Entrevista Cris Guimarães

A cura passa pelo sentir

O trabalho do ortopedista Cris Guimarães extrapola os limites do corpo e busca a melhora através da conexão com um todo maior. Ele vai descortinado as camadas do sentir até chegar à Origem.

Cris Guimarães percorreu vários caminhos até chegar ao Caminho do Sentir. Mestre em Ciências da Reabilitação pela UFMG, ortopedista e especialista em esporte, sócio-fundador e professor da Academia Brasileira de Fáscias e sócio-fundador da Saúde na Origem, Guimarães sistematizou uma sequência de passos que nos ajuda a lidar melhor com as nossas emoções.

O Caminho do Sentir é um convite para que a gente acolha as nossas emoções, comece a escutar melhor o que está se passando dentro da gente e encontre uma cura para nossas dores. Essa caminhada, por sua vez, está dentro de um protocolo maior, intitulado Caminho da Origem. Confira o bate-papo que rolou no videocast do sobresentir e acesse a versão em vídeo em nosso canal do YouTube.

SS: A sua formação inicial inicial é fisioterapeuta, o que nos faz pensar na mecânica do corpo. Como você percorreu o caminho até o sentir?

Cris Guimarães: A vida apresenta vários caminhos que a gente trilha. Quando eu me formei em fisioterapia achei interessante. Embora ainda sem saber sentir, eu percebia que não era exatamente o meu propósito de vida. Desde muito novo, me questiono sobre a minha missão. Comecei a trabalhar com esportes, que é algo que eu adoro, mas ainda estava no lugar do corpo, não do sentir o corpo. Minha inquietação me moveu em uma direção que me fez encontrar o Rolfing, que é um trabalho de corpo a partir do sentir. O Rolfing me trouxe uma incorporação de mim mesmo e me fez aprender a entrar em contato com meu corpo e a sentir o meu corpo. Ainda não era sentir as emoções, mas pelo menos agora eu conseguia sentir alguma coisa.

SS: Quando você aprendeu a sentir?

Cris Guimarães: Em 2016, eu estava vivenciando um momento difícil emocionalmente e uma amiga psicóloga me disse: “Cris, você não sabe sentir, né?” E eu respondi: “sei. Não sei não? Então quero aprender a sentir.” Ali foi um grande start para esse lugar de aprender a sentir. À medida que eu fui aprendendo a sentir eu fui vendo uma transformação acontecer em mim que me fez querer estudar isso mais a fundo. Estudei muito as emoção e também fui fazendo formações, como a Experiência Somática, que é maravilhosa para trabalhar com traumas emocionais. Tudo isso foi me levando numa construção do meu próprio sentir. À medida que eu fui aprendendo a sentir, fui transformando minha vida e me dei conta de que todo mundo precisa aprender a sentir.

SS: Sentir é uma coisa que se aprende? Ou que se desaprende?

Cris Guimarães: É um bom ponto. A gente precisa aprender porque desaprendeu. Porque se a gente pega um bebê, uma criança, ela está muito mais em contato com o corpo e com o sentir do que os adultos de forma geral. A gente cresce aprendendo a valorizar em excesso a mente pensante. Quem é a pessoa inteligente, a pessoa bem-sucedida? É aquela que desenvolve muitos conhecimentos, acadêmicos, intelectuais. Essa é uma pessoa admirada. O nosso mundo valoriza muito esse aspecto mais do masculino. Então o sentir, como uma inteligência, foi desvalorizado durante muito tempo. A gente aprende a valorizar o pensar e a desvalorizar o sentir. Em algum momento a gente pensa, mas será que isso é tão não importante? Ou será que isso não pode ser mais importante ainda do que o pensar? A gente pode ter uma mente pensante brilhante, mas se a gente não aprende a sentir, não aprende a viver. Só aprende a pensar sobre a vida. E aí fica uma lacuna muito grande em relação ao viver.

“A gente cresce aprendendo a valorizar em excesso a mente pensante. A gente pode ter uma mente pensante brilhante, mas se a gente não aprende a sentir, não aprende a viver. Só aprende a pensar sobre a vida. E aí fica uma lacuna muito grande em relação ao viver.”

SS: Em seus atendimentos, sua abordagem é bastante completa e abrangente. Como se dá esse sentir no corpo da pessoa para conseguir elaborar um diagnóstico tão amplo?

