Sentir para viver melhor
Criador da Oficina da Alma, o psicólogo mineiro Matheus Cautiero é referência em Focalização no Brasil e nos conta de que forma Eugene Gendlin e Carl Rogers enfatizaram a abertura ao sentir no processo terapêutico
Abrir-se para o sentir é o mesmo que se abrir para a vida. Essa é a conclusão do psicólogo Matheus Cautiero, coordenador do Focusing Institute New York no Brasil e criador da Oficina da Alma. Talvez por isso, pessoas que possuem essa abertura à experiência sentida sejam as que obtêm melhores resultados nos processos terapêuticos.
“Muita gente busca terapia, busca caminhos espirituais, para tentar não sentir, para tentar controlar o emocional, quando, na verdade, o alívio e a segurança vão vir justamente quando se pode dar boas-vindas a todas essas experiências.”
Matheus mergulha na abordagem da Focalização — método terapêutico desenvolvido por Eugene Gendlin juntamente com Carl Rogers — para mostrar como o corpo, quando escutado em sua sabedoria implícita do sentir, pode nos guiar em processos profundos de cura, escolha e reconexão.
Nesta entrevista ao sobresentir, Matheus fala da importância de dar espaço ao que ainda não tem nome, da relação entre corpo e alma e do quanto a psicologia e a espiritualidade podem (e devem) caminhar juntas.
Com leveza, profundidade e muitos exemplos da clínica e da própria trajetória, ele convida a desacelerar a mente, a descer do racional ao corpo e a aprender a habitar o sentir.
“O corpo é o palco da experiência sentida. E quando damos espaço para isso, uma sabedoria começa a emergir.”
SS: O que é exatamente a focalização e qual a origem dessa abordagem?
Matheus Cautiero: A focalização foi criada por Eugene Gendlin, um psicólogo austríaco que fugiu da guerra ainda menino e foi para os Estados Unidos. Lá, ele se formou e fez doutorado em filosofia. Durante a sua jornada, conheceu Carl Rogers, mais conhecido no Brasil, e considerado um dos pilares da psicologia humanista. Rogers foi fundamental para os passos que Gendlin deu depois, pois foi o primeiro a dizer que o caminho terapêutico que tinha mais eficiência era aquele onde o terapeuta consegue, na conversa, trazer o foco para o sentir. O terapeuta cria intervenções que vão ajudar o cliente a perceber qual é o sentimento que está vivenciando.
SS: Como funciona essa técnica na prática terapêutica?
Matheus Cautiero: A Focalização nos ensina um caminho para o sentir que começa de uma forma não conceitual. Nos estágios iniciais, o que sentimos não tem nome, não tem conceito. E devemos reverenciar isso. É preciso dar espaço para aquilo que a gente sente surgir, sem necessariamente nomear. É algo muito diferente do que a gente está acostumado. A gente quer por palavra, rótulos, a gente quer preencher silêncios o tempo inteiro. Isso cria um congestionamento na experiência que trava o sistema.
SS: Gendlin desenvolveu estudos para medir essa capacidade de sentir?
Matheus Cautiero: Sim. Gendlin e Rogers fizeram uma pesquisa profunda e criaram uma escala experiencial para mensurar o relacionamento da pessoa com sua experiência sentida. Essa escala experiencial não foi feita para criar um diagnóstico fixo, mas para servir de orientação aos terapeutas sobre que lugar o cliente está no relacionamento com a experiência sentida. Nessa escala de 1 a 7, no nível 1, por exemplo, a pessoa está tão dissociada do sentir que nem fala de si. Fala do vizinho, da novela, está sempre distante. Então, descobriu-se que com essas pessoas não importa a abordagem usada ou a experiência do terapeuta, pouco resultado se tem com quem não tem essa abertura ao sentir. Foi aí que Gendlin começou a descobrir como ajudar a criar mais pontes para essas pessoas que têm tanta dificuldade no sentir.
SS: Qual a diferença da abordagem do sentir da Focalização em relação a outras vertentes terapêuticas?
