Entrevista Felipe N. de Carvalho

Emoções determinam nosso estar no mundo

O professor e doutor em Filosofia, Felipe Nogueira de Carvalho, explica como a mente e as emoções influenciam fortemente nossas interações com o ambiente e com os outros

Tão importante quanto buscar os fundamentos internos em nossos processos emocionais, entender a influência das externalidades pode apontar caminhos interessantes para se estar em plenitude no mundo. A Filosofia é uma boa fonte de conhecimentos sobre como o ambiente e as relações sociais impactam diretamente as nossas emoções e contribuem (ou atrapalham) a nossa aquisição de conhecimento sobre o mundo. 

“Os afetos vão modular a forma como nós percebemos o mundo e isso fica claro quando concebemos percepção como ação e não como um registro passivo sobre o que nos cerca. As emoções vão fazer a gente dirigir nossa atenção para coisas diferentes e perceber possibilidades de ação diferentes no mundo”, explica o doutor em Filosofia e Ciências Sociais pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (França), Felipe Nogueira de Carvalho. 

Entrevistado do SobreSentir, Felipe mostra como entender as diferentes teorias sobre mente e afetos pode ser um caminho para se obter a regulação emocional. “É importante identificar de onde está vindo determinada emoção. Entender como as forças, as dinâmicas sociais, trabalharam para que você se sinta de determinada forma.”

As chamadas Filosofia das Emoções e Filosofia da Mente foram a base desta fértil entrevista com Felipe, estudioso das emoções e da afetividade, sobretudo em suas relações com outros saberes, e que atualmente é coordenador e professor de Filosofia da Universidade Federal de Lavras.  

SS:  O que é exatamente a Filosofia das Emoções?

Felipe Nogueira de Carvalho: Ela se divide em diferentes tipos de investigação. Existem questões mais ontológicas e metafísicas que procuram responder o que é uma emoção: como ela atua em nossa economia mental, junto com desejos, percepções? Emoção é um estado mental? É um tipo de crença ou um tipo de percepção? Alguns filósofos defendem que é um tipo de percepção, que a emoção seria quase como um órgão sensorial através do qual você percebe valores no mundo. Sentir medo é uma forma de você perceber perigo no mundo. Sentir maravilhamento é uma forma de perceber beleza no mundo. Tem gente que fala que é um tipo de crença, um tipo de avaliação do mundo, mais do que percepção. Ter medo de alguma coisa instiga uma crença de que algo é perigoso. Então você vai ter diferentes posições dentro desse campo mais ontológico e metafísico para saber que tipo de coisa é uma emoção.

“Alguns filósofos defendem que é um tipo de percepção, que a emoção seria quase como um órgão sensorial através do qual você percebe valores no mundo (…) Tem gente que fala que é um tipo de crença, um tipo de avaliação do mundo, mais do que percepção.”

SS: Existem linhas que investigam emoções específicas?

Felipe Nogueira de Carvalho: Sim. Tem filósofos que se ocupam em investigar o que é o amor, o que é o medo, o que é a empatia. Vão tratar de diferentes fenômenos afetivos sem ter que dar uma resposta geral sobre que tipo de coisa é uma emoção. E tem pessoas que se interessam pelas relações das emoções com outros campos do saber, outras áreas da filosofia. Qual o papel das emoções na moralidade, por exemplo. Tudo indica que no desenvolvimento de um caráter moral é importante que você sinta certas emoções em certos contexto para detectar, se sensibilizar e se indignar com injustiças. A emoção tem também um papel importante na estética. Considerar uma obra de arte bela tem a ver com a reação afetiva que nós temos perante essa obra de arte. Como as emoções contribuem ou atrapalham a nossa aquisição de conhecimento sobre o mundo? De que forma as emoções participam do processo de transformação política? Para essas questões também não é necessário que você dê uma resposta geral sobre que tipo de coisa é uma emoção. Você vai investigar como as emoções, os afetos, se relacionam com outras áreas de saber.

SS: Você coordenou por dois anos um projeto de extensão sobre emoções e regulação emocional. O que foi exatamente esse projeto?

Felipe Nogueira de Carvalho:  Esse foi um projeto que eu fiz quando eu estava no pós-doutorado na UFMG e ele foi pensado no início da pandemia, em 2020. Também desenvolvi um projeto de pesquisa internacional, já no fim da Pandemia. E eles tratavam justamente desse tema, dessa ansiedade que nos acometeu diante da doença e do isolamento social. A gente sabia muito pouco sobre o coronavírus. Eu pensei em relacionar a Filosofia das Emoções com regulação emocional. Eu não sou psicólogo. A ideia não era trabalhar diretamente a regulação emocional, mas mostrar um pouco que a forma de pensarmos a regulação emocional depende do que consideremos o que são as emoções. Eu trazia diferentes teorias sobre as emoções, dava as ferramentas teóricas para se pensar a regulação emocional, em vez de propor terapias, intervenções diretas, porque fugiria muito da minha área de atuação. Esse projeto durou dois anos e quando começamos a sair da pandemia e voltar para o presencial perdeu um pouco o sentido de continuar.  Era um curso de extensão aberto ao grande público, inclusive não-acadêmico, feito em uma linguagem acessível. E teve muita procura. Cada edição do curso tinha 700 pessoas. Eu recebia pedidos de 2.000 inscrições. Era uma época em que todo mundo estava em busca… E todo mundo estava muito desregulado.

