Entrevista Thaís Germano

A dança do sentir

A psicoterapeuta corporal e bailarina Thaís Germano mostra como dançar abre espaço para o sentir; e como o corpo é um grande aliado no processo terapêutico.

Nem dois para lá, nem dois para cá. A dança do sentir, que arrebatou a psicoterapeuta corporal e bailarina Thaís Germano e que deu nova potência ao seu trabalho como psicóloga clínica, é um mover-se fluido pelo espaço: sem coreografia, sem regras, sem cópias, sem certo ou errado.

Embora a dança a tenha acompanhado desde cedo, foi a partir de sua experiência na Escola Técnica de Dança Angel Vianna, no Rio de Janeiro, que Thaís encontrou uma nova perspectiva sobre o dançar e o sentir.

A bailarina, coreógrafa, pesquisadora e mestre da dança Angel Vianna, falecida em 2024, foi a precursora das noções de Consciência Corporal no Brasil e formou grandes nomes da dança contemporânea. Foi em sua Escola e Faculdade de Dança – primeiro como aluna, depois como professora -, que Thaís lapidou a sua própria “dança”.

“Até chegar na Angel, a dança que conhecia era aquela em que a gente imita um professor que está de frente a um espelho”, conta Thaís. “Quando entrei na Angel e vi que a maioria das salas sequer tinha espelho e a orientação de movimento era feita através da sensopercepção, foi incrível. Foi uma descoberta absurda poder gerar movimentos por dentro, pela sensação do meu próprio corpo.”

“Foi uma descoberta absurda poder gerar movimentos por dentro, pela sensação do meu próprio corpo.”

O “bailar” da psicoterapeuta corporal Thaís também inclui diferentes cadências, entre elas, a Experiência Somática, a abordagem relacional do Movimento Autêntico, o Método Bertazzo e, de forma mais sutil, a abordagem corporal do psicanalista Wilhelm Reich.

“Reich foi a minha primeira especialização depois de formada em Psicologia. Fez algum sentido no início da minha clínica, agora não mais, embora a minha leitura de corpo passe por ele.”

Radicada em Brasília, Thaís faz um convite ao aprofundamento do sentir através do movimento, seja em atendimento individual, em consultório, seja em grupo, com o Coletivo CorpoConsciente, fundado em parceria com a psicóloga, psicodramatista e dançarina Clara Gomes.

Nessa entrevista, que pode ser vista na íntegra no canal do Sobresentir no YouTube, Thaís nos instiga a descobrir a própria dança. “Existem tantas danças quanto corpos. A Angel nos ensina isso. Cada corpo tem a sua própria dança. Não existe um ideal de movimento, um ideal de posição ou um ideal de corpo.”

SS: Qual é a importância do sentir na sua trajetória pessoal e profissional? 

Thaís Germano: É uma super pergunta, que eu venho vivendo, experimentando e corporificando desde a minha passagem pela Escola de Dança Angel Vianna, que foi onde tudo começou. Por isso, não há uma resposta breve e concisa. Assim que eu entro nessa escola que propõe uma vivência intensa – na carga horária, nas práticas, nas propostas -, eu ganho muita percepção nova sobre mim e sobre o mundo. Passo a ver as relações de uma outra forma. A dança contemporânea da Angel Vianna, que passa pela conscientização pelo movimento, foi me abrindo espaço interno. Uma sensação de soltura de corpo e a possibilidade de eu ser cada vez mais eu, de ser o meu corpo, um corpo único e uma pessoa única. Que pessoa vai conseguir dançar melhor a minha dança se não eu mesma? E isso pode parecer pouco, mas pra mim é tão grande e profundo.

SS: Como a experiência da dança impactou a sua vivência como psicóloga?

Thaís Germano: A minha ação na Psicologia se modificou muito. Eu me transformei em uma psicóloga diferente, no sentido do respeito ao indivíduo. É claro que a gente aprende isso no curso de Psicologia, mas eu sinto que eu pude encarnar isso de forma mais palpável na minha clínica depois da Angel Vianna.

SS: Como isso se reflete em seu trabalho clínico?