Matheus Cautiero: Muitas vertentes terapêuticas enfatizam o mental, a análise, o entendimento. O que a gente tem visto é que isso pode ser uma bela defesa, muito bem construída. Por que o sentir é tão temido? Porque ele vai nos levar para lugares que eu não controlo. Quem é que confia nessa arte de se entregar ao fluxo da vida, ao fluxo da experiência? Abrir-se para o sentir é o mesmo que se abrir para a vida. O medo da vida é o medo do sentir. O medo do sentir é um medo de viver. Essa relação é muito clara, é muito interessante a gente perceber.
“Quem é que confia nessa arte de se entregar ao fluxo da vida, ao fluxo da experiência? Abrir-se para o sentir é o mesmo que se abrir para a vida.”
SS: Como isso se manifesta na clínica?
Matheus Cautiero: Uma experiência que me marcou muito foi uma pessoa, que já tinha 17 anos de análise, chegou para uma sessão por insistência da sobrinha e me disse: “Olha, eu só tô vindo aqui porque minha sobrinha pagou a sessão, queria que eu te conhecesse, conhecesse a Focalização. Mas, eu acho desnecessário, porque eu já entendi tudo o que se passa comigo. Foi assim com meu pai, eu tive esse complexo…, depois isso aconteceu na minha vida, eu estudei…”. Ela foi descrevendo a história dela, toda organizada e elaborada mentalmente. Em determinado momento, ela falou: “Aí eu tive um amigo que faleceu.” E a voz dela embargou.
SS: O sentir veio.
Matheus Cautiero: Eu falei: “Só um minutinho. Eu percebi que, quando você tocou no assunto do seu amigo que morreu, sua voz embargou. Parece que algo te tocou nisso.” Quando eu disse isso, ela começou a chorar e não conseguia parar. Só que ela começou a pedir desculpa. Eu tentava ainda ajudá-la a compreender que ela estava se sentindo culpada por acessar aquele sentimento de algo tão profundo, tão sentido, tão necessário. Mas ela não conseguiu. Ela ficou o resto da sessão chorando e pedindo desculpa por estar sentindo, porque pra ela aquilo ali era uma desorganização.
Então, quando a gente vai para esse lado de organizar tudo nas caixinhas mentais, temos a sensação de que as coisas estão num controle, estão organizadas.
SS: Como ela compreendeu esse processo sentido?
Matheus Cautiero: Ela não estava ali exatamente por uma vontade dela. Ela foi convidada a conhecer um outro trabalho. Mas aquele trabalho foi muito assustador, porque tirou ela de uma zona de conforto e de controle e, mesmo a possibilidade de reconhecer aquilo como um alívio, não foi muito bem-vinda, porque ela começou a se cobrar e se culpar por estar sentindo. Então isso é muito comum, a pessoa começa a sentir e fala: “Desculpa.” É claro, que essa cliente nunca mais voltou.
SS: Como a Focalização poderia ajudar essa pessoa?
Matheus Cautiero: A Focalização foi criada a partir de estudos de mais de 11 anos realizados por Eugene Gendlin e Carl Rogers. Depois, Gendlin começa a desenvolver algumas pesquisas para entender o que torna uma terapia realmente efetiva. Ele percebe que algumas pessoas não melhoram. Troca de terapeuta, troca de abordagem, e não apresentam melhora. E outras pessoas, que chegavam com uma abertura, era o oposto, Então, o que se descobriu? Que as pessoas que não melhoraram, tinham uma incapacidade de fazer esse contato interno sentido. E as pessoas que melhoraram eram aquelas que tinham essa capacidade.
SS: Como se acesse esse sentir?
Matheus Cautiero: Uma das características mais interessantes que se notou nesse tipo de pessoa aberta ao sentir é que, ao falar de si, elas faziam pausas. Faziam pausas para focar, para ir atualizando, como se elas estivessem ali, consultando em tempo real o que estão sentindo. A alma não é igual ao Google em que você faz uma pergunta e, em milésimos de segundos, tem 8 mil respostas. A alma tem outro tempo. Ela precisa de espaço para ir formatando uma resposta que começa, às vezes, só com uma impressão vaga, difusa, que Gendlin chamou de felt sense, a sensação, que é a base da construção do sentir.