SS: A gente ainda está bastante desregulado, não?

Felipe Nogueira de Carvalho: Pois é, eu acho que a gente ainda não conseguiu se regular. A ansiedade, por exemplo, é um tema que está bastante em voga. Não por menos ela é a personagem central do filme “Divertidamente Dois”, que fez muito sucesso. 

SS: A ansiedade é um tema que está em seu campo de investigação? 

Felipe Nogueira de Carvalho: Eu fico mais no campo das relações das emoções com outras áreas. Tenho trabalhos sobre emoções e epistemologia, literatura, justiça social.

SS: Como as emoções afetam a forma como a gente percebe o mundo?

Felipe Nogueira de Carvalho: Para responder essa questão, em primeiro lugar, a gente tem que também entender o que é perceber o mundo. Eu quero me distanciar um pouco da ideia de que perceber é simplesmente um registro passivo do mundo, como se você pegasse uma câmera de vídeo e fosse filmando o que está acontecendo à sua volta. Não. Percepção não é isso. A concepção de percepção que eu adoto é algo mais ligado à ação, ao que vem desde a fenomenologia de Merleau-Ponty, que tem a ver como nós agimos no mundo. A gente percebe o mundo ao qual nós estamos adaptados, ou seja, nosso nicho ecológico no mundo, em termos das possibilidades de ação que o nosso ambiente nos proporciona, que é uma ideia que vem lá da psicologia. Tem um psicólogo, James Gibson, que criou essa área que ele chamou de psicologia ecológica. É a ideia de que nós percebemos possibilidades de ação. É fácil pensarmos que as emoções e os afetos vão influenciar muito as possibilidades de ação que nós percebermos. Isso é claro, por exemplo, quando uma pessoa que está sofrendo de depressão ou com uma tristeza muito profunda que às vezes não percebe possibilidades de ação no mundo. A porta de casa dela não é algo que ela pode abrir e sair para a rua. O telefone não é uma ferramenta para ligar e conversar com alguém. Isso ocorre com outras emoções também. O medo que nos faz perceber tudo como uma ameaça. É interessante porque conceber percepção dessa forma, ligada a ação, torna claro como as emoções, os afetos, vão modular a forma como nós percebemos o mundo. Vão fazer a gente dirigir nossa atenção para coisas diferentes e perceber possibilidades de ação diferentes no mundo. 

“Uma pessoa que está sofrendo de depressão ou com uma tristeza muito profunda às vezes não percebe possibilidades de ação no mundo. A porta de casa não é algo que ela pode abrir e sair para a rua. O telefone não é uma ferramenta para ligar e conversar com alguém. Isso ocorre com outras emoções também, por exemplo, o medo que nos faz perceber tudo como uma ameaça.”

SS: De que forma esses conceitos de emoção e justiça social trabalham juntos? Qual é essa linha investigativa?

Felipe Nogueira de Carvalho: Nossos afetos são profundamente políticos, ao mesmo tempo em que a política é profundamente afetiva. A forma como eu penso isso está muito ligada àquela ideia de que emoção não é algo puramente interno, não é algo que parte de dentro e vai para fora, mas é algo que muitas vezes vem de fora para dentro. É algo que emerge a partir das nossas relações com outras pessoas e com os ambientes em que nós estamos. Isso vale de forma diacrônica e sincrônica, para episódios particulares de emoções. Que emoção você sente quando algum evento externo acontece? Depende muito de onde você está e com quem você está. Uma discussão conjugal vai produzir emoções diferentes se você estiver em uma fila de banco, dentro de um supermercado, no restaurante ou num quarto de dormir. As relações sociais também impactam: a situação envolve alguém que você confia, um superior, alguém que está em uma hierarquia profissional diferente? É um familiar? É uma pessoa que você mal conhece? E vale também de forma diacrônica, ao longo do tempo, ou seja, o contexto sociocultural em que nós nascemos e fomos criados determina quais estratégias e repertórios emocionais nós desenvolvemos para lidar com as diferentes coisas que nos afetam O ambiente tem essa dupla função (tanto em episódios particulares, como ao longo do tempo), para determinar quais estratégias de repertório nós adquirimos.

SS: Mas o que isso tem a ver com justiça social?

