A terapeuta Daniela Migliari fala sobre emaranhamentos familiares, as Ordens do Amor de Bert Hellinger e como essa abordagem pode ampliar o autoconhecimento e a conexão espiritual.

Emaranhamentos familiares perpassam o nosso sentir de diferentes formas, muitas delas inconscientes, envolvendo padrões herdados ao longo de gerações. A Constelação Familiar, criada entre os anos 80 e 90 pelo alemão Bert Hellinger, é um caminho potencial para acessar (e, por que não, desbaratar) esses nós.

“Os emaranhamentos são momentos de evolução para todos nós”, diz a jornalista, escritora e terapeuta Daniela Migliari, pós-graduada em Constelações Familiares pela Escola Hellinger-Innovare.

Autora dos livros “Tô Aqui com Você” e “Abraço à Sombra”, Daniela conheceu a constelação há mais de vinte anos e se profissionalizou no assunto, acompanhando de perto o trabalho de Bert e Sophie Hellinger, atualmente uma das principais expoentes da chamada familienstellen. Em conversa ao SobreSentir, Daniela Migliari nos ajuda a entender como a constelação pode atuar em diversas frentes ligadas ao autoconhecimento, conexão interior e espiritual.

Crédito: divulgação. A Jornalista, escritora, terapeuta e consteladora familiar Daniela Migliari

Coesão familiar

De forma resumida, os fundamentos da constelação são as chamadas Ordens do Amor:

  • Pertencimento: todos os membros têm o direito de pertencer ao sistema;
  • Hierarquia: quem chegou antes, como os pais, têm precedência sobre quem chegou depois, os filhos
  • Equilíbrio entre dar e receber nas relações

A partir de dramatizações (em grupo ou em sessões individuais) dinâmicas inconscientes dos sistemas familiares se revelam, trazendo à luz padrões que influenciam nossa vida emocional, relacional e até física.

Ex-padre e missionário, Hellinger criou este caminho de “ajuda para vida”, como gostava de denominá-lo, entre outras coisas, a partir das suas observações sobre como a ordem ancestral e a coesão do grupo familiar eram fundamentais para a saúde emocional dos Zulus, na África do Sul. Ele também bebeu da fonte do taoismo, a partir de suas leituras de Lao-Tzu, e, de forma secundária, das fontes psicológicas e das terapias holísticas

Embora esteja longe de ser uma unanimidade – a prática não é reconhecida como terapia científica ou abordagem psicoterapêutica pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e outros órgãos médicos – a constelação é um caminho consolidado.

“Houve uma época em que muita gente se colocou nesse lugar sem o devido cuidado, preparo e estudo. É natural: toda árvore que cresce muito passa por uma poda para que ela busque suas raízes. Isso aconteceu com a constelação.”

Bert dizia que cada um encontra o constelador que precisa. Mas, na dúvida, o caminho para buscar profissionais sérios é através do Instituto Brasileiro de Constelações Familiares, que fomenta o estudo continuado e tem um banco de profissionais. “Há muita gente boa fazendo trabalhos sérios. É olhar as opções, verificar, buscar boas recomendações e também se certificar no mais profundo do seu ser”, aconselha Daniela.

SobreSentir – Como é que a constelação entrou na sua vida?

Daniela Migliare – Em 2005, por uma questão de saúde que envolvia o meu feminino, eu tive contato com a constelação pela primeira vez. Foi uma indicação da minha mãe, que é uma grande terapeuta e sempre foi muito antenada. Eu só confiei e fui. Foi interessante porque eu tive a oportunidade de ir com meu marido, com quem eu estava casada há quatro anos. Foi muito lindo. Eu me emocionei muito. Ele se emocionou muito. Fiquei bastante mexida, energeticamente esgotada e pensei na época: “Foi bom, foi suficiente”. E eu fiquei 11 anos com isso dentro do meu coração, em um processo que foi já criando sementes e vem se reverberando na minha vida até hoje. Porque toda a constelação é multidimensional, atemporal. 

SobreSentir – Quando a experiência saiu do âmbito pessoal para o profissional? 