Nesse felt sense, há um caminho cheio de informações que ainda não são conceituais, mas são implícitas e significativas. Quando a gente está num lugar e se sente desconfortável, mesmo sem entender porquê, o nosso corpo já sabe que tem algo que não está bom. Aí eu vou para a Focalização, que é uma atenção dirigida para um processo interno que está acontecendo.
SS: A Focalização é uma escuta interna?
Matheus Cautiero: A Focalização é uma ponte para o coração. Ela é uma ponte para o sentimento. Gendlin entendeu que esse processo é mais fácil se a nossa atenção primeiro começar a ser um pouco mais introspectiva. Na introspecção, fazemos contato com aquilo que sentimos, mas ainda não sabemos do que se trata. Esse espaço introspectivo foi o primeiro grande passo, um resgate maravilhoso, dado por Gendlin. O segundo, é trazer o corpo como parte do processo. Então ele criou um sistema de passos que vai nos convidando a voltar a atenção para o corpo, que é o que eu chamo de o palco da experiência sentida.
SS: No Mindfulness incentivamos as pessoas a nomearem os sentimentos. Na Focalização, esse processo parece demandar um tempo maior, para surgir mais espontaneamente, é isso?
Matheus Cautiero: Sim, deixar surgir. Eu me lembro de um cliente que não sabia dizer o que estava sentindo e começou a ficar angustiado. Aí eu comecei a trazer para ele: “Olha, eu vou trazer aqui alguns nomes e você me diz se algo do que você está sentindo se parece com isso.” Não sei se vocês se lembram de um programa do Silvio Santos que se chamava ‘Qual é a música?’ .E ali, quando eu fui oferecendo palavras, é como se eu tivesse oferecendo notas para uma música que ele ainda não sabia o nome. A gente vai procurando: “Veja essa nota, veja se encaixa. Eu estou com medo?” “Não.”Eu estou me sentindo culpado?” “Matheus, isso! Eu acho que é isso aí.” E aí o Pablo vai e dança, acertamos a nota, acertamos a música: culpa.
SS: A manifestação se dá através do corpo?
Matheus Cauthiero: Quando dou aulas para terapeutas, tenho a segurança de ensinar um método que o corpo é que vai nos confirmar se estamos no caminho. A segurança não vem do que eu acho que é, porque, na verdade, eu não sei. E, na verdade, você também não sabe. Mas a minha confiança, o que me deixa seguro, é saber que o seu corpo sabe, e que algo aí dentro, que está vivo, que é esse processo sentido, vai nos dizer, se a gente puder consultá-lo.
Então eu costumo dizer que o seu corpo é o nosso mestre. Quando for a palavra correta, eu não vou ter dúvida, porque o meu corpo sinaliza isso em forma de um movimento sentido. Não sei se você se lembra de algum momento em que você sentiu que compreendeu algo. Ou que alguém te compreendeu, que te ajudou a acessar uma tecla. A gente precisa aprender a consultar essa bússola interna que vai nos guiar em cada decisão. O problema é que a gente não está acostumado, a gente não foi educado a esse tipo de consultoria.
“Eu costumo dizer que o seu corpo é o nosso mestre (…) A gente precisa aprender a consultar essa bússola interna que vai nos guiar em cada decisão.”
SS: Seria maravilhoso termos sinais como uma fisgada que nos desse respostas: devo fazer isso ou não?
Matheus Cautiero: A gente só precisa tomar cuidado para não interpretar de uma forma simplista e superficial que uma fisgada significa não, ou que um calorzinho significa sim. É uma investigação mais profunda. Às vezes, a fisgada não significa que não devo ir à reunião com a Roberta e com o Lucas. A fisgada está me dizendo que tem algo aqui que está com medo de ir e não conseguir ser claro naquilo que eu gostaria de dizer. E aí, quando eu compreendo, isso se solta e vem o alívio: “Ah, era isso, era só uma parte em mim com medo!”
SS: E como você vê a importância de educar para o sentir na nossa sociedade?
Matheus Cautiero: Na nossa sociedade não tem uma escola do sentir. Nós precisamos criar isso. O que vocês estão fazendo é maravilhoso, que é poder trazer mais informação, chamar atenção para isso que é tão importante e ainda tão negligenciado. Talvez as próximas gerações possam chegar com outro equipamento emocional, cerebral. Mas a nossa geração, ela foi toda ensinada ao não sentir, a uma repressão, a uma desconsideração à experiência do sentir.