Felipe Nogueira de Carvalho: Porque se a gente aceita a ideia de que os afetos e emoções não estão dentro, mas eles emergem a partir das relações com as pessoas ou com os ambientes, é fácil pensar que esses ambientes externos pelos quais nós passamos, não são politicamente neutros também. As práticas sociais que ocorrem nesses ambientes não são politicamente neutras. Elas são palco de constantes disputas e dinâmicas políticas. De onde vem o seu medo de imigrantes? Por que você se sente ameaçado pelo casamento homoafetivo? É algo que parte da pessoa? Muitas vezes é algo que vem de fora. Às vezes vem de um discurso populista conservador. Tem um filósofo alemão que eu gosto muito, o Jan Slabe que denomina esse fenômeno de invasão mental. Ele identifica diferentes formas de que essas práticas sociais, desde o discurso populista até certas formas de organização da sociedade mais conservadora, invadem a mente das pessoas e influenciam a nossa economia afetiva. O seu medo de imigrante é algo que muitas vezes vem de fora para dentro e não de dentro para fora. Nesse sentido os afetos e as emoções são políticos. É importante, portanto, identificar de onde está vindo determinada emoção. Como as forças, as dinâmicas sociais, trabalharam para que você se sinta dessa forma. Mas tem também a direção de dentro para fora. Quer dizer, veja a força de emoções, por exemplo, como a raiva, como indignação, que são um motor de transformação política. É um pouco nessas duas direções que a gente tem que olhar.

Tem um filósofo alemão que eu gosto muito, Jan Slabe, que denomina esse fenômeno de invasão mental. Ele identifica diferentes formas de que essas práticas sociais, desde o discurso populista até certas formas de organização da sociedade mais conservadora, invadem a mente das pessoas e influenciam a nossa economia afetiva. Nesse sentido os afetos e as emoções são políticos.”

SS: É interessante você falar sobre isso, me fez lembrar do filme “O Show de Truman”, que o ambiente do personagem principal era repleto de outdoors alertando sobre os perigos da água. Claramente, um esforço dos “produtores” para que ele não desejasse sair daquela ilha.

Felipe Nogueira de Carvalho: É isso. É isso que o Slab fala: a gente não pode pressupor que existe um sujeito autônomo, que ele vem ao mundo pré-constituído. De onde vem esse medo dele? Vem justamente dessas práticas sociais externas, de coisas que você nem sabe… 

SS: Coisas explícitas, mas muitas subliminares também, né?

Felipe Nogueira de Carvalho: O Slab descreve detalhadamente um estagiário em um ambiente corporativo. Essa produtividade, esse jeito de ser do executivo em um contexto corporativo. Isso vem de uma prática social produtivista, em que ele sente que tem que estar disponível, que tem que responder WhatsApp onze horas da noite no domingo. Isso não é dele. Isso é uma invasão mental para que ele aja e sinta da forma esperada, para que ele se encaixe naquele ambiente de trabalho.

SS: Uma das coisas que a gente fala muito aqui, que inspira o nosso projeto, é sobre como a sociedade produtivista, capitalista, que nos obriga a produzir o tempo inteiro, não abre espaço para o sentir. O que seria o sentir dentro desse contexto que a gente vive?

Felipe Nogueira de Carvalho: Eu nem diria que não há espaço para sentir, porque há muito espaço para sentir. A gente falou de ansiedade. A gente vive numa sociedade ansiosa justamente por isso. As pessoas estão sentindo, mas estão sentindo essas emoções. Elas estão ansiosas porque elas querem estar o tempo inteiro conectadas. É preciso o tempo inteiro verificar a rede social, ver se tem algum comentário, alguma curtida, alguma postagem. Temos que responder uma mensagem de trabalho assim que ela chega, não podemos nem esperar chegar em casa. Essa ansiedade faz parte do sentir também. O sentir está muito presente nesse contexto produtivo. Aliás, mais do que isso, essa cultura produtivista não existiria sem o sentir.  As pessoas têm que sentir que elas devem fazer aquilo. O que falta, talvez,  seja um pouco que o Jan Slab aborda nesse texto que eu comentei com vocês. Pera aí, de onde vem isso? Não vem do sujeito autônomo que chega ao mundo pré-constituído. Sou eu que escolho participar dessa rede social, interagir com ela dessa forma? Claro que não. Claro que os algoritmos funcionam de uma certa forma que capturam a nossa atenção, é uma invasão mental que coopta o sujeito para que ele participe desta forma. Sem a ansiedade estar sempre conectada, as redes sociais não teriam pegado tanta gente.

“O sentir está muito presente nesse contexto produtivo. Aliás, mais do que isso, essa cultura produtivista não existiria sem o sentir. As pessoas têm que sentir que elas devem fazer aquilo. O que falta, talvez, seja um pouco que o Jan Slab aborda nesse texto que eu comentei com vocês. Pera aí, de onde vem isso?”