Cris Guimarães: Existe a manifestação de algo e existe o que está por trás do que se manifesta. Então o que se manifesta é, por exemplo, uma dor, uma tensão ou até mesmo uma doença, por exemplo, um câncer. Se é uma manifestação no físico, por trás dessa manifestação existe algo. Então, quando a gente pensa nessa abrangência – e o meu trabalho vai muito para esse lugar – eu procuro encontrar o que está por trás dessa manifestação. Ao investigar o que está por trás, ou o que está na origem dessa manifestação, a gente vai descobrindo várias camadas, de profundidades diferentes. No caso de uma tensão no ombro, eu posso olhar e falar vamos fazer uma massagem e soltar essa tensão. Talvez naquele momento a tensão se solte. Mas, é bem provável que ela retorne se a causa não for mexida. Se a gente entende o que levou à tensão, a gente pode ir um pouquinho mais fundo. Eu faço uma avaliação para perceber onde existe uma disfunção no seu corpo, uma região que não esteja funcionando tão bem. Talvez possa ser no estômago, que por vias neurofisiológicas, pode levar a uma tensão do ombro?

SS: Está tudo interligada, não é?

Cris Guimarães: Sim, a gente conhece o caminho: a enervação do estômago vai para a cervical, que gera a enervação da região do ombro, podendo gerar tensão ali. Tem algo que explica essa relação. A gente precisa cuidar do estômago. Mas a gente pode ir ainda mais fundo que é: por que esse estômago está com problema? E aí investigamos se tem algo por trás que possa estar levando a uma sobrecarga do estômago. Existem, por exemplo, alguns estudos que mostram a relação de alguns dentes, como os molares superiores, com o estômago. Quem sabe você fez um tratamento de canal que está infeccionado e isso pode roubar energia do circuito que leva energia para o estômago? Então estômago começa a sofrer por causa de um problema no dente. A gente pode se perguntar: por que esse dente, afinal, teve um problema que levou a ter que fazer um canal?

SS: Do corpo chegamos às emoções?

Cris Guimarães: Sim, pode ser que exista algo emocional por trás desse dente, uma emoção que não foi sentida. Uma vez que ela não foi sentida, ela ficou presa, gerando bloqueios no corpo e, consequentemente, procurando alguma forma de se manifestar através de um problema no dente, estômago, tensão. Essa emoção pode ser, por exemplo, uma necessidade de ser aprovado socialmente ou de atender a expectativa de alguém. São emoções que ressonam por frequência com esse estômago e com esse dente.

E aí a gente pode ir ainda mais fundo. De onde vem essa emoção? De onde vem essa necessidade de querer ser aceito ou de atender a expectativa de alguém? Ah, isso pode vir, por exemplo, de uma experiência intraútero, relacionado, por exemplo, à emoção dos pais em relação àquela criança que está dentro do útero.

A gente pode ir navegando nessas camadas cada vez mais profundas. O que eu faço hoje, dentro dessa abrangência, é fazer uma leitura diante de todos esses cenários e níveis de profundidade. Quanto mais profundo a gente encontra uma raiz, mais próximo da origem a gente está. E quando a gente modifica essa origem, todo o restante pode ir se modificando.

SS: Onde entra o sentir?

Cris Guimarães: O Sentir entra em duas formas. O sentir do terapeuta: eu tenho uma sensibilidade desenvolvida que me permite sentir muito com as minhas mãos, através do toque. E tem uma outra sensibilidade, que todas as pessoas têm, mas muitas vezes não usam, que é o intuir o que a outra pessoa precisa. Intuição não vai fazer mal. Às vezes a pessoa senta na minha frente, eu vou conversar com ela, fecho os olhos e espero. Às vezes vem alguma coisa, às vezes não. Quando vem, está me contando algo tão precioso sobre aquela pessoa que vai direcionar a minha investigação. Eu falo que a intuição é sentir a voz de Deus. Deus se comunica com a gente através do sentir e não do pensar.

SS: Sentir é um caminho para a tomada de decisões?

Cris Guimarães: Sim. Grandes decisões da nossa vida podem ser tomadas a partir do sentir. Eu sinto que é para eu iniciar esse projeto ou é para eu finalizar esse ciclo. Ciclos se abrem e se fecham em todas as áreas da nossa vida.