SS: Você observa maior abertura das pessoas em sua experiência clínica?
Matheus Cautiero: Está acontecendo uma mudança linda, e a gente é parte dela. Eu vejo uma distância gigantesca das mulheres em relação aos homens. O público que busca caminhos terapêuticos, autoconhecimento e que tem interesse por essa via é uma imensa maioria de mulheres. São seres mais abertos ao sentir. Os homens ainda estão muito marcados por uma rigidez de um masculino que também vem sendo questionado e está se quebrando.
As vertentes terapêuticas estão mudando e estão chegando novas propostas que têm um potencial transformador incrível. Por exemplo, a Experiência Somática, que surge como um avanço, um novo passo, uma variação da Focalização. E outras vertentes que têm por base a sensopercepção, o sentir. E não é qualquer “sentir”, porque sempre se falou em sentir na psicologia, de alguma forma. Mas o que o Gendlin traz de volta é o corpo como o palco da experiência sentida. Isso é maravilhoso. E não é só essa maquinaria física, mas é um corpo sentido. É um corpo que, em determinado momento, ganha uma dimensão mais profunda, um corpo cósmico, um corpo que tem uma interação total com todo o ambiente, e que tem informações e muita sabedoria. É um corpo sentido.
“O público que busca caminhos terapêuticos, autoconhecimento e que tem interesse por essa via é uma imensa maioria de mulheres. São seres mais abertos ao sentir.”
SS: Essa abertura para o sentir pode ser vista como um ideal terapêutico?
Matheus Cautiero: Essa abertura para a experiência é considerada por Rogers como uma das características da pessoa plena. A gente pode falar que uma meta terapêutica é desenvolver essa abertura. Muita gente busca terapia, busca caminhos espirituais, para tentar não sentir mais isso ou aquilo, para tentar controlar esse emocional, para que ele pare de se manifestar. Quando, na verdade, o alívio e a segurança vão vir quando justamente eu posso dar boas-vindas a todas essas experiências, a todos esses demônios aqui dentro. A gente quer o tempo inteiro ter controle para sentir que está tudo bem.
SS: Há quem consiga controlar tudo, todas as emoções?
Matheus Cautiero: Essa é só uma ilusão. Se a gente reparar bem como caminhamos, como as coisas acontecem na vida, o que nos fez chegar até aqui. Foi de uma forma linear, controlada? A gente vai tateando, vai sendo movido, despenca de um lugar, e enquanto lamenta que caiu, já começa a comemorar o que encontrou nesse novo lugar. E depois é que entende: “Eu não encontraria isso se eu não tivesse despencado dali.” Veja o mundo, como se move, as guerras, as confusões, as políticas, as sociedades. É o tempo todo uma construção, uma desconstrução. Aparentemente é caótico. Essa instabilidade, a gente vivencia o tempo inteiro. Eu estou aqui, bem, de repente eu paro para ver como eu estou, para uma auto-focalização, para uma meditação e me surpreendo com lágrima. Tem algo aqui dentro que me faz chorar. Eu nem sei do que se trata, mas tem uma tristeza. Parece um caos para quem tem a pretensão de querer manter tudo sob controle, tudo organizado, numa falsa ideia de segurança. Quando, na verdade, nós não temos esse controle. E a segurança não vai vir do controle, vai vir justamente dessa capacidade, dessa entrega, desse estado de presença que confia que o que a gente precisa vai estar disponível a cada passo. Que cada situação tem o aprendizado que vai nos impulsionar para o próximo passo. É uma confiança na experiência, na vida.
“A segurança não vai vir do controle, vai vir justamente dessa capacidade, dessa entrega, desse estado de presença que confia que o que a gente precisa vai estar disponível a cada passo. Que cada situação tem o aprendizado que vai nos impulsionar para o próximo passo.”
SS: Estamos falando de corpo, mas você coordena um espaço que se chama Oficina da Alma. Como você une psicologia e espiritualidade no seu trabalho?