SS: Diante disso, até que ponto esse sentir tem que ser consciente?
Porque se você deixar fluir, você será fisgado facilmente, não? Quando você se propõe a fazer uma prática de mindfulness, meditar, seria uma maneira de se afastar desse lugar?

Felipe Nogueira de Carvalho: Tem dois diferentes sentidos. Tem uma consciência mais reflexiva que perpassa a primeira. A prática de mindfulness pode te fazer consciente desse impulso e você pode parar, esperar e deixar que ele se vá. É uma contribuição muito relevante. Agora tem essa outra reflexão que mencionei que é: de onde vem isso? Por que eu senti esse impulso? E elas são separadas. Você pode ter esse momento, essa prática de entender internamente o impulso e deixar ele ir, e depois, você pensa, espera aí, de onde veio esse impulso.

SS: Como o Budismo entra em suas pesquisas acadêmicas? Você publicou alguns artigos abordando o budismo

Felipe Nogueira de Carvalho: Eu já pratiquei bastante meditação e já me interessei bastante pela filosofia budista, especialmente no pós-doutorado, quando eu tinha mais tempo para explorar outras questões que não estavam diretamente vinculadas à minha área de pesquisa primária, que é a Filosofia das Emoções. Eu frequentava um Centro Budista de Meditação, em Belo Horizonte, o Centro Nalanda, o qual ainda tenho muita gratidão e muitas boas memórias, e publiquei dois artigos sobre o Budismo nessa época.

SS: O que o Budismo te trouxe em termos de entendimento de mente ou ou de complemento para os seus desenvolvimentos das outras investigações filosóficas?

Felipe Nogueira de Carvalho: O principal aprendizado foi prático: a habilidade de meditar, que é algo que eu não deixei para trás. Saber dar aquela centrada, filtrar os estímulos externos, conseguir trazer atenção à respiração. Isso é algo que eu vou levar pro resto da vida. É perceptível como é possível acalmar o fluxo intenso de pensamentos, a ansiedade que vem quando a gente tem muitas tarefas para fazer em um tempo que parece muito curto e limitado. Com a meditação parece que tudo se encaixa em seu devido lugar e você consegue realizar as tarefas de forma muito mais eficaz. Em termos da metafísica da mente budista, pensando nos Cinco Agregados (forma, sensação, percepção, formações mentais e consciência), o que eu levei comigo foi o seu componente ético e prático. A metafísica da mente na filosofia budista não é separada de considerações éticas ou soteriológica, ou seja, isso serve para que a gente entenda: olha, isso é não é você é só um agregado. Você não precisa se apegar às percepções que surgem, às memórias que surgem, aos pensamentos que surgem porque isso é simplesmente uma parte de algo que passa por você, mas não é você. Ao entender esses agregados você é capaz de se desapegar daquilo que te aflige.

SS: Conta um pouquinho da sua trajetória. Você estudou na França (École des Hautes Études en Sciences Sociales), fez estágio de doutorado na Alemanha (Universidade de Ruhr)?

Felipe Nogueira de Carvalho: Eu saí do Brasil após a graduação na UFMG,
em Belo Horizonte, com uma pesquisa sobre linguagem e pensamento. Fui com esse projeto de mestrado para a França. Depois do mestrado, eu continuei trabalhando com o mesmo orientador e tive uma passagem em um centro de pesquisa na Alemanha. Depois do doutorado, dei uma outra guinada na carreira, quando eu passei a me interessar mais pela Filosofia das Emoções, que atualmente é meu interesse de pesquisa primário.

SS: A Filosofia da Mente fez parte dos seus estudos. Mente e consciência são o grande enigma das ciências naturais contemporâneas?

Felipe Nogueira de Carvalho: Existem ao menos dois sentidos diferentes de enigma. Em um deles está claro o que precisa ser descoberto, embora seja algo muito difícil de encontrar a resposta. Por exemplo, descobrir o assassino em uma investigação criminal. Mas, tem um outro sentido de enigma – que se aproxima mais do que a gente está conversando aqui -, que antes de saber a resposta, envolve saber qual é a pergunta. Qual é o nosso objeto de investigação? O que é a mente? O que é a consciência? A gente ainda tem questões conceituais de base que precisam ser analisadas antes de fazer uma investigação desse tipo.

SS: É fato que os estudiosos da mente estão longe de ter um consenso sobre o que é a mente?

Felipe Nogueira de Carvalho: Tem um filósofo britânico do pós-guerra, Gilbert Ryle, que diz que é um erro categórico tomar a mente em si como objeto de investigação. Vamos imaginar que você esteja em Belo Horizonte e vá até a UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) vê ali a biblioteca, a Faculdade de Filosofia, a Faculdade de Economia. Você faz um tour por diferentes prédios e se pergunta: esses são os prédios da UFMG, mas onde está a universidade? Assim como é um erro categórico supor que há um objeto que seja a universidade,  Ryle diz que o mesmo se aplica à mente. 

SS: Qual a solução então para desvendar esse enigma?