Daniela Migliare – Eu reencontro a constelação onze anos depois por meio dos sonhos. Eu passei duas noites seguidas sonhando a noite inteira com Constelação Familiar. E vi nas redes sociais, que Bert e Sophie Hellinger estariam em Brasília naquele mesmo mês. O impulso foi mais forte e eu fui. Era um evento enorme, aqui em Brasília, com mais de mil pessoas . Eu já estava num outro momento de amadurecimento espiritual e de autoconhecimento. Ali, vendo o Bert e a Sophie Hellinger no palco, eu soube que aquilo era meu caminho. Eu fui arrebatada. A partir de 2016 eu fui em todos os eventos da Hellinger no Brasil e a uns cinco na Alemanha. Além de ter feito os quatro anos da pós-graduação Hellinger no Brasil. Curioso, que em um desses eventos tive a oportunidade de ouvir o Bert dizendo que antes de ir a um país ele sempre entrava em meditação e se comunicava com os habitantes daquele lugar, enviando um convite a quem captasse. 

SobreSentir – Você captou.

Daniela Migliare – Sim. E fui compreender e entender a comunicação com esse mundo espiritual. Pessoas hipersensíveis precisam estudar e vivenciar  sensibilidade à flor da pele.  Somos ‘fios desencapados’ e é preciso muito autoconhecimento para transformar esse fio desencapado em fio condutor, com muita ajuda, de todos os caminhos: da alimentação, da meditação, dos esportes, do aterramento, do estudo espiritual. 

“Toda a constelação é multidimensional, atemporal.”

SobreSentir – A constelação familiar trata essencialmente da relação do indivíduo com a família?

Daniela Migliari – Bert dizia que há uma grande alma que nos envolve a todos. É claro que eu tenho assuntos que são individuais e únicos da minha caminhada espiritual. Só que eu nasço dentro de um contexto onde há uma conjuntura de experiências que o meu ser precisa ou escolhe estar. Para aqueles que não acreditam em outras vidas ou nesse tipo de causalidade, não faz muita diferença, porque o que interessa é que você chegou ali e você vai fazer algo com isso. Só que eu, dentro da minha fé, acredito que existe, sim, alguma conexão anterior. Um dia eu me deparei com uma resposta do Bert a uma professora que lhe perguntou: “por que a gente está aqui? Por que a gente vive? Para que a gente existe?” Uma pergunta bem existencial que teve a seguinte resposta: “Vivemos para nos alegrarmos pelos pais que tivemos.” Hoje em dia essa frase atua em mim não só no campo da materialidade, do pai e mãe biológicos. Eu sinto muito também isso na própria relação com o pai Divino Criador e a Mãe Divina Natureza, que significa a gente dizer sim para a vida como ela é e a gente se sentir amado pela vida, por Deus.

“‘por que a gente está aqui? Por que a gente vive? Para que a gente existe?” Uma pergunta bem existencial que teve a seguinte resposta: “Vivemos para nos alegrarmos pelos pais que tivemos.”

SobreSentir – Mesmo quando a vida apresenta muitas dificuldades?

Daniela Migliari – A vida é como um presente daqueles que estão envoltos em muitos embrulhos. Você abre primeiro uma caixa e descobre uma segunda caixa lá dentro, aí tem outra, aí tem outra… É aquela cebola infinita. Conforme você vai adentrando nesse presente, ele vai ficando mais precioso. No começo pode parecer um presente de grego para algumas pessoas. Depois você vai percebendo e vai acessando ainda mais a gratidão e a alegria. Conforme você amadurece, no meu caso, com a maternidade e os adoecimentos, muita coisa é compreendida. A gente vai se tornando mais humilde perante a vida conforme ela vai nos desbastando. 

SobreSentir – Algumas pessoas não aceitam os reveses da vida. Isso pode ser ruim nesse processo? 

Daniela Migliari – Na rebeldia a gente entra em desordem com as Leis do Amor, que são as leis que o Bert observou. Ele foi o codificador dessas leis naturais que, para mim, são divinas. O Bert chegou à percepção de que muitos sofrimentos ocorriam quando a gente se desarmonizava em relação a essas ordens do amor e a gente parava de fluir o nosso amor dentro desta ordem. Só que essa é uma ordem que não pode ser imposta, ela é descoberta, acessada, percebida, escolhida conforme a gente vai fluindo na vida. E ele trouxe luz coletiva para nossa consciência ao compartilhar isso em seus mais de 100 livros. Desenvolveu isso muito amplamente com o amor do espírito junto à Sophie Hellinger, com quem ficou por 20 anos. Sophie é uma grande médium, uma grande sensitiva, e ampliou a constelação para além dos laços materiais.

SobreSentir – Explica melhor o que seriam essas Leis ou Ordens do Amor? 