Tem uma oração que eu amo e que uso na abertura de muitos trabalhos que é: “Pai, Senhor do universo que tudo dá, que tudo tira, que tudo traz, que tudo leva…” Para mim tem uma grande verdade e algo a ser compreendido aí que é: Deus, o universo, não vai só trazer e só dar. Ele traz e leva, Ele dá e tira. Então se alinhar a esse fluxo e sentir o que é para fazer, pode envolver abrir um ciclo, fechar o ciclo. E se a gente souber fluir nisso, a gente pode fluir de uma forma muito mais leve na vida. Mas o que vai nos ajudar a escutar isso é o sentir. E aí o sentir pode ser apreendido, sim.

SS: Você menciona Deus. A Origem, nome do seu protocolo de tratamento, tem a ver com Deus? Como é que o elemento espiritual entra na sua prática profissional?

Cris Guimarães: Quando a gente pergunta: o que você está sentindo agora? Na maioria das vezes a gente procura encontrar o nome de uma emoção para falar o que a gente está sentindo. Um aprendizado muito, muito, importante é que você não precisa dar nome para o sentir. A forma como a gente sente é através das sensações que estão no corpo. Se você sente ou se você reconhece o que está acontecendo no corpo, você pode dizer o que você está sentindo. Isso pode ter um nome de alegria, medo, tristeza ou não. Mas não precisa ter nome. O problema é que a gente inverte. A gente procura o nome antes de sentir. Então a gente fala ‘estou bem, estou alegre, estou triste’, mas tem muitas outras nuances em relação a isso. Então a gente pode realmente mergulhar nesse corpo e sentir. Eu estou sentindo uma leve tensão aqui, sentindo um pouquinho de frio no braço, um bom apoio da minha pelve nessa cadeira. Estou me sentindo relaxado, confortável. Estou sentindo uma expansão. Nossa, talvez tudo isso que eu esteja sentindo me ajuda a reconhecer que eu estou… Aí você pode dar um nome para isso. Às vezes o nome não é conhecido, é o nome que brota a partir dessa experiência do sentir.

“Na maioria das vezes a gente procura encontrar o nome de uma emoção para falar o que a gente está sentindo. Um aprendizado muito importante é que você não precisa dar nome para o sentir. A forma como a gente sente é através das sensações que estão no corpo.”

A base do Caminho do Sentir é reconhecer – essa é a base de vários caminhos, como o mindfulness. É você reconhecer o que está acontecendo agora na sua experiência interna. E você só vai reconhecer isso quando você pára para sentir o que está rolando. Mas, existe um caminho ainda maior do que o Caminho do Sentir, que é o Caminho da Origem. O sentir abre a porta para o caminho espiritual e para uma realização espiritual, uma realização de Deus. Então, mesmo pessoas que estão buscando um caminho espiritual, vivenciando isso profundamente, se elas não entram realmente em contato com sentir, fica algo faltando e o caminho espiritual pode passar a ser muito mental. Mas a gente não realiza Deus em uma mente limitada.

SS: O que é a origem?

Cris Guimarães: Pode ser muitas coisas, mas uma das formas de a gente entender a Origem ou o Caminho da Origem é o caminho para a essência de quem nós somos ou um caminho para Deus ou para algo maior – a gente não precisa entrar em religião aqui. Mas é um caminho para a gente reconhecer a nossa essência, quem nós somos, Deus. Então, o Caminho para a Origem começa com o elemento que é fé. Então a pergunta é: você tem fé? E fé significa: você acredita em algo maior que pode de alguma forma estar apoiando a sua vida? Você pode olhar para o céu e contemplar o céu e reconhecer isso como algo maior.

SS: Quais são os outros passos deste caminho para a origem?

Cris Guimarães: A segunda pergunta ou segundo passo seria: você quer a cura? Você quer percorrer esse caminho? O terceiro ponto é o desapego: você está disposto a abrir mão de quem você pensa que é para poder realizar quem você é? Porque muitas vezes as pessoas não estão dispostas. Elas querem a cura, mas elas estão apegadas demais a uma ideia de quem elas são. O quarto é uma compreensão de que Deus pode ser compreendido como energia. Esse é uma forma de olhar e compreender Deus sem entrar em religião. A única forma de a gente se curar é quando essa energia divina está fluindo dentro de nós. O quinto passo é, olha, existem interferências que estão drenando a nossa energia. E se Deus é energia, quando drena a nossa energia, drena a nossa conexão com Deus. Sem energia a gente não consegue conectar com Deus. Fica muito difícil, porque Deus é essa energia que está vivendo dentro de nós. Então a gente precisa olhar para os interferentes. Dentro dos interferentes estão as emoções bloqueadas. O sexto passo, portanto, é curar o corpo de dor, os traumas e as feridas emocionais, porque eles estão gerando bloqueios para que essa energia possa ser captada e fluir dentro de nós. Como curar esse corpo de dor? Um caminho (não é o único), é o Caminho do Sentir.