Felipe Nogueira de Carvalho: A solução que o Ryle deu para esse problema seria não procurar a mente, o objeto, mas observar o comportamento. Importante dizer que ele está em outro contexto sociocultural. Hoje em dia, não estamos tão satisfeitos com essa solução behaviorista. Há uma tentativa de olhar também para dentro, principalmente com o avanço das Neurociências, das ciências cognitivas, que reabilitaram a ideia de que a gente pode entender a mente e a consciência. Mas a gente ainda pode cometer erros categóricos. O córtex pré-frontal, que é acionado quando raciocinamos para tomar uma decisão complexa – e isso pode ser visto em uma ressonância magnética – é a mente? Claro que não. Sim, ele está ligado ao que nós chamamos de mente –  o cérebro está ligado à mente e à consciência -, mas não parece correto dizer que achamos a mente ao ver aquela atividade intensificada no córtex pré-frontal.

“O córtex pré-frontal, que é acionado quando raciocinamos para tomar uma decisão complexa – e isso pode ser visto em uma ressonância magnética – é a mente? Claro que não é. Sim, ele está ligado ao que nós chamamos de mente – o cérebro está ligado à mente e à consciência -, mas não parece correto dizer que achamos a mente ao ver aquela atividade intensificada no córtex pré-frontal.”

SS: Na sua opinião o que seria a mente?

Felipe Nogueira de Carvalho: Ao que me parece a mente é um construto abstrato que nós utilizamos para fazer referência a toda essa economia psicológica de desejos, crenças, vontades, percepções e assim por diante. Mas, isso não significa que temos um objeto pré-definido. Alguns filósofos defendem que a mente é um modelo, uma ficção útil que a gente utiliza para falar da nossa psicologia, para ajudar a entender o outro, mas que não tem nenhuma referência concreta. Enfim, temos ainda muito caminho ainda para percorrer do ponto de vista conceitual, de saber o que a gente está querendo investigar, o que vai ser delegado para Neurociências investigar, para a Filosofia debater, para a Psicologia. Ainda há uma dificuldade para se criar uma visão coerente.

SS: Essas disciplinas diferentes compartilham alguma visão sobre a mente?

Felipe Nogueira de Carvalho: A gente está longe de ter uma resposta em comum, não só em diferentes áreas (Filosofia, Neurociências, Psicologia), mas dentro dos diferentes campos de uma mesma área. A Filosofia vai ter visões muito diferentes, algumas mais neurocentristas, ou seja, centradas no cérebro; outras mais externistas, que olham muito mais para fora, para o ambiente e entendem a mente como algo que emerge das relações entre os organismos e o ambiente. Tem as visões mais enativistas, que vieram do trabalho do Francisco Varela e do Humberto Maturana, que dizem que a mente é algo ubíquo em toda a natureza. Seres muito simples, como bactérias, já teriam um tipo de mentalidade, porque a mente tem a ver com autopoiese, como aquele organismo se mantém coeso e se distingue do ambiente. Tem visões dentro da filosofia chamadas de mente estendida, que dizem que nossa mente não está restrita ao crânio, mas muitas vezes engloba itens do ambiente externo. Um exemplo clássico dessa visão da mente estendida, proposto pelos filósofos Andy Clark e David Chalmers, é o Otto, um paciente com Alzheimer, com muita dificuldade em se lembrar de informações. Ele tem um caderninho onde anota o que acha relevante, por exemplo, o caminho para ir ao museu. Do outro lado, a jovem paciente Inga, que não tem nenhum déficit de memória e tem essas informações guardadas na mente. A diferença entre eles é que quando o Otto se pergunta como eu chego ao museu, ele olha no caderno. A informação está fora, enquanto no caso da Inga, está dentro. Há uma paridade funcional.  O caderno tem a mesma função de uma estrutura de memória interna. Então, nesse caso do Otto, a mente dele incorpora o caderninho e os processos cerebrais dele ao mesmo tempo. Então, a mente não está no crânio mas está nessas relações entre o sujeito e o ambiente.

SS: São muitas abordagens, de fato.

Felipe Nogueira de Carvalho: Mesmo dentro das Neurociências vão existir diferentes teorias sobre a consciência como uma espécie de integração de informação, como sincronia de oscilação neuronal. Dentro do Budismo você vai ter diferenças entre o budismo Mahayana e o Theravada. A gente está muito longe de ter uma visão comum porque os pressupostos são muito diferentes.

SS: E você, Felipe, qual é a sua visão?

Felipe Nogueira de Carvalho: Eu tendo a essa visão mais externista, de que a mente é algo que emerge das relações que nós estabelecemos com os outros e com o ambiente. É algo que não pode ser entendido olhando somente pra dentro. É preciso olhar para as relações com o ambiente. A partir daí algo, que chamamos mente, emerge. Mas, mente é, na minha visão, um conceito abstrato que nós utilizamos para capturar toda essa nossa vida psicológica de desejos, crenças, percepções. Eu concordo com a abordagem que diz ser enganador pensar que está tudo dentro do cérebro, dentro do crânio. Tem algo muito mais complexo que simplesmente a atividade cerebral.

SS: No livro  “Eu não sou o meu cérebro”, o filósofo Markus Gabriel diz que vivemos em uma época neurocentrista. Mas, ele contradiz a ideia de que somos o nosso cérebro,  justamente por conta dessas inúmeras interações que a gente vivencia. A nossa mente é mais que isso. Como você avalia essa tendência ao neurocentrismo que se intensificou nos últimos anos? 

Felipe Nogueira de Carvalho: Desde a Revolução Cognitiva, dos anos 60, com o crescimento, financiamento e popularização das Neurociências, das ciências cognitivas em geral, da Psicologia Cognitiva, da Linguística Cognitiva, que a gente tem visto a proliferação do prefixo neuro, que é aplicado a quase tudo hoje em dia, como se isso desse uma cientificidade à coisa. “É uma coisa séria porque é fundamentada pelas Neurociências”. E às vezes não é, porque nem a Neurociência resolveu completamente o enigma da mente: as relações que a gente desenvolve, quais consequências e conclusões a gente pode tirar a partir de ativação em áreas específicas do cérebro. O que você pode concluir sobre nosso vocabulário mentalista de desejo e percepções ao observar uma ativação intensificada no córtex pré-frontal em uma ressonância magnética? Nada. Você viu, no máximo, que há uma correlação. Então eu vejo como muito bem-vindos esses questionamentos de que a mente não é só o cérebro. Nós não somos só o nosso cérebro. Nós existimos sempre em relação. O contexto em que nos encontramos determina em grande parte o que nós sentimos, como pensamos, como raciocinamos. E se você considerar que nós somos a amálgama de tudo isso, é claro que vai ser algo muito dinâmico e fluido, sempre em relação e não algo individual.

“O que você pode concluir sobre nosso vocabulário mentalista de desejo e percepções ao observar uma ativação intensificada no córtex pré-frontal em uma ressonância magnética? Nada. Você viu, no máximo, que há uma correlação.”

SS: Markus Gabriel inclusive fala que o nosso corpo tem outras outras células para além dos neurônios.

Felipe Nogueira de Carvalho: Exatamente. O cérebro é parte de um corpo e o tipo de corpo que a gente tem afeta muito como a gente pensa e percebe o mundo. Você é mulher? Você é homem? Você é negro ou branco? Você é uma pessoa acima do peso, abaixo do peso? Você tem alguma dificuldade de locomoção? Então não dá, realmente, para pensar só em termos de cérebro.

SS: Fala-se muito na filosofia sobre os “Qualias”. Pode explicar um pouquinho para a gente esse conceito?

Felipe Nogueira de Carvalho: Essa é uma noção que vem do debate em Filosofia da Mente. Uma forma de entender é pelo que o filósofo Frank Jackson desenvolveu com o chamado argumento da Mary, que é uma neurocientista que cresce em uma sala totalmente em preto e branco, sem nenhum tipo de estímulo de cores. E ela estuda e aprende tudo sobre o funcionamento do cérebro: como as cores são processadas, o córtex visual primário, secundário, as diferentes células que unem diferentes tipos de cores, as células do olho, cones, bastonetes, comprimentos de onda… Ela sabe tudo o que há para saber sobre como o cérebro processa as cores. Aí ele fala: imagine que um dia Mary abre a porta da sala em preto e branco e vai até o mundo colorido, vê uma maçã vermelha. Ela aprendeu alguma coisa nova com essa percepção? Frank Jackson vai dizer: parece que sim. Ela tem a experiência do vermelho, que não parece ser a mesma coisa do que ler sobre o que é perceber vermelho no livro de neuroanatomia. Então ele usa este exemplo, para comentar que há algo que escapa a uma descrição puramente física dos processos envolvidos na percepção de cores. Essa experiência de ver vermelho é chamada Qualia, uma experiência subjetiva da consciência. O que é tomar um gole de um Cabernet Sauvignon? O que é cheirar o manjericão? Isso é não é capturado com a descrição puramente física. Agora, como tudo em filosofia, essa posição é controversa. Existe uma outra visão, que está muito popular atualmente, que é o Ilusionismo, que diz que é uma ilusão você pensar que quando se faz toda a descrição haveria algo a mais, uma propriedade da consciência que é inefável, que você não consegue capturar. Não! Ver vermelho é, sim, aquela descrição física. Não tem nada a mais. Esse é um debate muito vivo: se há ou não essa propriedade da consciência. E se há, o que seria isso?

“Qualia é uma experiência subjetiva da consciência. O que é tomar um gole de um Cabernet Sauvignon? O que é cheirar o manjericão? Isso é não é capturado com a descrição puramente física.”

SS: Isso dialoga de alguma forma com a ideia de Platão sobre a questão do simulacro da verdade, sobre a forma como a gente se relaciona com o mundo?

Felipe Nogueira de Carvalho:  Essa ideia platônica que, de alguma forma, a realidade é só um copy, um simulacro, é uma ideia metafísica sobre a existência de uma outra realidade que não teria todas as imperfeições e erros que nós encontramos aqui neste mundo. Essa visão metafísica aparece muitas vezes em diversas tradições, ao longo da história do pensamento, o que é compreensível. Porque, de fato, o mundo é tão difícil, é tão doloroso, passamos por experiências tão desagradáveis, que pode ser tentador supor que exista uma outra realidade em que esse tipo de experiência desagradável, de imperfeições, de dor, de erro, não exista. Não é à toa que o próprio Cristianismo no início de sua história bebeu muito no neoplatonismo. Mas, em uma perspectiva científica mais secular, essa visão metafísica perde um pouco de sentido. Essa motivação de postular outra realidade tem a ver com uma motivação ética também: se a gente se comportar bem vai ser recompensado com uma vida melhor em outra realidade. Mas, sem essa motivação metafísica e ética isso perde um pouco o sentido: supor essa outra realidade ou a ideia de cópia de algo mais perfeito. Platão enfatiza muito a percepção enganadora. Mas, do ponto de vista evolutivo mais secular, mais científico, não faz sentido pensar que nossas percepções nos enganam o tempo todo. Se não, nossos ancestrais nem teriam sobrevivido e a gente não estaria aqui hoje. Então, a ideia dos Qualias não tem tanto a ver com essa ideia metafísica. É mais sobre algo que escapa a uma descrição completa de todo o sistema físico de percepção do cérebro, mas que é parte da nossa realidade, que é esse gosto, esse cheiro, essa experiência do que é ver vermelho, por exemplo. Quem defende Qualia diz que eles são uma propriedade da consciência, não são um erro. 

‘’De fato, o mundo é tão difícil, é tão doloroso, passamos por experiências tão desagradáveis, que pode ser tentador supor que exista uma outra realidade em que esse tipo de experiência desagradável, de imperfeições, de dor, de erro, não exista.

SS: A gente poderia dizer que Qualia seria o sentir?

Felipe Nogueira de Carvalho: Sim, tem a ver… São as sensações. Esse sentir que os filósofos mais adeptos dos Qualias vão dizer que escapa a uma descrição puramente física do mundo. É diferente de você dar uma descrição do que é sentir dor através da nocicepção, dos receptores de dor, e você de fato sentir uma dor.  Muitos vão não negar essa intuição. Os Ilusionistas vão dizer que é uma ilusão supor que tem algo a mais. A dor nada mais é que a ativação dos nossos receptores e isso é tudo o que há. 

SS: Felipe, eu sei que o assunto é muito complexo, muito amplo, mas tem como você sintetizar sobre como a filosofia foi evoluindo para se criar hoje o que a gente chama de Filosofia da Mente?

Felipe Nogueira de Carvalho: Os fenômenos mentais sempre estiveram no radar dos filósofos, desde a filosofia grega antiga, com Platão, Aristóteles, e mesmo em muitas tradições não ocidentais. A filosofia budista possui análises riquíssimas sobre a metafísica da mente, sobre os Cinco Agregados, sobre toda a tipologia de processos mentais: percepção, sensações, cognições, como as coisas se combinam, como se dá o raciocínio a partir das percepções. É algo que sempre esteve muito forte e presente. Nas tradições mais antigas, como na filosofia grega antiga, na filosofia budista ou no dualismo cartesiano, as investigações da mente não estão separadas, por exemplo, da ética. A filosofia budista, por exemplo, separa os Cinco Agregados e faz aquela investigação sobre o que é a mente justamente para que se possa desapegar um pouco dessas percepções e pensamentos que passam por nós. A mesma coisa também com outras tradições filosóficas que não separam esse estudo da mente de considerações éticas e religiosas. O Cogito Cartesiano (“penso, logo existo”) não é separado de como ele vai mostrar a existência de Deus, por exemplo. A mente é um objeto de investigação primária de filósofos de diferentes tradições. Mas, a Filosofia da Mente torna-se uma disciplina autônoma muito por conta dessa hiperespecialização do campo profissional da filosofia, que tem se dado desde o estabelecimento das universidades. Nos últimos anos a gente tem visto uma crescente especialização e desmembramento do nosso campo profissional. 

SS: Quais as correntes de pensamento atuais da Filosofia da Mente?

