Como os sentimentos moldam nossas escolhas segundo as Neurociências
Em entrevista ao SobreSentir, a professora da Pós-Graduação da PUC Minas e doutoranda em Neurociências pela UFMG Mayumi Terayama Sallum , explica como as emoções influenciam o aprendizado ea tomada de decisão
Emoção também é assunto da Ciência. Embora, historicamente tenha sido relegada a um segundo plano, por conta da primazia do intelecto, hoje ela está no foco da chamada Neurociências.
As descobertas já indicam que mesmo as nossas decisões mais racionais estão carregadas de tintas emocionais. Além disso, é através do Sentir que transformamos informação em conhecimento.
É justamente essa influência do sentir e das emoções no processo de aprendizado e na tomada de decisão o foco dos estudos de Mayumi Terayama Sallum. Há quase sete anos ela sentiu que era hora de investigar essas questões a fundo depois de uma década de experiência trabalhando com Gente em empresas multinacionais de grande porte.
Mayumi abandonou o mundo corporativo para cursar o mestrado da UFMG em Neurociências e Ciências Sociais Aplicada, onde estudou a influência das emoções no potencial empreendedor e no processo de tomada de decisão.
Hoje, além das aulas na Pós-Graduação da PUC Minas, ela Doutoranda pelo Programa de Pós-Graudação em Neurociências da UFMG.
“Existem vários estudos científicos, tratamentos, descobertas sobre mecanismos cerebrais, funcionamento, etc. Mas, não podemos ignorar a intuição que também é muito importante para a tomada de decisão. Embora não esteja relacionada a nada do que estudei, esse processo de intuir, que é único, diferente para cada pessoa, é capaz de apontar coisas que ainda não percebemos. Foi assim que eu comecei na Neurociências. Foi pela intuição.”
Nessa rica conversa com o SobreSentir, Mayumi discorre como os sentimentos e as emoções são grandes aliados em nossa jornada de vida.
SS: Como as neurociências se envolvem nesse processo de entendimento das emoções?
Mayumi T. Sallum: A emoção é algo que sempre me fascinou, mas é algo que não tem um consenso na literatura. Existem definições de dicionário, em que até há uma mistura entre emoções e sentimentos, o que para a literatura da Neurociências tem uma distinção, inclusive entre sensação, sentimento e emoção. Lembrando que a abordagem com relação às emoções, é antiga, ela veio se desenvolvendo desde a Grécia Antiga. Para Platão as emoções eram consideradas cavalos selvagens que precisam ser domesticados pelo intelecto. Por isso que eu vejo que a Neurociência, que é uma ciência recente e vem estudar também as emoções, tem sim a sua maravilha, a sua contribuição, que é colocar a emoção ali no foco
SS: E tem conseguido?
Mayumi T. Sallum: Sim, houve uma valorização nos últimos. Até se pensarmos no Quociente de Inteligência (QI), que depois do Goleman (Daniel Goleman, autor de “Inteligência Emocional”) passa a não ser a única forma de definir o sucesso de uma pessoa. A Inteligência Emocional ganha os holofotes. Mas antes disso, na década de 30, já se falava sobre Inteligência Social, que engloba a percepção da emoção do outro para relacionamentos de maior sabedoria. Mas ela foi muito rechaçada.
SS: E hoje também se fala de uma Inteligência Espiritual. Inclusive tem um livro maravilhoso sobre isso, “Inteligência Espiritual”, de Francesc Torralba.
Mayumi T. Sallum: Sim, e essa questão da espiritualidade chama muito atenção. As Neurociências, no meu ponto de vista, explicam cientificamente coisas que a espiritualidade mostra. A ciência está engatinhando, ainda não explica tudo, há um gap de literatura, mas as questões espirituais têm o seu lugar.
Existe uma dificuldade em investigar questões espirituais porque a ciência demanda instrumentos de medida, validados na literatura, estatisticamente elaborados. No meu mestrado, por exemplo, eu utilizei o Face Reader, uma tecnologia que permite ler emoções faciais, para aferir resultados. Eu me aprofundei na teoria do Paul Ekman sobre as sete emoções básicas, universais, inatas.