Matheus Cautiero: O meu trabalho sempre foi criar uma conexão entre psicologia e espiritualidade. Eu não consigo ver o ser humano sem essa dimensão. Mas eu também não consigo trabalhar com a espiritualidade sem a psicologia. A psicologia tem muito a contribuir para a espiritualidade, mas a espiritualidade não entra no currículo de um psicólogo. Então, a Oficina da Alma é um espaço onde eu tenho liberdade para fazer essa junção. Porque eu não tinha muita liberdade, em alguns caminhos espirituais que eu frequentei, para incluir a psicologia – que acho muito necessário. Como é que se fala de perdão se a pessoa não conhece o processo de perdoar? Que o perdão significa, inclusive, a capacidade de reconhecermos que estamos magoados. E eu já quero enfiar um perdão goela abaixo. É muito mais uma repressão do que um trabalho de transformação. Então, eu entendi que, para um caminho espiritual ser efetivo, ele também precisa ser sentido. A gente também tem que deixar de ser muito teórico nessas dimensões espirituais. Porque, se não, a gente corre o risco de uma dissociação muito grande: de eu ter um corpo teórico muito claro e achar que por isso eu vivo de acordo com o que eu já entendi. E aí eu vou viver me cobrando todas as vezes que agir ou sentir em desacordo com esse ideal espiritualista que eu tomei para mim.
“Como é que se fala de perdão se a pessoa não conhece o processo de perdoar? Que o perdão significa, inclusive, a capacidade de reconhecermos que estamos magoados.”
SS: Como a Focalização ajuda nesse caminho espiritual?
Matheus Cautiero: Com a Focalização, eu busco caminhos de integração e de abertura de espaço para essa dimensão transcendente. Assim como as nossas dores são sentidas, palavras muitas vezes não são capazes de explicar essa dimensão transcendente. Quando eu quero falar sobre espiritualidade, sobre Deus, nós vamos conceitualizar isso? Tem hoje uma corrente que eu acho perigosa, querendo dizer que só tem valor aquilo que é validado cientificamente. Nós não temos instrumentos para validar a presença, o ser.
Mas nós podemos abrir um espaço para sentir como é a minha relação com Deus. Não é o que eu entendo que deva ser, o que eu entendo que é, mas é o que eu sinto. Isso não vai ser por uma via racional, jamais. A gente vai tentando dar nome, mas é duro. Sentir requer essa abertura, esse despojamento de todo esse controle racional, para que a experiência possa se revelar e nos levar a esses lugares aqui dentro que nutrem, que acalmam. E eu acho que isso é hoje a nossa maior necessidade.
SS: O que é o Evangelho Sentido?
Matheus Cautiero: Há oito anos, eu propus trabalhar o Evangelho através da Focalização. Eu não sou um teólogo, eu não estou aqui para ensinar as Escrituras. O que eu propus foi uma experiência sentida ao ouvir o Evangelho. Como o seu corpo reage quando você escuta determinada passagem? Eu leio pausadamente, peço silêncio e observamos a sensação do corpo. A gente vai fazendo os passos da Focalização Aí surgem coisas surpreendentes: dores, raiva, às vezes uma paz absurda em meio a uma situação onde Jesus está sendo preso, mas a confiança Dele transmite tranquilidade. Outras pessoas sentem raiva, que nem sabiam que tinham. O meu trabalho está sendo levar o sentir para esse caminho espiritual, para que a gente deixe de ser muito teórico nessas dimensões e não caia nessa dissociação. Nesse sentido, eu acho que o Oriente está bem mais avançado quando propõe as práticas de meditação. São sempre práticas sentidas. No Ocidente, acho que temos menos essa habilidade. Como é a minha relação com Deus? Não é o que eu entendo que deva ser ou o que que eu entendo que é, mas o que eu sinto quando eu ouço essa palavra? Quando levanto essa questão, eu começo a abrir espaço para esse vago surgir e me fazer perceber, por exemplo, que eu me sinto distante. Que eu falo de Deus, mas me sinto distante. É uma experiência que pode fazer com que eu vá justamente me aproximando porque eu quero me sentir unido. Esse processo não vai ser por uma via racional, jamais. Isso é uma experiência sentida. A gente vai tentando dar nome, mas é puro sentir.