A liberdade de sentir: prazer, corpo e consciência
A educadora sexual somática Jaya Devi nos ensina como a sexualidade consciente, nos permite experimentar prazer no corpo, nas relações e na vida como um todo.
Geógrafa de formação, educadora sexual somática, terapeuta tântrica e especialista em sexualidade humana, Jaya Devi construiu um caminho próprio, onde corpo, prazer e espiritualidade se entrelaçam.
Seu trabalho é um mergulho profundo no sentir, com foco na sexualidade consciente, compreendida aqui como a capacidade de experimentar prazer no corpo, nas relações e na vida como um todo.
Nesta entrevista, Jaya compartilha sua jornada pessoal, os fundamentos da sexualidade somática e do tantra clássico, e como ela integra esses conhecimentos em atendimentos individuais, de casais e vivências em grupo. Mais que uma prática terapêutica, seu trabalho propõe uma forma de estar no mundo: mais encarnada, sensível e presente.
SS: Como o sentir se relaciona com sua história pessoal?
Jaya Devi: Sempre fui uma pessoa muito sensível e sensorial, afetada pelos acontecimentos ao meu redor. Cresci em uma cultura que valorizava pouco essa sensibilidade, e aos 16 anos passei por uma crise existencial que hoje reconheço como falta de espaço para o sentir. Foi quando comecei uma busca espiritual e filosófica. Precisava encontrar sentido para essa intensidade interna e um modo de viver que permitisse desacelerar. O sentir exige pausa, e a nossa sociedade nos empurra para o oposto: produtividade, alerta constante, performance.
SS: Qual o lugar do prazer nesse processo?
Jaya Devi: Entendo o prazer como o combustível da vida. Ele está em tudo, é uma força que move a natureza. No tantra não-dual, aprendemos que dor e prazer são apenas polaridades da mesma energia. Permitir-se sentir prazer está diretamente ligado à capacidade de sentir também a dor. É sobre atravessar intensidades. É preciso integrar tudo isso em vez de evitar. Não se trata de buscar um ideal de prazer ou felicidade, mas de cultivar presença diante daquilo que nos atravessa.
SS: E o corpo? Como ele entra nessa experiência?
Jaya Devi: O corpo é sensação pura. Corpo e mente estão totalmente interligados. Pensamentos geram sensações e sensações alimentam pensamentos. Mas o corpo é mais sábio: ele está sempre presente, experimentando o agora. Quando se dá prioridade à narrativa mental, perde-se a novidade do momento. O corpo tem acesso direto à vitalidade, à energia criativa, à pulsação. Ele é a inteligência da consciência corporificada. Por isso o trabalho com o corpo é tão essencial.
“O corpo é mais sábio: ele está sempre presente, experimentando o agora. Quando se dá prioridade à narrativa mental, perde-se a novidade do momento”.
SS: O que é a sexualidade consciente?
Jaya Devi: É a integração entre a sexologia somática e o tantra clássico. A sexologia somática foi desenvolvida por Joseph Kramer nos anos 80, com influências do Taoismo e das terapias somáticas. Ela propõe uma abordagem de educação sexual que inclui o corpo, o toque, a comunicação clara e o consentimento. O Tantra, por sua vez, é uma filosofia espiritual milenar, que compreende o corpo como um mapa do universo. Tudo o que existe fora, está em nós. No Tantra que estudo, não se separa o sagrado do profano. Tudo é expressão da mesma consciência.
SS: Como você define o Tantra?
Jaya Devi: O Tantra surgiu na Índia entre os séculos IV e V, e se espalhou pelo Tibete, China e sudeste asiático, influenciando o budismo e outras tradições. Há várias linhagens, muitas delas com visões dualistas. Mas as linhagens não-duais, que estudo mais profundamente, trazem uma visão de mundo em que tudo é consciência. A energia sexual, a morte, o medo, o sangue menstrual, tudo isso pode ser visto como sagrado. O corpo é um portal para essa compreensão.
SS: Como você conduz os atendimentos?
Jaya Devi: Trabalho com atendimentos individuais, com casais e em grupo. No individual, começamos com escuta, conversa e investigação sensorial. Depois, quando a pessoa está preparada, introduzimos o toque de forma progressiva, sutil e consciente. Nada é mecanizado. A pessoa é convidada a comunicar o que sente o tempo todo. Trabalhamos com mapeamento corporal, percepção dos tipos de toque, respostas do sistema nervoso e ativações do prazer de forma expandida. O genital é incluído só quando há uma base de segurança e escuta muito estabelecida. O objetivo não é a masturbação ou a performance, mas a reconexão.
SS: E o trabalho em grupo?
Jaya Devi: Nos grupos, temos vivências, oficinas e treinamentos mais longos. Além da teoria sobre o tantra e a sexologia somática, fazemos práticas de toque, sempre com base em consentimento, comunicação e segurança. Também trabalhamos respiração, auto-toque, visualizações, mapeamentos e experiências corporais diversas. A troca em grupo potencializa o processo, traz espelhamentos e acolhimento. É uma experiência profunda de reconexão consigo e com os outros.
SS: Como sua formação em Geografia te influencia hoje?
Jaya Devi: Durante um tempo achei que não tinha conexão. Mas percebi que a Geografia me deu uma visão de mundo ampla, um olhar crítico e sensível para os espaços. E tudo que trabalho hoje tem relação com espaço: o corpo é um espaço, a relação é um espaço, a escuta também é. O Tantra fala muito sobre isso também: o espaço como condição de existência. E claro, o contato com a natureza, com os ciclos, tudo isso influencia minha visão de corpo e de prazer.
SS: Quem procura por seu trabalho?
Jaya Devi: Hoje recebo mais mulheres do que homens. Muitas buscam ampliar o prazer, reconectar-se com o corpo, entender a sexualidade de outra forma. Mas a maioria quer sentir mais: na vida, na relação, em si mesmas. Homens ainda chegam mais quando já têm um problema. Poucos vêm por desejo de explorar. Mas isso está mudando.
SS: Como lidar com tanto tabu em torno da sexualidade?
Jaya Devi: É um desafio constante. Na família, nas redes sociais, nos espaços públicos. O Instagram é um exemplo: meu perfil já sofreu diversas denúncias. É curioso como temos tanta dificuldade para falar de algo tão essencial quanto o sexo, como se fosse algo sujo ou proibido. O Tantra ensina que onde há medo, há caminho. E isso vale para o sexo, para o corpo, para o sentir. Onde há tabu, há potencial de liberdade.
SS: Que mensagem você deixaria para quem tem medo de se abrir para esse sentir?
Jaya Devi: O tamanho do medo é proporcional ao tamanho da liberdade que está do outro lado. Se o medo é muito grande, talvez seja exatamente por ali que o caminho passa. Claro, não falo de medos reais, concretos. Mas os medos psíquicos, que nos paralisam, escondem grandes possibilidades. Comece falando sobre isso. Busque apoio. O sentir é um processo. E a sexualidade é uma via riquíssima de autoconhecimento, de cura e de prazer de viver.