Thaís Germano: A minha clínica é corporal, mas eu não faço uma abordagem tão diretiva: é mais uma opção, um convite. A consciência corporal é muito importante pra mim, enquanto psicoterapeuta corporal. E agora, com a formação da Experiência Somática – que também está nesse lugar de ouvir o corpo, de dar tempo e espaço para o corpo sentir – eu faço um bem bolado na minha clínica. Então quando você me pergunta a importância do “Sentir o Corpo” na minha vida pessoal: há uma Thaís antes e uma Thaís depois desse processo do “sentir” que eu localizo no tempo e espaço Angel Vianna. Enquanto terapeuta eu sinto que esta é a maior base que eu tenho também, no sentido de acompanhar o tempo do outro, de dar tempo e espaço para que o corpo do outro se acomode, sinta segurança na minha presença e crie vínculo para que as coisas possam ir se assentando.

“Quando você me pergunta a importância do “Sentir o Corpo” na minha vida pessoal: há uma Thaís antes e uma Thaís depois desse processo do ‘sentir’ que eu localizo no tempo e espaço Angel Vianna.”

SS: As terapias, em geral, passam muito pela linguagem oral, da fala e do corpo em repouso. E aí eu fico curiosa em entender como é que essa vivência do corpo se aplica dentro de um consultório?

Thaís Germano: Na psicoterapia corporal, além do que a pessoa oferece com conteúdo verbal, a gente traz para a cena o que o corpo fala. Enquanto terapeuta, uma das formas de receber as informações é através da observação. Não é só o que se diz, mas como se diz. Tem dias que a pessoa já chega mais tensa, meio desorientada, atrasada, isso tudo já é informação. Aquilo que ela me conta sobre o que viveu na semana, sobre as questões da vida, é outra parte. Quando eu pergunto como ela sente o próprio corpo ao me contar algo, eu atualizo o conteúdo da conversa para o aqui e agora. O que o corpo sente enquanto fala? O que pode acontecer logo em seguida, quando se coloca a atenção no corpo que sente aquilo que fala? Na dinâmica da relação terapeuta-paciente, também temos um lugar potencial para algo acontecer. Então, o corpo, na minha clínica, é o protagonista.

SS: O corpo fala?

Thaís Germano: Muitas vezes, a pessoa, enquanto fala, não tem consciência de que o corpo está tomado (um pouco naquele lugar de transbordar uma emoção). É aí que eu atuo. “Percebe o seu corpo agora, quando você me fala isso? O que acontece?” Essa pergunta, que é tão simples, abre uma porta para muita coisa acontecer. Essa é uma orientação que tem muito a ver com a Experiência Somática e passa pela consciência do corpo. Porque você vai educando a pessoa a ir se acompanhando enquanto ela está falando aquilo ou enquanto ela está sentindo, porque muitas vezes ela não tem nem consciência de que começou a falar mais acelerado, ou de que quando começou a falar o corpo começou a ficar quente, vermelho e tudo isso é informação do sistema nervoso. E, para o psicólogo, isso é ouro, é onde a gente mais trabalha e mais atua.

“‘Percebe o seu corpo agora, quando você me fala isso? O que acontece?’ Essa pergunta, que é tão simples, abre uma porta para muita coisa acontecer.”

SS: Muitas vezes, as pessoas só começam a entender que a emoção atua no corpo quando se deparam com uma doença sem uma causa evidente. É possível perceber esses sintomas antes da somatização?

Thaís Germano: É preciso voltar a atenção para o próprio corpo e tomar tempo para sentir. Normalmente, a gente não se dá esse tempo. Dificilmente as pessoas têm uma rotina, um trabalho, em que possam se dar tempo e espaço para sentir, ir no próprio fluxo, no próprio ritmo. É comum buscarmos o olhar do profissional para nos ajudar na escuta quando já estamos muito mal. Mas, é preciso resgatar esse tempo de se sentir. Nascemos com isso e vamos desaprendendo. E quando as somatizações, as doenças aparecem, alguém vai lá e ajuda: ou te medica para você parar de sentir; ou, você pode ser orientado a se reconectar com o corpo e começar a respeitar aquilo que o corpo está pedindo. O corpo está pedindo um pouco mais de pausa: é possível você dar essa pausa? “Não, do jeito que eu preciso ainda não”. Mas, que tipo de pausa você consegue dar agora, para que talvez não chegue no lugar de transbordar? Então, as palavras que me vêm são tempo, espaço e escuta.

SS: Como fazer para a pessoa ter mais consciência e sentir mais?

Thaís Germano: Na vida, sozinho, é através do autocuidado que envolve se dar tempo e espaço para começar a sentir. Na clínica, uma pergunta mais diretiva funciona. Também usamos o “espelhamento” para a pessoa ir se acompanhando. Minhas primeiras perguntas passam por: o que você sente quando me fala isso? Ou, o que você está sentindo agora? Algumas pessoas conseguem dizer: “Ah, agora que você falou, eu percebi que meu coração acelerou.” E quando o seu coração acelera, o que mais pode acontecer? A pessoa vai começando a voltar para si. Quando ela não consegue acessar este lugar eu começo a espelhar: você reparou que tomou uma respiração um pouco mais profunda ao falar sobre isso? Ou então, você reparou que você começou a fugir o olhar ao abordar tal assunto? Eu vou dando sinais do que eu vejo e muitas vezes o paciente diz: “nossa, eu não tinha reparado.” Também existem outros repertórios quando o processo do sentir é um pouco mais complexo. A gente tem propostas, que inclusive trabalhamos no Coletivo CorpoConsciente, como a do auto-toque, que permite sentir a pele, perceber as sensações diferenciadas ao tocar o cotovelo e, depois, o dorso da mão; as diferenças de temperatura, de textura. Começar a reparar nessas diferenças vai ampliando a autopercepção, a sensopercepção. Esses exercícios em grupo são muito interessantes, por isso, inclusive, é que a gente trabalha essas propostas mais no Coletivo, que tem um grande embasamento na Angel Vianna.

SS: Vamos falar um pouco do Coletivo CorpoConsciente: o que é? Para quem? Qual a relação do Coletivo com o seu trabalho em consultório?

Thaís Germano: São trabalhos complementares. No consultório eu faço um trabalho individual, bastante centrado na pessoa. Então a sensação de intimidade, de sigilo, é um pouco diferente e é possível ir para alguns lugares que estão protegidos. No Coletivo CorpoConsciente também temos todo um contrato de sigilo, de respeito, de cuidado, mas é um grupo. São propostas um pouco mais abertas e a parte do falar sobre si é um pouco mais concisa. Mas, também chegamos a lugares que não chegaríamos sem que outra pessoa nos trouxesse. Essa experiência de estar com o outro pode abrir um mundo totalmente diferente.

SS: Como surgiu o coletivo?

Thaís Germano: O Coletivo nasceu em 2011 no Rio de Janeiro a partir dessa inquietação despertada com a Angel Vianna, que abriu o mundo da sensação, do corpo. É muito político e revolucionário cada um se apropriar do próprio corpo. Eu queria levar para mais pessoas essa experiência de sentir, mas a clínica é um tanto elitizada. Mesmo que você faça horários mais acessíveis, valor social etc, ainda assim são poucos os que conseguimos alcançar. A ideia sempre foi ser um coletivo que olhasse para o corpo, que olhasse para o sentir, que olhasse para a subjetividade deste corpo presente. Iniciei o projeto em parceria com a Joana Félix, também psicóloga, pós-graduada em Terapia através do Movimento na Angel, sempre pensando nessa união do artístico com o terapêutico. E, ao me mudar para Brasília, em 2016, o trabalho do Coletivo foi retomado com a parceria de uma grande amiga, a psicóloga Clara Gomes, com experiência em psicodrama e também dançarina. Hoje em dia somos seis pessoas no Coletivo CorpoConsciente. Trabalhar com o Coletivo é onde eu me sinto mais viva. O meu sentir fica mais pulsante quando vejo o movimento de grupo, muitas pessoas descobrindo o próprio corpo. Eu acho isso a coisa mais linda.

“É muito político e revolucionário cada um se apropriar do próprio corpo. Eu queria levar para mais pessoas essa experiência de sentir, mas a clínica é um tanto elitizada (…) A ideia sempre foi ser um coletivo que olhasse para o corpo, que olhasse para o sentir, que olhasse para a subjetividade deste corpo presente.

SS: Eu achei ótimo você ter trazido a questão política de uma forma tão suave. Como você definiria o político no seu trabalho?