Felipe Nogueira de Carvalho: Essa especialização vai criando inúmeras vertentes. O dualismo (a ideia é de que a mente e o corpo são, metafisicamente falando, duas substâncias diferentes) é pouco popular hoje em dia dentro da filosofia mais contemporânea. Mas a gente vai encontrar, por exemplo, aqueles que defendem um dualismo de propriedades, que é diferente do dualismo de substância de Descartes. O dualismo de propriedades diz que existe uma coisa só, que é física, mas que engloba propriedades físicas e propriedades mentais. O filósofo norte-americano Donald Davidson defendia o que ele chamava de monismo anômalo, quer dizer, tem um tipo de coisa só, tudo o que existe é físico, mas os fenômenos mentais se comportam de forma diferente dos fenômenos físicos. Fenômenos mentais não estão sujeitos a leis como as do movimento de Newton, por exemplo.

SS: Olhando para a filosofia contemporânea, a visão predominante é mais fisicalista?

Felipe Nogueira de Carvalho:  Sim. Predomina a ideia de que tudo que existe é material, é físico. Alguns fisicalistas vão ser reducionistas, uma visão mais radical que diz que você pode reduzir a mente ao cérebro. Outros dizem que a mente está ligada ao cérebro, mas ela não é reduzida a ele. Ela emerge do cérebro. A mente é um fenômeno emergente, como a liquidez da água que emerge a partir da sua estrutura molecular. Não é possível, no entanto, reduzir a liquidez à estrutura da molécula de H2O. É a mesma coisa da mente em relação ao cérebro: a partir de algum tipo de organização mais complexa do cérebro, você tem a emergência de algo como a mente ou a consciência. O debate na Filosofia da Mente mais dura, hoje em dia, gira em torno dessa questão. Grande parte pressupõe um tipo de fisicalismo, mas ainda se debate muito qual seria a relação da mente com o cérebro. Se ela é reduzida por relações de superveniência, quer dizer, mudanças em uma acarretaria mudanças em outro, sem redução, ou não. É um debate que está muito vivo por conta dessas discussões sobre Inteligência Artificial. A gente tem se perguntado: até que ponto a IA pode ser tão inteligente quanto um ser humano?

“O debate na Filosofia da Mente mais dura, hoje em dia, gira em torno dessa questão, se a mente é reduzida por relações de superveniência, quer dizer, mudanças em uma acarretaria mudanças em outro, sem redução, ou não.”

SS: Quando se fala em IA a gente volta um pouco na questão dos Qualias. Você pode ensinar um computador a sentir?

Felipe Nogueira de Carvalho:  Os sistemas de Inteligência Artificial, como o ChatGPT, apesar de serem muito impressionantes e úteis, o que fazem, no fundo, é atribuir pesos diferentes a probabilidades. O que é mais provável de aparecer depois de uma certa palavra? Portanto, a ideia de que isso seja de fato uma inteligência, de que isso possa ter sensações de alguma forma, ainda está distante. Ou seja, quando a IA diz eu tenho medo, isso não está causalmente ligado a algum tipo de sensação interna. Ela está simplesmente prevendo que medo tem uma certa ocorrência de aparecer depois a palavra tem pelo contexto da pergunta que você criou ali. Então isso não dá nenhuma margem para a gente atribuir algum tipo de mentalidade a esse sistema. Por enquanto, o que  eles fazem é isso. O que vai surgir depois a gente não sabe ainda.

SS: Os que acreditam que tudo pode ser mapeado na mente, afirmam que a IA chegará no nível de sutileza de sentido dos humanos.

Felipe Nogueira de Carvalho: Essa é uma posição em Filosofia da Mente chamada de funcionalismo, em que o que importa são as relações funcionais que você estabelece. O substrato biológico da mente, por assim dizer, não é tão importante. Você pode sim simular uma mente no computador. Os funcionalistas acreditam que a mente é um construto funcional que emerge quando você estabelece as relações funcionais certas. Se a gente descobrir quais são as relações funcionais, então, poderemos simular essa mente em outros sistemas não biológicos. 

SS: Hoje, na Filosofia, a gente ainda pode considerar a mente como sinônimo de alma e de espírito?

Felipe Nogueira de Carvalho: Eu acho um pouco enganador pensar que são sinônimos. Cada era vai ter sua própria metáfora de como pensar a mente. A gente atualmente pensa muito a mente como um computador, como processamento de informação. A mente recebe todas as informações do mundo, das percepções, memórias, sensações e, de alguma forma, integra, faz operações sobre essas representações. Dá um certo output, um certo resultado. Seria muito estranho atribuir essa mesma noção de processamento de informações como um computador para os conceitos mais antigos.
O conceito de psique de Aristóteles, por exemplo, envolvia um tipo de força vital, que não dizia respeito apenas ao processamento de informação. A ideia da mente como alma vem muito dessa visão dualista de que a mente seria algo distinto do corpo, que sobrevive ao corpo. E tem um aspecto moral também, né? Ao agir da forma correta, seguindo certos preceitos morais, a alma que sobrevive pode desfrutar de outro tipo de realidade em que ela teria menos experiências desagradáveis. São contextos socioculturais muito diferentes.