Daniela Migliari – São três leis que regem a forma como o amor flui nas nossas vidas. Imagina que tem uma nascente no alto de uma montanha e esse amor começa a fluir de lá e vai descendo a montanha até encontrar o riacho. Então tem uma gravidade que está atuando ali. Se eu fico tentando subir rio acima, eu vou me cansar, eu vou adoecer, eu vou me gerar sofrimento.

“A gente vai se tornando mais humilde perante a vida conforme ela vai nos desbastando.”

SobreSentir – Qual é a primeira lei do amor?

Daniela Migliari – A primeira delas é a lei de pertencimento em que eu concordo, percebo, me rendo e digo sim para a naturalidade da existência, da vida, e da realidade de que aquelas pessoas pertencem ao meu sistema familiar. Por exemplo, eu tenho um segundo filho que não nasceu. Imagina que isso vira um tabu dentro de mim e eu começo a negar que eu tive esse filho. Isso gera um vácuo dentro do sistema. No lugar dele, um dos meus outros três filhos pode se conectar com esse irmão e passar a representá-lo. Quando eu posso dar o lugar de amor para esse ser no meu coração, os meus outros filhos recebem essa ressonância. A gente precisa dar lugar para aqueles que foram negados — não só filhos não nascidos, seja por aborto espontâneo ou causado, mas também aquele tio, primo, irmão que se drogou, que traiu a família, que assassinou alguém e que ninguém mais fala daquela pessoa. 

Sobresentir – Não é natural evitar olhar e assumir esses entes?

Daniela Migliari – Só que a grande alma familiar sabe dessa ferida e sabe que as pessoas fizeram o que fizeram por conta de uma profunda dor, porque toda violência, em última instância, também é uma dor imensa para quem comete, e está a serviço de algo: de dar voz a alguma ferida muito grande. Essas pessoas precisam de contenção, precisam de prisão, precisam da pena? Claro que sim. Ao mesmo tempo, elas podem cumprir isso dignamente e pertencendo às suas famílias. Quando se nega o pertencimento a alguém e se estabelece um segredo na família, isso gera uma pressão inconsciente nos membros daquele sistema. Ao reconhecer que aquela pessoa existe, que ela representa algo, podemos dar lugar para aquele ser no nosso coração e o sistema todo volta a se harmonizar. Consequentemente, os descendentes, os filhos, os netos não precisam representar esse ente excluído, porque ele já tem o lugar de respeito e se sente visto, entende? Então eu não gero uma desordem.

Sobresentir – E qual é a segunda lei? 

Daniela Migliari – A segunda lei é a da hierarquia. É a lei que diz que aqueles que vêm antes têm precedência. O casal quando se encontra tem precedência em relação ao filho. Digamos que com o falecimento de um dos pais o filho comece a representar o papel do falecido. Há uma mudança na hierarquia. Isso acontece, faz parte da naturalidade da existência. Os emaranhamentos são momentos de evolução para todos nós. Infringir a hierarquia por um tempo é natural, o problema é quando isso se torna crônico e quando começa a haver desrespeito. Não considero o meu pai porque ele era um bêbado… A gente não se faz em cima do sofrimento do outro. Isso não é um poder real, é uma falsa importância. O poder real, ele só se constitui quando eu estou no meu lugar. Esse filho possivelmente vai acabar indisponível para instituir o seu próprio núcleo familiar. Ele vai estar indisponível, psiquicamente “casado” com a mãe. Isso gera muita desordem.

“A gente não se faz em cima do sofrimento do outro. Isso não é um poder real, é uma falsa importância. O poder real, ele só se constitui quando eu estou no meu lugar.”

Sobresentir – E finalmente, qual seria a terceira lei do amor? 

Daniela Migliari – A terceira lei do amor é a lei do equilíbrio. Quando duas pessoas têm a mesma hierarquia – porque elas chegaram ao mesmo tempo, como ocorre com os casais -, o que rege essa relação entre iguais é o equilíbrio. Eu faço algo legal para o meu marido, ele retribui. Essa dinâmica é um crescimento para o mais. Quando a relação está vivendo um “crescimento para o menos” há um revide, uma sucessão de ações negativas. Nessas crescentes, em algum momento, uma atitude interna vai nos fazer decidir se vou investir nessa relação ou se vou caminhar para a ruptura.

Sobresentir – E nas relações em que um suporta mais os malfeitos do outro?