“Você quer a cura? (…) Você está disposto a abrir mão de quem você pensa que é para poder realizar quem você é? Porque muitas vezes as pessoas querem a cura, mas elas estão apegadas demais a uma ideia de quem elas são.”

SS: Então, o caminho do sentir está dentro desse lugar mais amplo?

Cris Guimarães: Sim, como algo fundamental para possibilitar que a gente caminhe espiritualmente e possa realizar Deus. Fica muito difícil de imaginar um caminho de realização de Deus sem entrar em contato com esse sentir. E aí, só para fechar esse caminho para a Origem, o sétimo passo seria o apoio ao corpo no que ele está precisando hoje, porque a manifestação já aconteceu. Então, por exemplo, se o cliente tem uma disfunção do estômago, talvez seja preciso apoiar bioquimicamente, repor alguns minerais que são importantes para produzir ácido clorídrico para o estômago funcionar bem. Se não tiver isso, vai ser difícil de funcionar. Então a gente apoia isso também, seja bioquimicamente, seja bioeletricamente, seja através de alguma manobra de fáscia, enfim. E por último, o oitavo passo, é que tudo isso precisa ser praticado, Precisa ser transformado num estilo de vida. Dentro desses passos, aprender a sentir é fundamental.

SS: Como essa visão muito holística, como você define o tratamento?

Cris Guimarães: Quanto mais eu aprendo, quanto mais eu amadureço profissionalmente, mais simples vai ficando o tratamento. Embora ele tenha mais elementos, tem uma simplicidade em como fazer. Isso é muito interessante. Tendo essa visão do todo, quando a gente vai tratar é preciso olhar para a manifestação e apoiá-la. E a gente precisa modificar a causa, que muitas vezes está ligada a interferentes que precisam ser modificados. A energia, que pode ser entendida como realizar Deus, é a chave. A gente precisa tratar o que está drenando energia, que são os interferentes, e apoiar o corpo no que ele precisa. Em seguida, a gente precisa dar energia para o corpo, criando um dia-a-dia que permita a pessoa se recarregar.

SS: Esse é o grande desafio, né?

Cris Guimarães: Esse é um bom desafio. Existe uma palavra que a gente usa hoje muito na Saúde na Origem que é implosão, que é o oposto de explosão. Quando algo explode, tudo vai embora. A implosão é o oposto, é a forma como a gente capta energia do universo.Tem muito energia disponível. A energia é, ela não está. A gente pode captar ou não essa energia. A implosão ocorre quando a gente capta essa energia.

SS: E o que a gente pode fazer para apoiar as pessoas nesse caminho e criar um dia a dia que gere implosão?

Cris Guimarães: Através de hábitos naturais e também através de algumas tecnologias. A gente desenvolveu a tecnologia Harmony, que ajuda a criar um ambiente implosivo onde normalmente não existe. Quando você está no meio da natureza, está cheio de implosão porque existem pouquíssimos interferentes que não deixam aquela implosão acontecer. Mas quando a gente vive aqui, num prédio de metal, com ar-condicionado, com luz artificial, todos esses fatores interferem na capacidade do ambiente ser implosivo E a gente veste roupa que também bloqueia a implosão. Então a arquitetura e as roupas que a gente usa dificultam essa implosão de acontecer.

O tratamento que ofereço passa por criar o dia a dia implosivo e modificar os interferentes e, quando necessário, cuidar da manifestação. Dentro dos interferentes existem as emoções bloqueadas que podem ser tratadas de duas maneiras. Uma, eu ensino a pessoa o Caminho do Sentir, onde ela vai aprender a lidar melhor com as emoções e a entrar em contato com emoções antigas que não puderam ser sentidas. Ao senti-las é possível curá-las. Basicamente, como a gente cura qualquer emoção? Sentindo. Basta aprender a sentir. Foi uma emoção de ódio? Ok, aprende a sentir o ódio. Foi uma emoção que eu me senti abandonado. Aprende a sentir o abandono. Só que às vezes a gente precisa de ajuda, porque é algo muito grande. Isso é algo que eu ensino. A gente criou uma playlist que ajuda nesse processo e tem o curso Despertar Emocional que acompanha. No consultório, eu faço um outro trabalho, dentro de um método que eu desenvolvi, que é o TMR Emotion (Trauma Miofascial Release).

