Em entrevista ao SobreSentir, a doutora em direito e especialista em Comunicação Não-Violenta Ingrid Haas apresenta as consciências desenvolvidas pelo psicólogo americano Marshall Rosenberg

Observar sem julgar, identificar sentimentos, reconhecer necessidades e fazer pedidos. Bastariam esses quatro passos para que as nossas interações inter e intrapessoais fossem mais harmônicas. Mas, os recorrentes tropeções dos julgamentos, exigências e acusações costumam dificultar essa caminhada rumo à compreensão das ideias e modos de vida divergentes.

“Nós podemos nos relacionar com pessoas diferentes sem mudá-las. Basta compreendê-las a partir de uma curiosidade gentil”, explica a professora Ingrid Haas, especialista em Comunicação Não-Violenta e em gestão e negociação de conflitos.

Segundo Ingrid, essa gentileza na CNV deve começar individualmente, a partir do processo de autocompaixão e autoconhecimento.”Para Marshall Rosenberg, o primeiro passo é trabalhar a auto-responsabilidade. É muito comum a gente apontar o dedo e procurar um culpado por algo que me aconteceu. Mas, para Rosenberg devemos nos questionar porque estamos nos sentindo assim. O que há dentro de nós que não conseguimos enxergar?”.

O psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg criou a Comunicação Não-Violenta (CNV), na década de 1960, durante o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, motivado pela necessidade de encontrar formas pacíficas de mediar conflitos. Hoje, a CNV vem sendo implementada em diversos países, seja nos setores da educação, segurança, justiça ou em ambientes corporativos.

Em entrevista ao videocast SobreSentir, Ingrid Haas, autora de diversos livros, entre eles “Os novos Direitos Humanos” e “A descoberta que mudou a minha vida”, nos mostrou que a CNV, embora se pareça com uma técnica, é uma filosofia de vida. “A CNV é um chamado para olharmos para dentro de nós, para as nossas consciências.”

Confira a conversa completa.

A doutora em Direito e especialista em CNV Ingrid Haas

SobreSentir – O tema da Comunicação Não-Violenta é essencial, especialmente nos dias de hoje. Você tem sentido que as pessoas têm sido menos cuidadosas na comunicação com o outro?

Ingrid Haas – Especialmente pós-pandemia as pessoas ficaram mais ansiosas, mais imediatistas, como se quisessem recuperar o tempo perdido. A hiperconectividade contribui com isso e tem nos tornado cada vez mais distraídos e retidos no universo online. O uso das redes sociais também vem contribuindo na manifestação de uma maior agressividade. Vamos nos sentindo capazes de julgar e falar o que pensamos, sem filtros, já que não existe uma punição estabelecida e imediata. Este contexto aumenta a polarização e o extremismo de pensamento, não só no Brasil, mas no mundo.

SobreSentir – Você sente que essa permissividade de falar o que se tem vontade, ou até essa certa agressividade, está extrapolando o campo virtual e vindo para o real?

Ingrid Haas – Sim, até porque essa ansiedade está dentro de nós, ela nos acompanha. É aquela coisa: eu quero dizer, pronto e acabou; sem questionar: até que ponto eu posso de fato dizer o que eu penso sem olhar para o outro? Neste ponto entramos no debate sobre a liberdade de expressão. Mas, essa liberdade, muitas vezes, acaba ferindo o outro.

SobreSentir – Antes de nos expressarmos precisamos ter uma escuta interna, entender o que está acontecendo em nosso interior?

Ingrid Haas – Rubem Alves fala que a comunicação nasce na escuta. Qual é a qualidade da escuta que eu ofereço? Como eu posso me comunicar com tanto barulho interno, com tanta ansiedade? Embora se pareça muito com uma técnica, a CNV é um chamado para a gente olhar para dentro de nós. É uma filosofia de vida. Tem uma frase que diz o seguinte: existe um abismo entre o que eu penso, o que eu quero dizer e o que eu digo; e entre o que você quer ouvir, o que você escuta e o que você entende. Quando eu não estou com um diálogo interno muito bem estruturado, quando não estou em paz, muitas vezes solto gritos para o outro ouvir. Por que eu estou agindo dessa forma? Marshall Rosenberg nos ajuda a aprender com a CNV a olhar para as nossas consciências.

SobreSentir – Quais são as nossas consciências?

Ingrid Haas – Segundo ele, abrigamos duas consciências. A consciência da girafa e a do chacal. Qual eu vou alimentar? Quando eu sou mais colaborativo e empático, quando eu estou disposto a escutar o outro, quando eu vou além dos julgamentos e busco observar o que está acontecendo, eu uso a minha consciência da girafa. A girafa é um símbolo da Comunicação Não-Violenta porque ela tem as orelhas grandes para escutar com empatia; um pescoço comprido para ver de fato o que está acontecendo, sem julgamentos; tem o maior coração dos mamíferos terrestres, capaz de bombear o sangue lá para o alto da cabeça; e tem uma couraça firme para poder se expressar honestamente.

Girafa, símbolo da CNV: pescoço comprido para enxergar bem a situação, e um grande coração

SobreSentir – A girafa representa os pilares da CNV?

Ingrid Haas – Exato. São eles: a escuta ativa e a expressão honesta. Mas, a gente é humano e falha. Expressamos muitas vezes um espírito competitivo, vingativo, rancoroso e chantagista. Esse é o chacal, que também mora dentro de nós e se manifesta toda vez que eu fico com muita raiva, que eu me desequilibro emocionalmente, que eu brigo na rua, tenho embates polarizados. Por outro lado, nada impede de eu estar praticando a CNV e estar convivendo com os chacais, o meu e o dos outros. Quando eu estou lidando com uma pessoa que está apontando o dedo para mim, eu provavelmente estou conversando com um chacal.

SobreSentir – O que fazer diante disso?

Ingrid Haas – Olhar para o nosso Chacal é muito importante. Ele está dentro de nós e ele vai surgir em vários momentos. Precisamos entender o que ele tem para nos ensinar; o que há dentro de cada um de nós que não conseguimos enxergar. É muito comum a gente apontar o dedo e procurar um culpado por algo que me aconteceu. Mas, para Marshall Rosenberg devemos nos perguntar: por que eu estou me sentindo assim? O Marshall fala que o primeiro passo é trabalhar a autorresponsabilidade. A CNV começa em mim. Primeiro, oxigene você, depois preste auxílio à pessoa que estiver ao seu lado, como no avião.

para Marshall Rosenberg devemos nos perguntar: por que eu estou me sentindo assim? O Marshall fala que o primeiro passo é trabalhar a autorresponsabilidade. A CNV começa em mim.

SobreSentir – É difícil fazer essa auto-análise?

Ingrid Haas – Sim, porque sofremos de analfabetismo emocional. A gente não foi ensinado sobre as emoções. A CNV é uma prática constante, com erros e acertos, mesmo para quem trabalha com isso. Já me martirizei muito ao me perceber chacalizando, mas aprendi sobre a autocompaixão. Isso é tão bonito: reconhecer que sou humana e que, muitas vezes, eu não consigo dar a devida atenção ao meu chacal.

Também abrigamos em nós o chacal, nosso espírito competitivo, vingativo e rancoroso

SobreSentir – Você disse que a CNV não é uma técnica, embora ela tenha alguns caminhos que podem nos ajudar no processo de comunicação. Portanto, não adianta ter um roteiro traçado, porque a comunicação é uma troca que envolve sentimentos. Mas, ainda assim, quais recursos podem ser úteis para conversas difíceis?

Ingrid Haas – Com a prática, a CNV vai ficando mais orgânica. Quando percebemos que vamos embarcar no chacal, voltamos e identificamos o nosso sentimento antes de reagir. A minha reação exacerbada pode ser consequência do meu cansaço, por exemplo.

SobreSentir – É praticamente um exercício de mindfulness?

Ingrid Haas – Com certeza. Quando você está no modo chacal, você está fechado no seu pensamento, no que você acredita, e não está disposto a escutar o outro. Então, por isso é tão importante a pausa e o silêncio. Ao perceber o chacal no outro, entenda que não é o melhor momento para um diálogo, porque a pessoa não vai te escutar. Esse é um processo de inteligência emocional, de autoconhecimento. É importante se perguntar: “eu posso e preciso comprar essa briga agora?” Escolher o momento de dialogar não implica em aceitar o que o outro está pensando, consentir e se calar. Também não se trata de ser bonzinho, zen, e deixar tudo acontecer. Existem situações de risco, por exemplo, uma criança que desobedece e corre em direção à rua, que exigem agir com firmeza. Isso também é ser girafa. É proteção.

Escolher o momento de dialogar não implica em aceitar o que o outro está pensando, consentir e se calar. Também não se trata de ser bonzinho, zen, e deixar tudo acontecer.

SobreSentir: Marshall Rosenberg costuma dizer que os nossos sentimentos são mensageiros. Que tipo de mensagem eles nos trazem?

Ingrid Haas – No livro “Lidando com a Raiva”, Rosenberg cria uma metáfora interessante. Quando o painel do carro acende luzes, entendemos que algo não está bem. Pode ser falta de gasolina, necessidade de trocar o óleo, alguma falha mecânica. Vamos então investigar o que é. Rosenberg nos diz: “Por trás de todo sentimento há uma necessidade. E por trás de todo sentimento violento há uma necessidade não atendida”. Quando a “luzinha” da raiva, por exemplo, acender em mim, eu preciso olhar para dentro e me perguntar: que necessidade minha não está sendo atendida? A raiva, assim como outros sentimentos, está nos trazendo uma mensagem. Esse centramento, também nos permite olhar para além do comportamento quando eu estou diante da raiva do outro. O que tem por trás disso? Qual é a necessidade não atendida dessa pessoa? Claro, que eu não preciso dizer isso em voz alta. Só de olhar com empatia, o conflito já começa a se dissolver. Eu passo a ver que o outro está usando uma estratégia inadequada para atender uma necessidade. Porque quando um não quer, dois não brigam, não é assim que dizemos?

Rosenberg nos diz: “Por trás de todo sentimento há uma necessidade. E por trás de todo sentimento violento há uma necessidade não atendida”.

SobreSentir – Qual é o limite entre cuidar dos nossos sentimentos e ter empatia pelo outro, principalmente quando a expressão do sentimento do outro pode nos ferir?

Ingrid Haas: Isso é autoconhecimento. O excesso de empatia pode machucar, sim, é o que chamo de burnout empático: quando você fica muito voltado para o outro e se abandona. Mais uma vez, CNV não é ser bonzinho, nem ser zen. É equilíbrio. Existe um olhar para si, um chamado de autorresponsabilidade. Primeiro você, depois o outro.

SobreSentir – Você falou das necessidades. Quais são as necessidades básicas do ser humano?

Ingrid Hass – São as necessidades universais. Temos necessidades físicas – fome, sono, sede – que são fáceis de identificar. Mas precisamos de alfabetização emocional para perceber outras. Às vezes estou gritando com meus filhos para irem dormir. Mas qual é a minha necessidade? Eu estou cansada, quero descansar.
Além disso, temos necessidades de respeito, colaboração, autonomia, segurança, pertencimento. Por exemplo, hoje se fala muito em segurança psicológica nas empresas, que é poder se expressar sem medo de julgamento. Isso também é uma necessidade.

SobreSentir – Entender essas necessidades ajuda no diálogo?

Ingrid Hass – Ajuda a gente a buscar equilíbrio. Porque nem sempre nossas necessidades serão atendidas. A questão é olhar para essas necessidades, ver como podemos alcançá-las, ou pelo menos saber como nos preservar.

SobreSentir – E como a gente se protege de falas agressivas, ambientes tóxicos?

Ingrid Hass – Primeiro, lembrando os quatro passos da CNV: observar sem julgar, identificar sentimentos, reconhecer necessidades e fazer pedidos. No começo parece técnico, até robótico. Mas depois se torna orgânico. Você começa a observar a situação como espectador e consegue se expressar com parcimônia. Por exemplo, você pode dizer: “Quando eu escuto você falando nesse tom comigo, eu me sinto triste e frustrada, porque tenho necessidade de ser ouvida. Teria como a gente conversar de forma mais calma?” Você também reconhece o outro: “Entendo que você tem necessidade de cumprir prazos, por isso se estressou por eu não ter entregado o trabalho no tempo previsto”. Não se trata de justificativa, mas de diálogo. Você mostra o que observa, o que sente, o que precisa e faz um pedido.

“…os quatro passos da CNV: observar sem julgar, identificar sentimentos, reconhecer necessidades e fazer pedidos. No começo parece técnico, até robótico. Mas depois se torna orgânico.

SobreSentir – Os exemplos são interessantes porque não há julgamento. A tendência seria apontar o dedo e dizer “você está sendo agressivo”. Mas, neste caso, você fala de você.

Ingrid Haas – Exato. É uma comunicação honesta.

SobreSentir – E também traz humildade porque a gente nunca sabe exatamente o que o outro pensa. Mas criamos histórias o tempo todo: “ele fez isso porque não gosta de mim”. A criação de histórias mentais atrapalha a escuta?

Ingrid Haas – Muito. Porque a mente conta histórias o tempo inteiro. Enquanto você fala, eu já estou pensando na resposta. Escutar de verdade é escutar sem interromper. É deixar o outro falar. É uma escuta com curiosidade. E aí entra Otto Scharmer, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), autor da “Teoria U” e de “Presença”, obras muito interessantes para quem quer se aprofundar na escuta. Scharmer faz um mergulho na escuta de qualidade, aquela em que eu não imponho o meu pensamento, seja aconselhando, comparando, interrompendo, corrigindo. Aí eu não estou escutando de fato. A gente precisa silenciar e oferecer a escuta que a pessoa precisa. Mas o nosso normal não é esse. Quando alguém conta uma situação difícil, há uma competição pelo sofrimento.

SobreSentir – Talvez porque seja difícil lidar com esse silêncio, esse lugar do não saber, principalmente diante do sofrimento, não acha?

Ingrid Haas – Eu acho que envolve um pouco da impaciência, também, essa aceleração da vida, a ansiedade em querer falar, em querer se colocar. E aí fica todo mundo ali disputando espaço. A CNV traz a expressão honesta como pilar, que é muito interessante e eu uso demais. Em vários momentos eu não estou disposta a escutar, estou cheia de problemas na minha mente, resolvendo coisas, pensando no que eu tenho que fazer. Quando alguém chega para conversar comigo, eu não estou emocionalmente ali, pronta para escutar como deveria. É o chamado efeito coquetel. Sabe quando se está numa festa, conversando com uma pessoa, ao lado tem um grupo também conversando e você para de ouvir o seu interlocutor para prestar atenção na conversa ao lado? E aí você fica com aquela cara de paisagem. A expressão honesta é falar: agora eu não consigo te ouvir, podemos retomar mais tarde? A Brené Brown, pesquisadora e autora de “A coragem de ser imperfeito”, fala muito sobre a importância da demonstração da vulnerabilidade: eu não dou conta, eu não estou pronta.

Otto Scharmer e Brené Brown

SobreSentir – Por quê é tão difícil fazer pedidos?

Ingrid Haas – É difícil. Muitas vezes a gente evita pedir por deduzir que a pessoa já deveria saber o que queremos. Marshall Rosenberg diz que o pedido tem que ser específico, cirúrgico. Uma esposa que quer que o marido fique mais em casa, por exemplo (ou vice-versa), e diz: “você está trabalhando muito!” em vez de “fique mais em casa”, pode, sem querer, estimular o marido a se matricular em um esporte para balancear o tempo no trabalho. Será que essa mulher expressou exatamente a sua necessidade? Ela poderia dizer: “Eu estou me sentindo sozinha. Gostaria de contar mais com a sua presença durante a semana, vamos combinar de jantarmos juntos às quartas-feiras?” Não pense que o outro já saiba de antemão o que você quer.

SobreSentir – Mas tem uma maneira certa de fazer os pedidos, alguma dica?

Ingrid Haas – Não tem uma forma de fazer esse pedido. A questão passa por uma reflexão sobre como está dentro de você a sua necessidade não atendida. Como você reagirá diante de uma negativa a um pedido, por exemplo? Se você não aceita o não do outro, isso não é um pedido, é uma exigência. A melhor forma de aceitar um não é olhar para a necessidade do outro. Todo não que a gente fala é um sim que damos para nós mesmos. Então, se a pessoa está dizendo um não para você, é porque ele está dizendo um sim para si mesma. Por isso a importância da clareza na forma de falar, da observação dos fatos, de mostrar os seus sentimentos.

SobreSentir – Você falou uma coisa interessante: a diferença entre pedido e exigência. Nós temos as nossas exigências. Existem coisas que são inegociáveis?

Ingrid Haas – Exatamente. Isso é o autoconhecimento. Mencionamos anteriormente sobre estar em um ambiente tóxico, seja familiar ou profissional: eu não preciso me sujeitar a relações abusivas.

SobreSentir – Fale um pouquinho sobre o contexto em que surge a CNV. Quem foi Marshall Rosenberg?

Ingrid Haas – Assim como Martin Luther King, Dalai Lama, Nelson Mandela, Malala e tantos outros, Marshall Rosenberg foi um pacifista. Foi um psicólogo americano, de origem judia, PhD em psicologia clínica, falecido em 2015, que cresceu na época do apartheid americano. Ele sofreu muito preconceito na escola e começou a se indagar: por que, diante das adversidades da vida, algumas pessoas, partem para a reatividade e outras conseguem ser compassivas? Com essa indagação, ele foi sistematizando as consciências da CNV e criou os símbolos da girafa e do chacal. Fica parecendo muito bobo, né? Mas, ele bebeu de várias fontes, tanto na psicologia quanto nas religiões, sempre buscando sistematizar essa filosofia de vida que é a Comunicação Não-Violenta.

SobreSentir – Segundo ele, três elementos são essenciais para internalizar a Comunicação Não-Violenta: compreender o que nos passa internamente, uma comunidade de prática e de apoio e praticar, praticar, praticar, praticar. Para quem está querendo entrar nesse universo, qual caminho seguir?

Ingrid Haas – É um processo de erros e acertos. Comece com você mesmo. