modo próprio. Porque se a gente ficar só no modo próprio adoecemos. Então, o que é a forma própria do ser? É quando eu digo: o que que eu quero? Por que eu estou fazendo Direito na Faculdade se ninguém me mandou fazer? A  forma própria de ser é quando você responde por você mesmo.

“A  forma própria de ser é quando você responde por você mesmo.”

SS – Como ter essa consciência do que é próprio e impróprio?

Maria Clara Rabelo – Muitas pessoas chegam no consultório e perguntam: eu tenho esse problema, em quanto tempo você resolve? Percebe o quanto essa demanda é distante dela mesma? Ela se coloca de fora até mesmo da terapia! É o profissional que vai fazer,  que vai solucionar, que vai mudar o que eu quero que seja mudado. O meu trabalho é devolver a pessoa para ela mesmo e ajuda-lá a se implicar no processo que é dela. Heidegger nomeia o nosso momento histórico como a Era da Técnica, onde tudo é técnico.
Para compreender este momento histórico, é importante voltar lá atrás, no grande rompimento que foi a descoberta de que a Terra não era o centro do Universo. Antes, tudo girava em torno do homem, a ideia de Deus que nos criou e ficava 100% do tempo olhando a gente… Deste sentimento de importância, descobrimos que na verdade somos a poeira, da poeira, da poeira de um universo gigante. Descobrimos que a Terra gira em torno do sol e que somos um nada. Freud vai dizer que essa foi a primeira facada no ego, na vaidade humana. Isso é importante porque se eu não tenho alguém para cuidar de mim, eu também tenho que cuidar de mim. Perdemos aquele que fazia tudo por nós e começamos a ter que fazer para a gente. Sobre a questão da técnica… Toda teoria tem que escolher alguém para bater. Eu gosto muito de muitos terapeutas de Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Reconheço que a abordagem é muito boa para alguns casos. No entanto, a TCC é muito técnica. A TCC trabalha come redução de sintomas.  Existem protocolos para cada caso. Além disso, o que vende no Instagram, né? São sempre soluções assim.

SS – Soluções rápidas para problemas complexos?

Maria Clara Rabelo – Sim, soluções rápidas. Só que as pessoas fazem isso o tempo inteiro, entende? Hoje a gente descansa para poder trabalhar. A gente sai com os amigos porque tem que manter a amizade. É uma constante eficiência. Eu faço isso porque eu tenho que dormir melhor. Não é nem porque eu quero descansar. Tem pessoas que chegam aqui no consultório e falam:  “não, é porque agora eu quero cuidar de mim. Entrei na terapia, estou na nutricionista, fui na academia…” Mas…

SS – Exaustas? 

Maria Clara Rabelo – Sim. Nem criança hoje tem tempo ocioso. Quando existe, o ócio tem que ser criativo. E aí você tem a culpa. Você sente culpa quando está descansando por descansar. Tenho muitos pacientes que se sentem culpados de não estarem fazendo alguma coisa. O que nos tranquiliza e nos permite descansar é saber que estaremos aptos para trabalhar. É muito a Era da Técnica de Heidegger. A gente olha para os objetos sempre pensando na funcionalidade da coisa, para a solução de problemas, eficiência, produtividade. E a grande dificuldade no trabalho no consultório é que as pessoas perguntam: em quanto tempo eu vou ter alta? E eu digo: eu não dou alta, porque se eu precisar dizer para você quando você está pronto  para lidar com a sua vida sem a minha presença… Se eu precisar dizer para você quando você está bem, eu fiz um trabalho horrível, porque no final das contas, você ainda precisa de mim. Meu trabalho é fazer com que o paciente se sinta seguro para ser quem é, seguro com as próprias ações. Uma coisa é a gente conversar, eu falar sobre o que eu vejo, qual é o sentido da terapia naquele determinado momento. Tenho pacientes que estão há quatro anos comigo. Em alguns momentos refletimos sobre as mudanças que ele passou, qual o sentido atual de continuar o processo terapêutico. Isso é possível. Mas, não vou dizer para a pessoa quando ela estiver pronta.

“Tenho muitos pacientes que se sentem culpados de não estarem fazendo alguma coisa. O que nos tranquiliza e nos permite descansar é saber que estaremos aptos para trabalhar. É muito a Era da Técnica de Heidegger.”

SS – Quando você entra no processo terapêutico, você entra num processo de “sentir”. Você começa a ter uma escuta maior sobre você mesmo. Só que esse processo muitas vezes doi ou é lento. Diante dessa questão contemporânea da eficiência, produtividade, agilidade, como é que isso se manifesta hoje com as pessoas que você atende?

Maria Clara Rabelo –Tem pessoas que não entram em terapia. Tem pessoas cujo processo é demorado.  Tem pessoas que não conseguem acessar esse sentir. 

SS – Seria uma uma falta de prática, já que estamos em uma época em que lidamos conosco e com o mundo de uma uma forma meio artificial?  

Maria Clara Rabelo – Da forma como eu compreendo é que não existe um jeito certo ou errado ou melhor ou pior para sentir, entende? Eu acho que cada um sente do seu jeitinho. Tem pessoas que são mais pragmáticas. Quando eu atuava no Plantão Psicológico da UFMG, que atende a comunidade interna, os alunos de Engenharia não precisavam dizer de qual curso eram. Ficava óbvio só pelo modo de raciocinar. Não foi a Engenharia que os escolheu. Eles escolheram Engenharia. Pensando em crianças, algumas crescem e amam fazer balé clássico, têm a posturinha, tudo certinho. Tem outras, que não dão conta. A gente tem o nosso encaixe, o nosso modo de ser.

SS – Mas, então, isso não seria algo inato? Se sim, como fica a ideia do “nada” do Dasein? 

Maria Clara Rabelo – O Dasein não tem uma pré-definição. O mundo me apresenta coisas. O que eu posso vir a ser vai ser dado pelas condições que o “aí” me possibilita. As possibilidades que me são dadas estão circunscritas em um contexto histórico. Mas o Dasein pode sempre mudar. Existem expressões que eu acho maravilhosas, que é o vir-a-ser. Eu posso vir-a-ser-outra pessoa. Tem também a deixar-de-ser. Eu deixo de ser. É como se o Heidegger  estivesse falando assim: olha, eu posso sempre mudar. O tempo inteiro eu estou deixando de ser e estou vindo a ser uma outra pessoa. O que eu trabalho muito com os meus pacientes, é o modo de ser, qual é o movimento daquela pessoa? Eu estou constantemente tendo que lidar com quem eu sou. Eu tenho a tarefa de ser. Por que o conceito de ser-para-a-morte é muito importante? Porque quem passa pela morte sou eu. Eu não posso terceirizar. Mas é muito interessante porque as pessoas não percebem necessariamente isso.

“O que eu posso vir a ser vai ser dado pelas condições que o “aí” me possibilita. As possibilidades que me são dadas estão circunscritas em um contexto histórico”

SS – Por que você acha que elas não percebem? O que você sente?

Maria Clara Rabelo – As pessoas não sabem. Elas não sabem o que elas sentem. Às vezes elas vão no automático. Às vezes elas não estão olhando para elas. Eu comprei um Emocionário para o consultório, um livro de criança, mas que eu uso com adultos. 

SS – É preciso uma tomada de consciência?  

Maria Clara Rabelo – Quando a gente fala em tomada de consciência, de alguma forma a gente está dizendo do antes. Uma coisa é eu saber o que eu estou fazendo, onde estou e tudo mais. Mas para eu ter isso, eu preciso primeiro estar em mim.

SS – E como é que você acha que a gente chega até a gente?

Maria Clara Rabelo – Eu vou responder isso do ponto de vista da terapeuta: perguntando.

SS – O que eu acho mais angustiante em mim é que eu faço perguntas demais o tempo todo. Eu queria parar de perguntar um pouco…

Maria Clara Rabelo – Talvez a questão seja suportar a pergunta, o não saber. A pergunta pode gerar uma ansiedade muito grande pela a resposta. A gente começa a se sentir incompetente. As pessoas não suportam. Tenho uma paciente que por dois meses apenas respondia: “não sei”. Eu brincava com ela: você tem noção do quanto você responde ‘não sei’’ 

O trabalho terapêutico passa muito mais por fazer as perguntas certas do que dar as respostas certas. Outro ponto importante da pergunta, é que a resposta pode surgir na sua cabeça quando  menos se espera. Se você não tivesse perguntado, não viria nascer naquela hora. Tem uma potência da pergunta e de sustentar a pergunta. Só que hoje as pessoas não conseguem nem sustentar as perguntas, né? Querem a resposta, a solução imediatamente.  Tem um pouco do vazio fértil, sabe? As pessoas se preenchem muito rapidamente.  Uma coisa muito legal de pensar é o próprio sonho. Por que o sonho é muito utilizado na terapia? Na vida acordada, desperta, quando alguma coisa nos incomoda, vamos  beber uma cerveja, ler um livro, abrir o Instagram, rolar o feed, ligar para alguém, comprar alguma coisa. A gente consegue escapar muito fácil dos nossos incômodos. No meu sonho, eu não consigo acordar. Então, por vezes, o que eu sonho está um pouquinho à frente do que eu consigo falar para o meu psicólogo.

Tem uma potência da pergunta e de sustentar a pergunta. Só que hoje as pessoas não conseguem nem sustentar as perguntas, né? Querem a resposta, a solução imediatamente.”

SS – No caso da sua paciente, a resposta “não sei” poderia ser considerada uma boa resposta? Melhor do que tentar responder? 

Maria Clara Rabelo – Sim, está tudo bem. Você ainda não sabe, daqui a pouco a gente descobre. O processo terapêutico é muito legal porque é muito mais do que só as sessões, porque as pessoas começam a se observar. E começam a olhar muito para o outro. Mas as pessoas, em geral, estão muito afastadas delas. É claro que existem pessoas que estão muito fragilizadas e o terapeuta pode ser um pouquinho mais diretivo. Essas pessoas vão depender mais da gente no início. Mas, o trabalho é para que elas não precisem tanto. 

SS – A questão do sentir tem uma certa dificuldade, digamos semântica. Traduzir em palavras o que se sente é muito difícil?

Maria Clara Rabelo – Existem recursos para tirar um pouco do verbal. Uma das coisas que às vezes eu uso são as cartas daquele jogo Dixit. Se a pessoa está com muita dificuldade, eu abro as imagens e pergunto se alguma representa o que se sente. Mas ainda assim têm pessoas que não conseguem. As pessoas não se dão conta delas mesmas. Aí o que acontece? As pessoas ficam doentes. As pessoas têm muita dificuldade de estar perto delas e do outro 

SS – Isso tem a ver com essa exigência de eficiência? 

Maria Clara Rabelo – Sim. Voltando à questão da Era da Técnica, quando eu atendo as crianças os pais pedem: “Maria Clara, dá um jeitinho ali… A sensação é de que eles querem que eu  quase que “adestre” a criança, solucione o problema. Mas, a questão que perpassa é o que a criança está sentindo? Vamos estar perto? E para a Daseinsanalysis o palco da terapia é a relação. Eu, como psicóloga, preciso estar muito afinada com o meu sentimento. Eu preciso saber o que eu sinto quando estou com aquela pessoa. Se eu não sei, eu preciso olhar para isso. Vou falar na supervisão Porque o que muitas vezes eu sinto é o que a pessoa me faz sentir. Eu costumo entender a criança (meu paciente), quando eu vejo o pai e a mãe. Tem pai e mãe que eu tenho certeza que não estão me escutando. Com certeza a criança não se sente escutada. O que  a pessoa me faz sentir diz muito. 

SS – Como essa “sentir o outro” influencia o seu trabalho?

Maria Clara Rabelo – Por várias vezes, eu uso exatamente o que eu estou sentindo nas minhas sessões. Um dos exemplos mais bonitos, que já tem algum tempo, foi quando atendi uma criança que tinha muito medo. A pandemia estava acabando, ela precisava voltar para a escola e tinha muito medo. Durante as sessões, propus um trabalho artístico usando a parafina derretida da vela na água. No caso dele, era interessante porque tinha o elemento fogo  importante no  processo terapêutico. Ele se recusou a princípio a fazer essa atividade. Afirmei que ele estaria seguro na minha presença. Da primeira vez, eu acendia a vela, ele apenas a segurava. Eu sugeria apagar a luz, ele não queria. Com o tempo,  ele se encantou e passamos um ano fazendo isso toda a sessão. Um belo dia, ele estava com um comportamento difícil fora do consultório. Quando começou o atendimento, percebi que eu estava com raiva. Comecei a me questionar: o que eu estou sentindo? Esse sentimento de irritação é meu? Não, não era meu. Então, o que a criança está fazendo para me incomodar? Esse dia eu tive que pensar um pouquinho, mas às vezes vem de forma intuitiva. Percebi que o que me incomodava era ele segurar o fósforo e assistir o fogo chegar próximo à mão. Eu falava que ele iria queimar o dedo. Mas, ele continuava. Estava sendo imprudente. Queria fazer tudo com a luz apagada. Brigou comigo quando eu fui acender. Até que acendi a luz, olhei nos olhos dele e disse: sabe o que está acontecendo aqui? Quando você chegou, você não queria nem ver o fogo. Depois que aprendeu, agora está quase se queimando de tanto que gosta. Você agora ama ficar no escuro. Você ama o que morria de medo. Apaguei a luz e voltamos a brincar..