Daniela Migliari –  Quando um casal vive uma desordem nesse sentido, em que um vai causa uma mágoa, o outro o desculpa, novamente uma nova mágoa, a relação muitas vezes gera uma aparente fixação. Eu me transformo em uma mãe do meu marido, ou vice-versa, desculpando tudo. Já não tem muito encontro sexual… Tem um desequilíbrio. São dinâmicas inconscientes que vêm de longe e que a gente vive para aprender o que é ser humano. Mas, não dá mais para ficar culpando o papai e a mamãe pelo resto da vida. É hora de mergulhar no autoconhecimento e voltar para a realidade. A realidade é: meus pais têm direito à relação deles e eu tenho direito à minha. E eu saio da cama psíquica da relação dos meus pais e vou de encontro ao meu lugar.

Sobresentir – Como chegar a essa maturidade psíquica?

Daniela Migliari – Isso tudo passa por um profundo estudo dos livros do Bert Hellinger. Além disso, eu tenho um trabalho autoral de acolhimento da criança interior ferida, uma mentoria para mulheres, que se chama “De Menina ferida a mulherão”, em que eu trabalho o abraço à sombra por meio das constelações. É um processo mesmo de autoconhecimento, de trazer essas leis à tona.

Sobresentir – Você acha que estamos evoluindo nessa busca de autoconhecimento?

Daniela Migliari – Antigamente as pessoas estavam muito ligadas àquela base da Pirâmide de Maslow, de conseguir sobreviver, de conseguir manter todos os filhos vivos, de ter algum dente na boca, tomar vacina, usar antibiótico. Então, é um luxo da nossa geração podermos parar e cuidar das cicatrizes que ficaram ao longo do nosso tempo evolutivo. Sobrevivemos assim e precisamos olhar com compaixão para as gerações anteriores, bem como para as nossas versões anteriores. Eu só sei o que eu sei hoje graças a elas. A cura se dá individualmente, mas na soma dos psiquismos a gente também começa a modificar a psicosfera do planeta conforme o orbe vai evoluindo também. Assim caminha a humanidade. Eu me lembro de perguntar uma vez a um professor se todo mundo é emaranhado para sempre. E ele respondeu: “Assim é a humanidade. Assim é a existência. São as formas que a gente tem de evoluir.” Só que a gente também pode trazer para a consciência. É dado às nossas gerações a possibilidade de viver o autoconhecimento com mais expansão. 

“É dado às nossas gerações a possibilidade de viver o autoconhecimento com mais expansão.”

Sobresentir – Queria que você falasse um pouquinho sobre como é o processo das constelações na prática. Elas podem ser vivenciadas em  sessões individuais ou coletivas? 

Daniela Migliari – Em geral, as pessoas vêm para esses eventos com um tema da vida que está bloqueado. Às vezes, é um sintoma emocional, outras é prosperidade, às vezes é relacionado à saúde, relações de casal ou com os filhos. A constelação a gente faz em grupo com representantes. Também podemos fazer por meio das jornadas internas fazendo uso da visualização, que não é uma constelação familiar a rigor, presencial com representantes. E tem algumas pessoas que usam bonecos, mas esse é um caminho que demanda muita experiência, muito chão para não interferir com a sua intenção ali. Com representantes é muito mais seguro. Além disso tem a educação em constelações, que é o que eu faço já há muitos anos por meio da mentoria. Só que eu uno sempre com o “Abraço à Sombra”

SobreSentir -O “Abraço à Sombra” é resultado do livro que você escreveu? 

Daniela Migliari – O “Abraço à Sombra”, emergiu em 2008,  antes das constelações, na lida como mulher, esposa, mãe. Eu me deparava com comportamentos de raiva, explosão, controle exacerbado, autocrítica, de me maltratar. Uma rigidez fruto de muitos traumas e dores que eu tinha. E eu me perguntava: “por que eu reajo assim? De onde veio isso?” E, como escritora que eu sempre fui, eu comecei a escrever cartas para minha sombra. Nesse processo, aquele outro ente que eu sou e que estava sempre assistindo, acompanhando a minha luz, foi abraçando a minha sombra. Eu fui vendo que eu não precisava ter medo, eu só precisava cuidar desta sombra, porque invariavelmente, por mais que ela se mostrasse como uma defesa agressiva, toda vez que eu a atravessava, eu invariavelmente encontrava a minha criança interior ferida, dessa e de outras vidas ou do meu sistema. Então eu falo que o “Abraço à Sombra” é um momento para acolher e iluminar a infância espiritual com  gentileza, com amor, se sentindo amada por Deus, pelas oportunidades que temos de espelhar essas feridas lá fora.