SS: O que é o TMR Emotion?

Cris Guimarães: É uma liberação do trauma emocional a partir do corpo. Esse é um trabalho em que, em resumo, a gente encontra qual emoção ficou bloqueada e onde no corpo ela ficou guardada. Uma vez localizada, a gente consegue liberar isso pelo próprio corpo, usando alguns padrões de fala. É um pouquinho mais complexo. Mas, o que eu quero dizer é que existe um trabalho terapêutico em que eu vou apoiar a mobilização do que ficou bloqueado. Eu dou um empurrãozinho para a pessoa se mover. Se a pessoa aprende a sentir, ela pode sentir o que está se movendo nela e a partir do que ela sente, pode curar. Esse é o caminho de cura que eu acredito.

“Se a pessoa aprende a sentir, ela pode sentir o que está se movendo nela e a partir do que ela sente, pode curar. Esse é o caminho de cura que eu acredito.”

SS: Qual o perfil das pessoas que te procuram?

Cris Guimarães: Esse trabalho eu faço com bebês de seis meses, crianças de um ano, faço com jovens de 11 anos, 14 anos, faço com adultos, faço com idosos.

SS: E as pessoas chegam até você com que tipo de queixa?

Cris Guimarães: Todas que você imaginar, desde uma dor até um câncer. Ou, pessoas que não conseguem dormir e mesmo as que querem aprender a sentir as emoções. Podem ser queixas físicas ou comportamentais, emocionais.

SS: O sentir então é uma questão que mobiliza as pessoas?

Cris Guimarães: Sim, tem gente que diz: “olha, não estou conseguindo sentir”. Uma pessoa me falou esses dias, “eu me relaciono com as pessoas, mas eu sinto que eu crio uma distância. Eu queria me aproximar mais, mas eu não consigo. Você pode me ajudar?”. Para eu saber se eu posso ajudar ou não eu avalio, sinto, percebo e se acredito que posso a gente segue. Eu amo encontrar formas de ajudar e apontar o caminho que o cliente pode percorrer. Nessa minha fala tem uma verdade muito importante: eu não percorro o caminho pela pessoa. A pessoa percorre, eu só posso ir dando um empurrãozinho, ajudando a desbloquear o que está desbloqueado. O caminho está aí, bora bora!

SS: Quando vemos o seu exemplo e de outros entrevistados, nem sempre acreditamos que iremos conseguir percorrer esse caminho, que parece difícil muitas vezes. Será que isso não é algo para iniciados ou para pessoas que têm uma sensibilidade maior?

Cris Guimarães: Um bom ponto. Às vezes eu brinco, andar é fácil ou difícil? Bem, andar é fácil. Estou andando. E quando a gente aprendeu a andar, quantas vezes a gente tentou e caiu? Várias coisas passam um pouco por aí. Às vezes eu gosto de lembrar a minha própria trajetória. Eu posso dizer que hoje eu lido com as circunstâncias externas tendo uma paz como pano de fundo. Mas, isso é algo aprendido. Eu comecei a aprender a sentir a partir de 2016. Eu acho muito pouco tempo, especialmente se a gente olhar numa perspectiva minimamente mais ampla da vida. Tem uma coisa que é bonita nisso também, que é não ter um fim em si mesmo, não tem uma meta. A meta é melhorar o sentir a cada dia, porque o que eu sei é quanto melhor você sente, quanto mais você aprende a sentir, mais você vai se sentir bem. E aí, vamos percorrer esse caminho o resto da vida. Tem que escolher, querer e escolher todos os dias. E praticar. Eu pratico isso todo dia. Alguns dias são mais necessários.

“A meta é melhorar o sentir a cada dia, porque o que eu sei é quanto melhor você sente, quanto mais você aprende a sentir, mais você vai se sentir bem. E aí, vamos percorrer esse caminho o resto da vida. Tem que escolher, querer e escolher todos os dias.”

SS: Como funciona na prática?

Cris Guimarães: Ontem mesmo eu vivenciei uma coisa, fiquei com raiva e aí não estava dando para parar e sentir. Assim que deu, eu sentei no chão e me dei cinco minutos praticando o Caminho do Sentir e aí descarreguei. Senti a raiva e ao sentir a raiva ela fluiu. Abriu espaço. Eu estava na natureza, o que ajuda. Percebi a beleza ao meu redor, que eu nem tinha conseguido perceber porque eu estava preso na minha própria bolha de raiva. Tem um ponto lindo do Caminho do Sentir que é poder reconhecer o que estava por trás da raiva – olha a Origem! Então eu entendi o que eu precisava fazer. Escrevi uma mensagem que eu precisava, vindo de um lugar mais profundo, mais verdadeiro, de mais consciência e pronto, aquilo se dissolveu e eu pude desfrutar o momento presente. Para você chegar nesse lugar, você tem que escolher sentir, de forma firme e consciente.

SS: Por que não é necessariamente um processo agradável, né?

Cris Guimarães: Sim. Por isso o Caminho da Origem começa com a fé, mas o segundo ponto é: você quer? Você quer aprender a sentir? Porque sentir significa, na maioria das vezes, ir na direção de um desconforto. Nossa tendência é evitar o desconforto. E o nosso convite é o contrário. É ir na direção do desconforto e sentir o desconforto. Só que o mundo que a gente vive, a gente aprende o quê? A distrair, a fugir do desconforto, a aliviar com um filme, uma música, redes sociais. Libera uma dopaminazinha barata e assim a gente vai levando. Mas não é um jeito saudável de levar, né?

SS: No seu exemplo pessoal você disse “eu senti raiva”. Sentir é acolher o sentimento ruim também, né?

Cris Guimarães: Às vezes as pessoas me perguntam: mas você sente raiva? Claro, sinto raiva também. Eu só sei hoje lidar com a minha raiva, um sentimento que fez parte da minha infância inteira. Na época eu não sabia o que fazer com aquilo. Hoje eu consigo olhar e sentir verdadeiramente a raiva. Não tem emoção negativa, positiva, boa ou ruim. A emoção é. Se a gente aprende a sentir ela pode ser saudável. Tem emoção saudável ou não-saudável, Tudo depende de como a gente lida com a emoção. Se eu lido aprendendo a senti-la, ela pode fluir. Toda emoção que flui é saudável, está cumprindo o seu papel.

Não tem emoção negativa, positiva, boa ou ruim. A emoção é. Tem emoção saudável ou não-saudável, Tudo depende de como a gente lida com a emoção.”

SS: Você fala do Caminho do Sentir de se dar um tempo, sentir e deixar aquilo passar, seguir o fluxo. Mas, faz parte permitir que a raiva fique lá por mais tempo?

Cris Guimarães: Sim, você toca em um ponto maravilhoso que é o objetivo. O objetivo é sentir, não é ficar bem, não é se livrar de nada. Eu não me sentei para me livrar da raiva. Eu sentei para sentir a raiva. Talvez eu tivesse que ficar com ela por mais tempo, mas de forma consciente, abrindo espaços graduais para sentir, para aceitar. O Caminho nos ensina passos que vão nos ajudar a sentir de uma forma mais ampla, com aceitação, conexão, com espaços que vão nos ajudar a sentir melhor o que a gente precisa sentir. Porque se a gente se fecha naquele sentir, a gente pode ficar aprisionado em uma ideia da minha raiva, do meu sofrimento.

SS: Eu sou assim, eu sou uma pessoa raivosa ou eu sou uma pessoa medrosa, é isso?

Cris Guimarães: A ideia é ajudar a criar um espaço para eu poder sentir. Normalmente, quando a gente tem espaço suficiente e o sentir é possível algo se modifica na experiência interna, mesmo que não completamente, Mas algo se modifica,

SS: Como é que se abre esse espaço?

Cris Guimarães: Duas coisas: uma é a aceitação. Aceitar não é gostar daquilo, Você não precisa gostar do sentimento de ódio, por exemplo. Mas, pode aceitá-lo. A gente precisa encontrar um lugar dentro de nós que permite a aceitação. E segunda parte da resposta é Deus, dentro da concepção de algo maior. Quando a gente conecta com algo maior isso nos ajuda a criar espaço. A gente realiza que não é separado de Deus e que Deus não está separado de mim. Então eu falo muito: “Pai, tu e eu somos um”. E quando eu realizo isso, abre-se um espaço gigante. O que esse personagem Cris está vivenciando é só uma pequena parte do todo. A gente, então, ganha espaço para poder sentir. Eu posso sentir de um lugar expandido, reconhecendo que eu não sou aquele sentimento. Eu não sou nem esse pequeno eu, eu sou algo maior que pode testemunhar e sentir o que precisa ser visto e sentido. Esse é o caminho que eu percorro.