Basicamente, recebi vários elogios da mãe e da escola. A criança parou de dar problemas e na semana seguinte quis brincar de Monopoly, queria conquistar tudo e ter o maior dinheiro. E estava tudo bem. A gente nunca mais brincou de vela. Foi uma sessão maravilhosa, super-marcante para mim. Marcante até no sentido de que às vezes a gente tem que ficar mais de um ano com uma pessoa sem saber muito bem o que está fazendo para que um momento como esse aconteça e o paciente consiga entender na prática seus sentimentos e sua mudança: ele viu que poderia amar o que tinha medo. E todo esse processo aconteceu porque eu fiquei irritada. Porque eu senti.

SS – A maneira como você lidou com a criança, você acha que veio de uma intuição?

Maria Clara Rabelo – Poderíamos nomear dessa forma, mas a forma que eu nomeio é que eu aprendi a olhar para o que eu sinto. Quando eu entendi que ele estava completamente apaixonado pelo que morria de medo, isso tem a ver com o nosso ôntico, com a nossa história. Eu estava lá, eu estava presente quando ele tinha medo e dizia não querer mexer com o fogo. O que eu mais faço é acompanhar a pessoa e a testemunhar. Testemunhar o quanto um processo foi difícil ou testemunhar a dor de um luto. 

SS – Mas você teve consciência da sua irritação. Você estava talvez em poder dela ou foi uma intuição?

Maria Clara Rabelo – O meu trabalho é isso. O que eu mais uso é a minha relação com os pacientes. Sobre essa questão das intuições e sobre o sentir, tem um autor que eu acho que não tem como não falar dele: Eugene Gendlin, que criou um método chamado Focalização. Gendlin era de uma família judia, que teve que fugir de casa na Segunda Guerra. Andaram por dias no meio da floresta. Quando chegaram no local em que iriam pegar o trem para escapar dos nazistas, o pai falou: “a gente tem que sair daqui. Eu senti que não é para a gente pegar esse trem.” O argumento que parecia absurdo à época, fez com que a família escapasse de Auschwitz. Morando nos Estados Unidos, Gendlin, filósofo e psicólogo, dá corpo à sua teoria. Mas, basicamente, o que ele nos diz é que o nosso corpo nos fala. O corpo do seu  pai falou para ele não seguir aquele caminho. Então a Focalização é um convite para você olhar para o seu corpo, ver o que está sentindo. O sentir pode ser várias coisas. Tem gente que vai traduzir ansiedade como nó na garganta… Então, por exemplo, o nó na garganta tem uma cor? Aí você vai trabalhando com a sensação. A Focalização é focar no corpo, em algo que esteja te chamando, entende? Por exemplo, quando a pessoa está muito angustiada e não sabe falar a respeito, seria uma possibilidade usar essa técnica na terapia. Mas, mais do que a técnica em si, eu acho essa história interessante para dizer que, sim, o nosso corpo fala. Quando a gente está em um lugar que não está legal, o nosso corpo fala. Só que,  por  vezes, quando a gente não nos percebe, pode atribuir ao outro.

“O nosso corpo fala. Quando a gente está em um lugar que não está legal, o nosso corpo fala.”

SS – Mas a intuição é uma questão heideggeriana, uma questão da Daseinsanalyse?

Maria Clara Rabelo – Acho que poderia ser, mas não viria de uma essência, de algo que a precede. Eu não vejo Heidegger negando a intuição. 

SS – Eu vejo a intuição funcionar o tempo todo. Depois que você já tem algum domínio da técnica, a intuição pode te indicar formas de agir.