SobreSentir – E das cartas surgiram o livro?

Daniela Migliari – Passei sete anos escrevendo essas cartas para mim mesma. Um dia mostrei a um amigo psicólogo, o Rossandro Klinjey, que mandou para a sua lista de transmissão. Eu falei: “É um texto privado, mandei para você porque achei que fosse ajudar na sua questão pessoal”. E ele disse: “Você precisa falar isso para o mundo.” Foram seis meses com ele me incentivando até que eu decidi abrir uma perfil no Facebook, que em um ano já tinha 60.000 seguidores. O primeiro vídeo que eu fiz, em 2017, sobre Infância Espiritual, teve 2 milhões de views no Facebook. Hoje já tenho cinco livros publicados e ajudo muitas pessoas nos seus processos de escrita de livros. Eu já fui “doula” de uns 30 partos de livros. O livro “Abraço à Sombra” está em sua terceira edição, vendido pela Candeia para todo o Brasil, já publicado em Portugal, traduzido para o inglês e está em ebook.

SobreSentir: Qual é o “sentir” que está perpassando especificamente as mulheres atualmente?

Daniela Migliari –  Estamos vivendo um desequilíbrio muito grande entre o nosso feminino e o nosso masculino. Nosso masculino precisou se armar muito para se defender, depois de um tempo evolutivo de bastante abuso, de bastante violência e medo. É muito cansativo ser a mulher que quer e tem que ganhar o mundo lá fora, trabalhando, mas também quer ter uma relação, quer ser vulnerável, quer se sentir segura ao lado de alguém, quer ter filhos. Eu acho que toda mulher é um pouco criança ferida e se arma com razão. Mas, se eu fico com a minha defesa ativada ao máximo o tempo inteiro, meu corpo vai sentir, vai criar sintoma. É preciso abaixar o volume dessas defesas ao encontrar uma relação em que é possível fazer isso. É importante trazer consciência para esses mecanismos de feridas e compensações para que virem recurso, força e consciência. Se para as gerações anteriores o esforço era sobreviver, a nossa tarefa é nos acolhermos, amarmos, cuidarmos dos nossos traumas, das nossas dores, darmos lugar para tudo. Não é sobre excluir o que passou, não é sobre excluir o ciclo de sofrimento, é dar lugar para eles. Porque, quando a gente dá lugar, eles podem se modificar. Quando eu excluo, gera uma necessidade de inclusão no futuro. Eu tomo muito cuidado com a expressão “quebrar ciclos”. Prefiro dizer: “Foi muito difícil. Eu reconheço isso no meu coração.” E, ao reconhecer, isso pode se diluir em mim. Bert dizia muito claramente  que o que tem força é dar lugar, não é excluir.

“Não é sobre excluir o que passou, não é sobre excluir o ciclo de sofrimento, é dar lugar para eles. Porque, quando a gente dá lugar, eles podem se modificar.”

SobreSentir – E isso diz muito respeito ao outro, confere? Não é excluir o outro, mas dar lugar para o outro também.

Daniela Migliari – Não dá para você excluir o outro, principalmente quando se fala da família. Ela faz parte de alguma maneira. Qualquer coisa que a gente queira excluir da realidade, a Terra vai trazer a gente de volta para o chão. A gravidade não atua só materialmente. Quando a gente se eleva muito, a gente nega e vive uma fantasia. A vida vai te reconectar com a realidade.

SobreSentir – Apenas uma sessão de constelação é suficiente nessa busca de consciência? 

Daniela Migliari –  Depende da necessidade da pessoa. Tem gente que faz uma vez. Eu estudo continuamente há dez anos. Cada evento a que vou, em que me coloco assistindo às constelações em estado de abertura, presença e humildade, eu pego carona no que está lá no palco. Uma pessoa que queira viver o autoconhecimento por meio das constelações pode ir a vários workshops e nunca levar a constelação lá na frente. Só de assistir, ela já vai pegando caronas de consciência. Quem está sendo constelado abre sua vulnerabilidade diante de várias pessoas que estão assistindo. E se você também assiste com vulnerabilidade, e não com julgamento, você recebe muitos presentes. Eu recebi uma grande cura – e, quando falo cura, eu me refiro a trazer amor em movimento dentro dos meus bloqueios, ao representar uma pessoa nesse último evento. Foi um movimento super forte e multidimensional. Porque a constelação de um é a constelação de todos. Afinal de contas, nós todos viemos de uma raiz muito próxima. As dores humanas são muito parecidas: todo mundo quer amar e ser amado. 