Thaís Germano: Refiro-me à experiência política de habitar o próprio corpo

SS: Tem uma dimensão também de trazer novos valores para um mundo muito calcado na eficiência capitalista, uma vez que a proposta do sentir envolve mais espaço e tempo, não acha?

Thaís Germano: É uma das coisas que me motivou para esse projeto: trazer as pessoas para esse outro lado, o de apropriar-se de si mesmo. Uma dimensão que tem sido negligenciada, menos valorizada. Essa roda que a gente está girando, do capital, da produtividade, está deixando todo mundo enlouquecido.

SS: O Coletivo CorpoConsciente fez incursões por uma escola pública. Conte um pouco sobre esse processo?

Thaís Germano: A gente tem algumas formas de ação do Coletivo, seja por meio de workshops pontuais, seja em processos pequenos ou mais longos e pagos. Desde 2018, a gente também inscreve projetos do Coletivo no Fundo de Apoio (FAC) da Secretaria de Cultura do Distrito Federal, que disponibiliza uma verba para agentes culturais de Brasília. Então nos inscrevemos no edital e recebemos o dinheiro do governo para oferecer práticas para a comunidade gratuitamente. Um desses projetos foi realizado em 2024 com adolescentes, em uma escola localizada em uma das cidades satélites mais carentes de Brasília. É uma escola um pouco estigmatizada por conta de episódios de violência no passado. Tínhamos um encontro semanal de duas horas com alguns alunos indicados pelos professores. Foi absolutamente enriquecedora a experiência. A adolescência é uma fase muito corporal, o corpo pulsando e os adolescentes tentando entender o próprio corpo, sentir o próprio corpo. Foi muito incrível ver o despertar desses adolescentes, porque ali eles tinham um espaço de segurança, de fala e de sentir. Eles ali podiam ser eles.

SS: Fico pensando como de fato se dá o trabalho. Eu sei que envolve dança, envolve dinâmicas e conversas...

Thaís Germano: No Coletivo a gente tenta levar para um mover livre. Lá no início, quando a gente divulgava como dança, tinha sempre alguém que perguntava: “precisa ter alguma experiência em dança?” Sempre tem essa insegurança quanto ao “eu não sei dançar”… Para a gente todo mundo sabe dançar. Qualquer corpo dança, seja em que condição estiver, ele dança. Então, tentando ser bastante objetiva, nos encontros do Coletivo, a gente busca uma visualização do próprio corpo, muitas vezes, deitado no chão, sentindo os apoios do chão. Então tem uma chegada no corpo em que há essa transição entre o que você estava vivendo antes, para o que a gente vai experimentar no encontro. É um processo de interiorização, que a pessoa vai percebendo e sentindo o corpo, integrando-se com a condição existente. Daí passamos para uma proposta mais somática, em que podemos trabalhar articulações, descobrir as dobrinhas do corpo. Não é alguém falando: “faça isso! Faça aquilo!”. Muitas vezes eu faço uma proposta mais diretiva de automassagem. A gente vai desenvolvendo o tema a partir do corpo, do concreto, sempre em movimento e algumas vezes de forma relacional, que você pode se mover com o outro, seja no espelhamento, ou seja de costas, seja de olhos fechados. Tem várias formas de experimentar a relação com o outro. Podemos trabalhar, por exemplo, como eu me sinto com a aproximação, com o distanciamento, experimentar a distância ideal, os limites. Então a gente chega no movimento livre. O mover livre final é mais para dar esse contorno da experiência como um todo e para finalizar, a gente normalmente faz um registro da experiência partilhando em grupo. E aí é a parte em que a gente mais conversa, troca no verbal mesmo. E, ao final, a gente dá um contorno para a experiência, uma estrutura um pouco mais clássica, digamos assim, do processo do coletivo.

“Todo mundo sabe dançar. Qualquer corpo dança, seja em que condição estiver, ele dança.”