Maria Clara Rabelo – Tem um ponto que é se a gente se prende muito na técnica, a gente para de sentir, a gente para de estar presente. É muito mais difícil eu estar com o outro a partir do que vai acontecer na nossa sessão. Quando eu tenho todo o meu respaldo teórico, todo protocolo, as técnicas, eu não estou tão dentro, eu já estou mais afastada. A Fenomenologia não tem uma metodologia… É o encontro, O que está em jogo é o encontro. Você se coloca ali, com a escuta aberta. 

SS – A intuição é mais um aspecto desse sentir. Ela tem espaço para vir, vai te permitir ações boas, ações eficientes

Maria Clara Rabelo – Mas, hoje a gente se respalda muito na técnica. Existe uma procura tão grande por técnica, existem tantas coisas que a gente quer informação, dado, a eficiência, gastar menos tempo que a gente não dá espaço para isso. Mas, é sempre mais difícil do ponto de vista de método clínico, por exemplo. Claro, que quando eu uso da espontaneidade, falo alguma coisa de mim, eu tenho que ter minimamente uma consciência do porquê eu estou fazendo isso. Se eu não sei, depois do atendimento, eu preciso entender. Não é uma espontaneidade pela espontaneidade. É preciso ter algo ali que faça sentido. 

Como psicóloga, eu sinto que preciso ter um cuidado especial com o que eu estou fazendo. Eu, Maria Clara, sou uma pessoa muito espontânea. Por vezes já tentei não ser. Ultimamente já entendi que a espontaneidade mais me ajuda do que não me ajuda e eu a utilizo como ferramenta terapêutica. Então eu sou muito presente, sou muito espontânea, sou muito afetiva, mas procuro ter a certeza que existe um processo que eu estou ali guiando. Eu estou na relação não só como Maria Clara, mas como psicóloga. Preciso ter a certeza do porquê eu disse isso, ter o cuidado de ver como a pessoa recebeu. Às vezes eu tenho algumas intuições que eu dou uma segurada. Eu quero muito falar isso, mas será que é porque me lembrou de uma história que eu gosto muito ou porque vai ser bom para a pessoa? Em alguns momentos eu não tenho 100% de certeza e vou segurar. É importante colocar esse ponto porque a relação do psicólogo é um pouco diferente das outras relações. Tem que imaginar uma folha de papel em branco. Se eu  preencho muito desse papel de mim, eu estou tirando espaço para o paciente. É uma relação que eu não posso ter tantas expectativas. Às vezes, alguma coisa que eu queira fazer, eventualmente pode me expor muito. Eu acho que com mais tempo de prática isso vai ficando mais claro, fica menos racional, mais natural. Mas, primordialmente, para mim, o palco da terapia é a relação. Se eu não estiver presente na relação, não tem como o outro estar. Mas se o outro não está, ele me desliga. 

SS – Quando você contou a história do pai do Gendlin ao desistir de pegar o trem, disse não só que ele sentiu, mas o corpo dele sentiu. Hoje, muitos fazem uma separação entre corpo e mente. Como é que isso é tratado na sua linha de atuação?

Maria Clara Rabelo – Não existe essa separação. A gente é um todo. Isso é bem complexo e talvez valha falar da psicossomática para ficar mais claro o que acontece. O Boss diz que a gente é o corpo, a gente é a mente, a gente é emoção, a gente é tudo. Então, se eu quebro a perna, por exemplo, isso vai me impedir de andar, vai afetar o meu psicológico e aí eu posso ficar mais deprimido. E vice-versa, a forma que eu estou pensando também afeta o meu corpo. Não existe uma primazia. Ele não coloca uma relação de causa e consequência. Mas ele vai dizer: se eu mexo em um lugar, eu estou mexendo em outro. É uma unidade na psicossomática. Por isso, nossos sintomas não são qualquer um. Eles vão dizer também da gente. Eu brinco com os meus pacientes: na bula, quando você começa a tomar um antidepressivo, está escrito que solta o intestino e prende o intestino. Por que  você soltou em vez de prender ou o contrário? Você passa mal, você pode vomitar ou não. A gente tem que olhar o que é aquilo. O sintoma sempre vai dizer desse todo. A forma com que eu lido com o sintoma e o próprio sintoma. 

SS – Além disso, a corporeidade é existencial?