Quem está sendo constelado abre sua vulnerabilidade diante de várias pessoas que estão assistindo. E se você também assiste com vulnerabilidade, e não com julgamento, você recebe muitos presentes.

SobreSentir – É comum o constelador pedir que você evite comentar sobre o que aconteceu na sessão durante alguns dias. Por quê?

Daniela Migliari –  É importante, porque senão a gente vai esvaziando a energia daquele movimento. A gente precisa deixar ele agir com força. Essa constelação a que me referi, eu nem consigo relatar para você, porque nem me lembro direito do que aconteceu. Eu me lembro de algumas partes, das mais importantes e deixo ela sossegar dentro de mim. E aí eu dou umas seis semanas para poder decantar.

SobreSentir – Você tem uma trajetória espiritual e o próprio Bert Hellinger foi padre e teve influências religiosas. A constelação tem esse viés da religião? 

Daniela Migliari –  Não se fala de religião nas constelações. O que a gente fala é de movimento espiritual, porque existem conexões com aqueles que já existiram, e eles também atuam no nosso psiquismo. A constelação não se dá pela mediunidade, e sim por esse campo informacional, que surge por meio da ressonância com aquela pessoa que está ali na frente, trazendo a sua história e nos entrega a chave do Wi-Fi da sua família para a gente acessar. Mas, ainda assim ela é espiritual no sentido de que eu sou um espírito em evolução, e isso está atuando na minha espiritualidade. Eu estou evoluindo ali.

Mas, não existe nada dogmático. O Bert foi, sim, um homem que estudou profundamente os evangelhos, tinha um profundo amor por Jesus Cristo, mas também estudou profundamente o taoísmo e muitos caminhos de conhecimento.

Independentemente do caminho espiritual de cada um, o mais importante é caminharmos para o mesmo amor universal, para o grande Mistério. Quando eu estou subindo na minha caminhada de consciência, tudo o que ama converge para o alto. Podem ser diferentes “idiomas”, pode ter o nome que você quiser (eu chamo de Deus). Se eu fico julgando, se eu fico me sentindo melhor do que o outro, eu estou descendo nessa jornada.  Eu não sou mais ou menos humana porque falo português e você fala alemão, francês ou inglês. Nós todos somos humanos, mas temos formas diferentes de comunicar o mesmo amor.

SobreSentir: Que conselho você daria para quem está em busca de uma vida mais sentida, mas se sente desconectado?

Daniela Migliari – Eu diria para fazer as pazes com a própria sensibilidade. Durante muito tempo – e nem faz tanto tempo — eu amaldiçoava minha hipersensibilidade, porque não é fácil ser um fio desencapado. Mas isso tem um propósito. Deus sabe o que fez em mim, e fui aprendendo a desbravar formas de lidar com essa potência. E ainda estou nisso. Para aqueles que calaram essa voz dentro de si e se dessensibilizaram, isso também aconteceu por uma boa razão. Mas é sempre tempo de se reconectar com essa força e reequilibrar. O sentir é um campo muito importante quando vem junto com a fé raciocinada, o estudo, a mente esclarecida e o treino que traz o corpo junto, por meio da respiração consciente e da meditação. Nós somos um conjunto de corpos: não sou só físico, não sou só mental, não sou só emocional, nem só espiritual e energético. Esses corpos precisam se integrar. E eu sinto que o sentir é uma dessas grandes forças, um dos principais elementos que nos chacoalha e diz: “Há mais coisa aqui.” É uma bênção a ser descoberta.

Então meu convite é: dê a si mesmo a oportunidade de sentir, de dar os passos que seu coração pede, de se instruir, de buscar ajuda. Às vezes estamos sentindo tanta dor — uma depressão, uma ansiedade, um medo coletivo gigante. Há recursos: recursos espirituais em muitas religiões, recursos de estudo, recursos físicos como alimentação, meditação e respiração. E somos nós que vamos dizer se queremos viver mais mortos ou mais vivos. Chega uma hora em que a gente cansa de morrer e precisa começar a ressuscitar, aos pouquinhos.

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