SS: De que maneira a filosofia oriental influencia na sua trajetória? A meditação entra no seu trabalho?

Cris Guimarães: O que a gente traz é resultado de tudo que já experimentou. Eu amo experimentar a vida. Sim, já experimentei vários caminhos espirituais, como espiritismo, a religião evangélica, e os que eu mais me identifiquei são os ensinamentos que vêm do Budismo e Hinduísmo. Embora eu não pratique exatamente nenhuma religião, eu amo a filosofia e algumas práticas de cada uma dessas religiões. Então sim, sem nenhuma dúvida, influencia quem eu sou e tudo o que vai sendo criado. Eu pratico já há muitos anos a meditação e a vejo como esse lugar de a gente aprender a ter uma relação mais saudável com a nossa mente. O Caminho do Sentir tem elementos que são trazidos no Vipassana, a ideia de estar ali, reconhecendo e tomando consciência sobre o que está acontecendo. E a partir dessa tomada de consciência, deixar ir, deixar fluir, não se apegar a nada. A diferença é que a gente mergulha um pouco mais no sentir.

SS: Como assim?

Cris Guimarães: Em vez de percorrer as sensações numa atitude de desapego, a gente reconhece as sensações e ao reconhecê-las e sentir qualquer desconforto, a gente vai na direção do desconforto. Então tem um caminho próprio ali, mas com elementos que combinam com a meditação Vipassana.

SS: Você chegou a ir para a Índia?

Cris Guimarães: A Índia foi um grande marco na minha vida. Foi muito importante no sentido de uma maturidade espiritual. Eu estava vivendo uma ruptura desafiadora e a Índia representou essa grande virada. A dor nos ajuda a transformar. Tem algo muito paradoxal e curioso em relação a dor e sofrimento. Porque quanto maior o ego, maior a dor que a gente vai experimentar na vida. Mas em compensação, é essa dor que ajuda a gente a ir dissolvendo esse ego. É muito interessante. Eu voltei da Índia com uma segurança maior do caminho espiritual que era meu, porque eu nunca tive um guru espiritual. Eu sinto que eu tenho vários gurus e aprendo com vários. Em alguns momentos eu estou mais conectado com um ou com o outro.

“Tem algo muito paradoxal e curioso em relação a dor e sofrimento. Porque quanto maior o ego, maior a dor que a gente vai experimentar na vida. Mas em compensação, é essa dor que ajuda a gente a ir dissolvendo esse ego.”

SS: Você não sentiu necessidade. E aí de novo a gente cai no sentir.

Cris Guimarães: Eu me permito guiar muito na vida pelo sentir. E quanto mais eu fui aprendendo a sentir as minhas emoções e a curar as emoções, mais o sentir se transformou o meu canal de comunicação com Deus. Às vezes a gente lê na história bíblica algumas pessoas que conversavam com Deus. Eu não sou um estudioso profundo sobre isso, mas eu imagino que grande parte dessas pessoas não escutava Deus exatamente falando em palavras . Eu imagino que elas escutavam suas convicções e seguiam esse sentir. A linguagem que Deus comunica comigo sempre é pelo sentir. Então, o Caminho do Sentir, sem dúvida, é um caminho que me ajuda a conectar com Deus.

SS: Ter esse tempo e esse espaço para sentir hoje em dia é muito difícil. O que você diria então, para a pessoa aterafada, que pode querer sentir mais, viver melhor, mas nessa rotina atribulada, não tem condições?

Cris Guimarães: Eu faria uma pergunta que eu gosto muito de me fazer: o que é importante para você? E as pessoas falam muito sobre não ter tempo. Cinco minutos, dez minutos, todo mundo tem esse tempo, mas ele está sendo preenchido por outras coisas que estão sendo consideradas, na maior parte das vezes inconscientemente, como mais importantes. Então é uma questão de entender o que é realmente importante para você e aí colocar isso como uma prioridade. Não estou dizendo que é fácil fazer isso, mas que é possível e que é necessário. Mudar algo na nossa vida tem seu desafio.