SS: As que ganharam fama com o filme “Divertidamente”?
Mayumi T. Sallum: Sim, com o “Divertidamente 1” – o filme dois eleva um pouco a dificuldade, até por causa da idade da Riley, que é a personagem principal que na adolescência ganha a ansiedade, a vergonha e outros sentimentos que, na verdade, para o Ekman não são consideradas emoções básicas.

SS: As Neurociências têm uma distinção clara para o que chamamos de sentir, sentimento, que é diferente de emoção? Explica um pouco pra gente esses conceitos sob a ótica das Neurociências.
Mayumi T. Sallum: O sentimento é mais uma expressão subjetiva individual. A emoção é fugaz e é algo que é perceptível no outro de maneira universal. Então eu sei quando você está com raiva, quando você está triste, alegre.
Tanto emoção quanto sentimento são influenciados pelo ambiente, pelo meio que a gente vive. Eric Kandel – que é um neurocientista, Nobel de Medicina, estuda há mais de 40 anos um organismo muito simples, a Aplysia, que são lesmas do mar -, fala, e eu concordo bastante, que a contribuição dessas ciências neurais, que estudam o sistema nervoso, é justamente entender como milhões de neurônios, que são células neurais, produzem determinado comportamento. E esse comportamento é influenciado pelo meio ambiente e pelo comportamento dos outros.
“as emoções acontecem mediante um estímulo emocionalmente competente”
Quando você tem esse pano de fundo, é possível entender um pouco do que seriam emoções. Porque as emoções acontecem mediante um estímulo emocionalmente competente, que geralmente está fora de você. Por exemplo, você viu uma cobra – tem gente que tem medo de cobra, tem gente que não tem. Mas, vamos lá, ver uma cobra seria um estímulo emocionalmente competente. É uma cobra. Aí você vai sentir medo.
A teoria somática do filósofo e psicólogo americano William James, de 1890, fala que esse encadeamento – vi uma cobra, tenho medo e corro – está errado, porque está invertido. Na verdade é: eu tenho medo porque eu corro. Ele inverte a situação. A gente percebe, tem o estímulo emocionalmente significativo, eu tenho algumas reações e por isso eu tenho medo. O que ele define com relação a emoções é a percepção dessas reações/sensações corporais. A sensação é diferente de emoção, que é diferente de sentimento também.
SS: Na Neurociência, o sentimento, diferente do sentir, tem a ver com um processamento interno associado a uma mente consciente? Sem mente consciente você não tem sentimento, poderíamos dizer assim?
Mayumi T. Sallum: O medo não é assim tão consciente, né? É luta-fuga. Você percebe o ambiente, dispara a amígdala, vem uma sensação de ameaça, de proteção, de sobrevivência. O sangue vai para as pernas, você tem uma tendência a correr. Isso mexe com seu eixo HPA, tem uma produção de cortisol, que induz a liberação de adrenalina pelas glândulas adrenais e isso dispara hormonalmente algumas substâncias químicas no seu corpo e você tem essa tendência a sair correndo, por exemplo. Seu corpo é todo preparado para isso.
Se eu pegar o Ekman como referência, a emoção é algo universal, inato. Já o Goleman nos diz que é algo fugaz, de sobrevivência. Kandel fala sobre reações fisiológicas, não consicentes, mobilizadas por um estímulo externo oriundo de um meio ambiente.
SS: Em um processo de decisão é possível separar completamente as emoções das nossas escolhas racionais?
Mayumi T. Sallum: É um ponto muito interessante, a dualidade, que é o “Erro de Descartes”, título do livro do neurocientista António Damásio. Ele trabalha essa questão dos estímulos emocionalmente competentes, significativos, que vão gerar determinada emoção. E afirma que não tem como desassociar emoção de razão no processo de tomada de decisão.
Para dar um contexto, Damásio é um médico neurologista que trabalhava com pacientes com dano no córtex pré-frontal ventromedial, que fica acima do órbito ocular. Quando danificada ela produz comportamentos inesperados. Por exemplo, fazer xixi fora do banheiro, no tapete, por exemplo. A pessoa não consegue aprender com o erro e isso gera prejuízos financeiros, prejuízos de relacionamento, uma apatia afetiva.
Damásio fez uma hipótese dos marcadores somáticos, de que as emoções, estariam relacionadas com a tomada de decisão frente a ambientes de incerteza.
Para testar isso, ele criou o Iowa Gambling Task (IGT), que é um jogo de cartas que à medida que você vai fazendo escolhas, perde-se muito dinheiro ou ganha-se moderadamente. Ele fez grupos controle saudáveis e grupo experimental com dano no córtex pré-frontal ventromedial. As pessoas com danos no ventromedial perdiam muito dinheiro quando submetidas a esse teste.
Damásio criou também uma ferramenta para ser um marcador somático pela pele e conseguiu ver que toda emoção influencia a tomada de decisão antes da decisão propriamente dita. Que cada decisão é marcada por uma emoção. Se você, por exemplo, fez uma aposta e perdeu muito dinheiro, você vai ter uma uma emoção de desprezo, alguma emoção negativa, que vai fazer com que você pondere para não tomar a mesma decisão.
“Damásio criou também uma ferramenta para ser um marcador somático pela pele e conseguiu ver que toda emoção influencia a tomada de decisão antes da decisão propriamente dita. Que cada decisão é marcada por uma emoção.”

SS: Você, supostamente, deveria aprender com seu erro?
Mayumi T. Sallum: Sim, mas pessoas do grupo experimental não realizavam isso. Elas continuavam perdendo e perdendo dinheiro. Por que António Damásio fala do “erro de Descartes”? Porque ele diz que não existe esse desse dualismo mente e emoção, corpo e espírito, emoção e a razão. Você não consegue tomar uma decisão sem acionar emoção.
“não existe esse desse dualismo mente e emoção, corpo e espírito, emoção e a razão. Você não consegue tomar uma decisão sem acionar emoção”
SS: E o ambiente também interfere nesse processo?
Mayumi T. Sallum: Uma questão interessante sobre a conexão entre ambiente e emoções: foi feita uma pesquisa sobre o consumo de vinhos em um restaurante. A alteração da música de fundo impactava na escolha “racional” do vinho. Quando eles colocavam uma música italiana, consumia-se mais vinhos italianos. Uma música portuguesa, consumia-se mais vinhos portugueses. Então, como que a gente não é influenciado pelo ambiente
SS: As tomadas de decisões, a nossa inserção no mundo, não estão separadas das emoções. Mas a gente pode aprender mais sobre elas para fazer uma melhor gestão dessas emoções, das nossas escolhas. Daniel Goleman fez crescer muito em visibilidade a chamada Inteligência Emocional, que envolve vários aspectos. Como você trabalha com as crianças em seu projeto de educação empreendedora os aspectos da gestão sócio-emocional?
Mayumi T. Sallum: António Damásio verificou através dos experimentos a relação de emoção e da decisão, mas e aí? O que a gente faz com esse saber? É interessante que vem a inteligência emocional do Goleman. E ele fala em seu livro que é colocar a inteligência nas emoções. E aí eu fico pensando que na verdade, na minha interpretação, seria a gente lidar melhor com as nossas emoções. Quem controla você? É você que controla as emoções ou as emoções que estão lá na posição do piloto, te controlando? A temática das competências socioemocionais é de suma importância para ser atrelada junto ao desenvolvimento da criança.
“No mercado de trabalho fala-se muito isso: você contrata pelo QI e demite pelo QE, pelo Quociente emocional. Você acha que a pessoa inteligente, vai resolver o problema e aí, no final das contas, é um profissional totalmente difícil de lidar. Não sabe trabalhar em equipe, se comunicar, lidar com demandas. Ele acaba sendo desligado.”
SS: Goleman chega a falar que a inteligência emocional é um aspecto muito mais importante para o sucesso de uma pessoa, de uma criança, do que o QI, por exemplo.
Mayumi T. Sallum: Sim. No mercado de trabalho fala-se muito isso: você contrata pelo QI e demite pelo QE, pelo Quociente Emocional. Você acha que a pessoa inteligente vai resolver o problema e aí, no final das contas, é um profissional totalmente difícil de lidar. Não sabe trabalhar em equipe, se comunicar, lidar com demandas. Ele acaba sendo desligado.
Voltando ao Daniel Goleman, no livro “Inteligência Emocional” existem alguns passos sobre como colocar a inteligência nas emoções. O primeiro passo seria a consciência. Depois ele fala como lidar com essas emoções e, em seguida, sobre conter a impulsividade. Como se fosse um autocontrole mesmo dessas emoções em benefício futuro. Você larga a mão do imediatismo pra ter um benefício futuro.
É curioso, porque quando se trata de tomada de decisão pela Neurociências, a gente está falando do córtex pré-frontal de funções executivas, que são muito direcionadas ao controle inibitório, à flexibilidade cognitiva, à nossa capacidade de realizar metas, fazer o planejamento.
Só que essa parte ela só é totalmente desenvolvida depois dos 20 e poucos anos. Então criança e adolescente, serão impulsivos. Aí vem o neuromarketing, vem a questão das redes sociais, dos likes, de rolar a tela, isso tudo gera dopamina. Dopamina está relacionada à recompensa. Ela dá aquele input “faz de novo, faz de novo, faz de novo.”
E se você não tem autocontrole, você vai fazer. Você não pode achar que a criança tem um autocontrole formado, até porque o cérebro dela não está pronto. O adolescente não está pronto.
Realmente é preciso ter pais responsáveis para ficar nesse controle aí, porque eles não estão preparados para tomar decisões e exercer plenamente seu autocontrole.
Fizeram um estudo muito tempo atrás – complementando essa questão terceiro passo do Goleman, que seria o autocontrole – envolvendo crianças, justamente por saber que elas não têm a função executiva totalmente formada, o córtex pré-frontal totalmente desenvolvido. Chama teste do marshmallow. Eles colocam um marshmallow na frente da criança e falaram: “Olha, eu vou deixar você aqui com o marshmallow, vou ter que fazer outras coisas e na hora que eu voltar, se você não tiver comido marshmallow, vou te dar mais um. Você vai ganhar dois marshmallows”. Tem criança que cheira, lambe…
SS: Eles acompanharam essas crianças, não foi?
Mayumi T. Sallum: Esse é o ponto. Eles acompanharam essas crianças, se não me engano por dez anos, e perceberam que as crianças que tiveram autocontrole, não comeram o marshmallow e conseguiram aguardar a recompensa ao final do experimento, tiveram relacionamentos melhores, casamentos mais duradouros, tomaram melhores decisões na vida, obtiveram melhores resultados na escola… Todas as escolhas foram melhores. O sucesso que eles estavam avaliando era justamente essa capacidade da tomada de decisão. Simplesmente resistir a um prazer momentâneo para ter um ganho maior. Isso não está necessariamente relacionado a questões financeiras. Então foi importante até para desmistificar essa crença de que sucesso, abundância, é dinheiro. Há ganhos relacionados ao nosso controle inibitório.
SS: Como é que a neurociência avalia essa impulsividade. Esse desejo que nos faz comer o marshmallow? Ela é benéfica em algum momento?
Mayumi T. Sallum: A Neurociência foca muito em doença, em síndrome. O TDAH, embora não tenha impulsividade no nome, envolve esse estado. É uma disfunção no córtex pré-frontal e um disfunção na produção de dopamina que faz com que as pessoas com TDAH tenham que fazer um esforço muito maior pra prestar atenção, estudar, para controlar essas descargas. Tudo é mais difícil porque elas têm menos dopamina.
Além da investigação com doenças sobre impulsividade, há também investigação com animais. Quando a gente faz estudos em amebas, elas têm uma maior impulsividade quando elas estão em ambientes piores, menos comida. Se elas estão de barriguinha cheia, elas são menos impulsivas. Se elas estão de barriga vazia, elas tendem ser mais reativas.
SS: Você falou que o córtex se desenvolve até depois dos 20 anos. Até lá, a criança vai ser impulsiva. Ainda assim, essa educação sócio-emocional é importante?
Mayumi T. Sallum: Sim, é muito importante. As escolas ainda são muito conteudistas, mas a partir da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi estabelecido o ensino por competências a serem desenvolvidas com crianças e adolescente. O BNCC pega principalmente a educação básica, dos seis, sete anos, até lá na frente. E uma competência da BNCC é projeto de vida, que a gente constrói nos pequenininhos, não somente com os adolescentes, para discutir a questão do futuro. Tem a competência sócio-emocional que hoje as escolas precisam ter, que é essa habilidade de lidar com as emoções socialmente. Temos visto trabalho com yoga, mindfulness, justamente para desenvolver essa consciência emocional.
SS: Como desenvolver isso nas crianças?
Mayumi T. Sallum: Geralmente, as escolas utilizam como material pedagógico o filme “Divertidamente”, e a partir dali constroem diversos projetos: projeto identidade, projeto emoções, projeto dos sonhos, escadas dos sonhos, desenvolvendo outras coisas que não somente o cognitivo: um mais um igual a dois – que é fundamental também.
É curioso, eu cheguei a conversar com uma escola sobre uma proposta para desenvolver o mindfulness, só que lá eles acreditavam na comunidade, que isso tinha um viés religioso e por isso optaram por não colocar.
SS: Curioso, porque mindfulness já é um termo criado para desassociar a meditação da religião, exatamente para poder ampliar para as pessoas que teriam talvez algum tipo de dificuldade em relação a isso.
Mayumi T. Sallum: Sim, com certeza. Tive um momento muito curioso ao dar uma palestra em uma escola sobre educação empreendedora. Os meninos começaram a divagar sobre o que eles estavam sentindo. Eram crianças de nove, dez anos dizendo que tinham muito medo de perder a mãe… Enfim, acabei mudando o foco e trouxe a conversa mais para as emoções, para falar sobre medo e raiva, que são sentimentos, infelizmente, muito comum em crianças e adolescentes de escolas públicas. E é triste perceber que eles não sabem lidar com essas emoções. Até a gente não sabe, quanto mais eles, tão pequenininhos tendo sentimentos tão intensos.
Veja o medo: quando você tem o medo real, de um bicho, como uma barata, isso desperta reações fisiológicas. Quando é um medo de uma coisa que não está aí. “Ah, vou ser mandado embora.” É um medo que te consome. Você está a toda hora gerando cortisol no seu corpo, por causa uma ansiedade. É o medo que gera todo aquele disparo de adrenalina, noradrenalina, cortisol, prejudica seu sistema imunológico. E ao gerar essa tensão, vem a ansiedade.
Por que você está pensando nisso? Traz para o presente, e aí entra o mindfulness. Vamos focar no presente. Vamos transformar essas ideias em ideias positivas? Eu acredito que tem uma importância muito grande justamente para o sucesso das pessoas desde criança, entender, fazer o autocontrole para fazer melhores decisões ao longo da vida.
“Vamos focar no presente. Vamos transformar essas ideias em ideias positivas? Eu acredito que o mindfulness tem uma importância muito grande justamente para o sucesso das pessoas desde criança, entender, fazer o autocontrole para fazer melhores decisões ao longo da vida.
SS: Como funciona o seu trabalho especificamente? O que você faz nas escolas?
Mayumi T. Sallum: Minha atuação é mais de orientação e acompanhamento. Traçamos um planejamento com as escolas do que vai ser feito, elas escolhem o querem trabalhar, qual competência: pode ser socioemocional, planejamento, projeto de vida. A partir daí a gente traça um plano de ação.
Eu fico muito mais nos bastidores, mas quando eles me acionam eu atuo com as crianças, adolecentes e com, os professores. Forma-se um grupo de trabalho geralmente composto pela gestão da escola, professores e eu, com a parte da orientação, até porque eu não vou fico nas escolas o tempo todo .São as professoras que desenvolvem grande parte do trabalho.
SS: Já chegou a conseguir aferir resultado desse trabalho?