SS: Sua última formação foi em Experiência Somática. O que é a Experiência Somática e o que ela agrega em seu trabalho? Lembrando também que sua trajetória profissional inclui formação com Ivaldo Bertazzo, com o Movimento Autêntico…

Thaís Germano: A Experiência Somática é uma abordagem terapêutica. Não é exercida só por psicólogos, mas muitos são, como é o meu caso. Ela traz o foco para o sistema nervoso. O terapeuta da Experiência Somática está sempre ali, rastreando o sistema nervoso do outro observando se o corpo foi para um estado mais alerta, mais relaxado. A Experiência Somática trata muito do tema do trauma, que pode ser um acidente, um assalto, mas também traumas de desenvolvimento, da criança que não recebeu ou recebeu em excesso certas coisas que não deveria. Quando a gente fala de trauma, a gente fala de algo que ficou fixado. Quando eu identifico, através do corpo, que estamos perto de um núcleo traumático eu não preciso necessariamente saber o que aconteceu. É possível identificar que está chegando perto por conta da sensopercepção. Por isso a Experiência Somática anda lado a lado com tudo o que eu já vivi. Em geral, a consciência corporal é utilizada para dar fluxo e mover esse núcleo traumático que estava ali. É a dança do sistema nervoso entre terapeuta e paciente. O cliente vai aprendendo a auto regular o próprio corpo. Quando a pessoa leva a atenção para o corpo, abrindo espaço para deixar aquela energia fluir, a respiração fica mais ampla, sua pele mais corada, o corpo mais quentinho, fica mais confortável. A gente tem sinais corporais que são da fisiologia se regulando. É por aí que passa a busca da Experiência Somática: o sistema nervoso buscando a auto regulação.

A Experiência Somática trata muito do tema do trauma (…) Quando eu identifico, através do corpo, que estamos perto de um núcleo traumático eu não preciso necessariamente saber o que aconteceu. É possível identificar que está chegando perto por conta da sensopercepção (…) É por aí que passa a busca da Experiência Somática: o sistema nervoso buscando a auto regulação.”

SS: Se você quisesse dar uma mensagem final para as pessoas, o que você diria?

Thaís Germano: Qualquer coisa que a gente falou aqui, seja o processo do Coletivo, seja na clínica individual, isso só acontece se a pessoa deseja. Se a pessoa se abre para a possibilidade de experimentar algo novo. Às vezes, quando a pessoa ouve antes de experimentar, talvez cria até uma expectativa, uma fantasia de que isso ou aquilo pode acontecer comigo. O convite que eu sempre faço é de experimentar. Sobre a sensação do próprio corpo, a gente vai desaprendendo essa escuta conforme a gente vai crescendo, seja pela família, seja pela sociedade. E para a gente reaprender, só experimentando. Não precisa ficar pensando se vai ser muito difícil ou se vai ser muito gostoso. Não. A gente precisa experimentar cada encontro, seja na fisiologia da experiência somática, seja nos processos do corpo consciente. É uma chance que a gente dá para o corpo de atualizar algo, de experimentar algo, seja algo absolutamente novo, um pequeno grande novo, ou seja, algo que você já reconhece, sente um cheiro de algo conhecido. O meu convite sempre é experimentar.

“O convite que eu sempre faço é de experimentar. Sobre a sensação do próprio corpo, a gente vai desaprendendo essa escuta conforme a gente vai crescendo, seja pela família, seja pela sociedade. E para a gente reaprender, só experimentando.”

SS: E para quem está passando por alguma dificuldade em deixar esse sentir fluir pelo corpo, o que diria?

Thaís Germano: Já tive diagnóstico de estresse pós-traumático, já tive crises de ansiedade. Nesses momentos em que se está totalmente fora do prumo, desconectado, fora do seu equilíbrio, você também fica fora da capacidade de convivência social. Eu já tive episódios de não conseguir conversar direito porque eu não estava ali, no meu corpo. Quando você tem esse nível de experiência parece que o processo é ainda mais intenso quando se volta ao fluxo da conexão, ao fluxo da auto regulação, o fluxo do sentir. Pode parecer bastante romântico e talvez ingênuo, mas as cores ficam mais vibrantes, os cheiros ficam mais cheirosos, a vida fica mais interessante. É muito real. Quando a gente coloca a vida no centro, coloca no sentir no centro.

“A gente deve experimentar o corpo para senti-lo. E quanto mais eu sinto, mais eu me sinto viva. O sentir para mim, está relacionado com estar viva.”