Maria Clara Rabelo – Sim,  porque eu existo em um corpo. Eu não consigo existir sem um corpo. Eu experimento o mundo com um corpo. Eu sou um corpo. Eu tenho. limitações de um corpo. Meu corpo vai morrer. Eu tenho limitações de doença. Eu tenho que lidar com o corpo que eu sou, o corpo que eu tenho. Eu tenho um corpo que tem um limite: o que eu vou fazer com isso? Eu vou forçar mais, menos, eu vou respeitar o meu corpo. Eu vou dar uma parada ou eu vou romper os meus limites? O que significa não dar conta? Como que eu vou lidar com isso, essa limitação que é o meu próprio corpo? Quais são as minhas possibilidades?  A condição existencial do Dasein é a corporeidade. A gente está aqui no corporeidade, mas também tem o ôntico, que é como na minha história de vida eu vivencio esse corpo. 

Toda a minha experiência na existência e no mundo perpassa o meu corpo. Eu sinto cheiro, eu escuto, eu toco, o outro me vê, eu me expresso através desse corpo. E o que muitas vezes acontece hoje em dia na Era da Técnica é que esse corpo também está muito sob uma regra de um ter que ser de algum modo. A gente vai se afastando desse corpo. 

“Eu experimento o mundo com um corpo. Eu tenho um corpo que tem um limite: o que eu vou fazer com isso? Quais são as minhas possibilidades? “

SS – Como assim?

Maria Clara Rabelo – Mencionei o Modo Impróprio: eu vou para a escola, depois eu vou para a faculdade, depois eu tenho trabalho, depois eu tenho filho. Quando a gente se dá conta, construiu toda a nossa história com base no que todo mundo faz, não somente no que eu faço. O corpo também foi subjugado à Era da Técnica. Tem que ser magra, agora também não tem que ser: o Body Positive. Chega a ser impressionante, porque se a gente entende que eu sinto o mundo através do meu corpo, se ele é  quase que a minha ponte para o mundo, é  quase como se… Como que eu vou ter isso, se o meu próprio corpo já está sofrendo toda essa pressão? O corpo é muito a forma que a gente tem de expressar o mundo e as nossas relações. E muitas vezes é isso: a gente tem um corpo que tem que ser. Mas a gente sente muito esse corpo. É impressionante. Uma coisa que eu não fazia ideia é como o cabelo é uma questão importante. Às vezes as crianças vêm porque os pais sentem que ela está sofrendo bullying por causa do cabelo. Mas, qual é o cabelo que você tem? Qual o corpo que você tem? 

“O corpo também foi subjugado à Era da Técnica. O corpo é muito a forma que a gente tem de expressar o mundo e as nossas relações. E muitas vezes é isso: a gente tem um corpo que tem que ser.

SS – E como você disse anteriormente, o corpo fala…

Maria Clara Rabelo – É curioso porque o movimento corporal das pessoas é muito diferente. As pessoas que estão mais graves, mais comprometidas psicologicamente, eu identifico apenas pelo jeito que se sentam. Elas são duras. Paciente psiquiátrico esquizofrênico, psicótico é muito duro. Eles têm uma questão do movimento corporal. Se a pessoa está mais agitada, ela não consegue se sentar no divã, ela anda de um lado para o outro. Outras estão mais lentas. Tem gente que senta no divã e não encosta. Depois de três meses, já conseguem relaxar. Ou seja, o corpo diz muito, muito, muito. 

SS – O que você diria, da sua experiência não só teórica, mas de consultório, de vida, para as pessoas que querem estar mais conectadas com o  sentir?

Maria Clara Rabelo – A gente só pode nos conhecer, ser a gente, ser alguém, se a gente está presente. E não tem como você estar presente sem sentir. Tem como você estar em um lugar, mas estar ausente, com a cabeça em outra coisa. O Sentir é um modo de presença. Você não consegue estar de fato presente se está pensando em outra coisa, na sua performance… Não vai fluir assim. Veja o caso de crianças que sentem muita falta dos pais que estão sempre presentes. Mas que presença você está sentindo na pessoa?  Eu acho que o sentir tem muito a ver com o presente. O sentir tem muito a ver com a autoria, porque o pensar está em um plano muito do que eu acho que eu deveria ser, do que eu queria ser. Mas ele é longe. A presença implica em se permitir sentir, nem que seja bom ou ruim. Eu acho que as pessoas que não sentem, principalmente aqui no consultório, são pessoas que não estão muito na própria vida. Que não se pertencem. Aí a pergunta é a Não-existência como existência de Heidegger: mas ele está existindo? Está fazendo história?











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