Mayumi T. Sallum: Não. Teve uma escola que fez o trabalho dos emojis, avaliando quais emojis os alunos mais utilizavam em um dia normal, sem quedas de luz, interrupção de fornecimento de água, sem tumultos. Estava tudo certo no ambiente, sem muitas externalidades. E fizeram o levantamento sobre as carinhas que mais apareciam e tal. Mas eu não cheguei a ver o resultado dessa pesquisa que a escola mesmo se propôs.
SS (Lucas Tejas): Interessante. Eu tenho um depoimento de uma experiência, sem aferição metodológica. Foi o trabalho de uma ONG que ensinava inglês em uma escola de periferia. Todo final de semana tinha aula de manhã até de tarde e durante um ano entrávamos em cada sala por 20 minutos e fazíamos treinamentos de mindfulness, estudo das emoções, yoga. A gente tinha um grupo que criava a metodologia e foi muito claro que depois de um ano mudou muito o clima na escola. Os meninos muito agitados deram uma acalmada, o interesse pelas aulas aumentou. Todos os professores relatavam como era importante esse trabalho – que continua até hoje. Mas em um ano foi mudando o clima, sim, foi muito perceptível. Foi muito interessante perceber como o menino mais agitado, o que menos queria fazer as coisas, o mais resistente, quando você conseguia convencê lo a entrar numa prática, a meditar, parece que ele era o que mais gostava. Talvez por ele sentir uma calma interior, com o mindfulness, por exemplo, que não fosse muito comum pra ele. Na hora que ele sentia, ele gostava e ele passou a ser meu apoiador ali naquela sala
Mayumi T. Sallum: Que legal. Sim, esse depoimento, essa percepção, é muito interessante. Nas escolas temos os chamados alunos típicos e atípicos. As crianças atípicas são as laudadas, têm autismo, têm TDAH, têm outras disfunções. As típicas… Eu fico me perguntando, eu acho que é todo mundo atípico, sabe? Todos nós temos alguma coisa em algum nível. Mas, tem os alunos que se destacam mais pela hiperatividade. Não ficam sentados de jeito nenhum.
E quando você propõe essas atividades, que são diferentes, que atiçam a curiosidade e que eles percebem algum significado, isso muda. Eles passam a ter interesse por aquilo ali. Infelizmente, a estrutura hoje da escola é uma estrutura industrial, Fordista. Todo mundo sentado na cadeira, anotando o que a professora fala. É muito importante fazer esses trabalhos alternativos.
“Como lidar com esse novo ser, essa nova geração, nesse novo contexto? Como lidar com essa quantidade de criança que precisa e que demanda uma atenção mais específica para determinado tipo de comportamento? Essa experiência de mindfulness e da yoga nas escolas é riquíssima.
SS: O esquema do ensino é realmente fabril. É incrível como não foi repensado, com tanta evolução que a gente teve.
Mayumi T. Sallum: E é de uma hierarquia, que na minha época impunha respeito, um medo. Hoje, o pessoal não está nem aí. Como lidar com esse novo ser, essa nova geração, nesse novo contexto? Como lidar com essa quantidade de criança que precisa e que demanda uma atenção mais específica para determinado tipo de comportamento? Essa experiência de mindfulness e da yoga nas escolas é riquíssima.
SS: Existe uma tentativa da Neurociências em, de alguma maneira, mapear o nosso cérebro?
Mayumi T. Sallum: Sim, através desse mapeamento há uma evolução de descoberta de disfunções e a busca por medicamentos que possam controlá-las ou eliminá-las.
SS: Vai chegar um dia que a gente não vai precisar gastar horas no divã do terapeuta, porque a ciência vai conseguir resolver com um remedinho?
Mayumi T. Sallum: Seria ótimo, mas um remedinho, na minha visão, não necessariamente alopático, uma droga. Se possível, sem efeito colateral. Mas, é uma questão bem polêmica. Já houve mapeamentos cerebrais na Frenologia que buscaram associar cada tipo de reação que a gente tem a um determinado lugar do nosso cérebro.
Eu volto de novo na questão do Kandel sobre o comportamento que envolve milhões de células neurais, neurônios, glias, estruturas funcionais diversas, mais o meio em que estamos envolvidos, a socialização, o contexto. A ciência, sim, evoluiu muito, mas essa questão da doença ainda é o foco. Quando você vai falar com relação aos estudos, sempre envolvem alguma doença, alguma síndrome. O que não é isso, no meu ponto de vista, não tem todos os olhares, não é tão importante. Com a doença, entra a indústria farmacêutica que é riquíssima. Por que ela é riquíssima? Porque tem muita gente doente e estamos falando das consequências e não das causas.
O trabalho com as emoções, que provocam a somatização que gera uma doença, trata a causa e não a consequência. Aí são menos pessoas doentes tomando remédio. Qualquer doença que você é medicado, tem inúmeros efeitos colaterais. É bom, você está sofrendo? Ok, vamos tirar sua dor.
Mas, acho que essa questão dos remédios poderia ter outros protocolos.
Por exemplo, a chamada Depressão Maior, pela definição DSM-5, que é um transtorno do humor. Quando você é diagnosticado, tem um questionário, várias perguntas, mas o que é decisivo para positivar, é, dependendo do nível, a mudança de apetite, mudança de sono, mudança de prazer.
Diagnóstico feito, vamos tomar um remedinho que aí você vai melhorar. Eu acho que teria outras opções. Você está com essa depressão por causa de um contexto. O contexto pode ser um trabalho que você não goste, um relacionamento que te deixa infeliz. O seu corpo está louco, com as reações fisiológicas a mil, adrenalina, cortisol… O corpo tende ao equilíbrio. A vida tende ao equilíbrio. Você vai tomar um remédio, um antidepressivo, que demora quatro semanas para fazer efeito, com o seu corpo o trabalhando artificialmente, nos receptores de serotonina, de dopamina. Ele está tentando ver algum jeito de equilibrar, de fazer a homeostase.
Por que não tentar de outra maneira? Por exemplo, exercício físico, que é maravilhoso e é um protocolo obrigatório para TDAH e para depressão. Você tem que fazer exercício e é todo dia, porque se seu corpo não produz uma quantidade suficiente e dopamina, você vai tomar um remédio que vai diminuir a recaptação de dopamina, vai ter mais dopamina nas fendas sinápticas, isso vai te gerar o maior prazer. Serotonina também.
SS: É todo dia?
Mayumi T. Sallum: Todo dia exercícios aeróbicos moderados. Faz muito bem E será que a gente pode repensar essa questão social também, né? Aí eu já vou entrar numa questão super filosófica sobre o ter em vez do ser, sobre o consumo. Pra que é que eu preciso disso tudo? A gente não pode ser minimalista? Por que eu preciso ficar nesse relacionamento de contrato? São questões que as pessoas se impõem em prol de um outro benefício, que deve ser o do reconhecimento social.
SS: A gente tem que repensar esse segundo marshmallow.
Mayumi T. Sallum: É o Marshmallow. A gente vai criando as nossas próprias armadilhas e prisões. O benefício imediato que o corpo quer é o remédio. Estou sentindo dor, me dá um remédio. O corpo pede isso, essa satisfação imediata. O desafio é a satisfação no futuro. Saber que se eu não fizer isso ou fizer menos ou poupar ou pensar em outras estratégias, eu vou ter um benefício muito maior. Fazer o trabalho necessário para o bem-estar e a felicidade exige empenho.
“Mudar hábito é dificílimo. Seus hábitos são suas referências. Quando você tira os seus hábitos, cadê você?
SS: Exige mudar hábitos, né?
Mayumi T. Sallum: Mudar hábito é dificílimo. Seus hábitos são suas referências. Quando você tira os seus hábitos, cadê você? Mas, não tem outra saída. É você realmente pensar no marshmallow lá na frente e abrir mão de alguma coisa imediata para você se sentir melhor.
SS: A gente tem que escolher as nossas batalhas também. Vou começar por aqui aos poucos, ao mesmo tempo me dando compaixão, me aceitando e respeitando as pequenas falhas.
que é necessário. Mudar algo na nossa vida tem seu desafio.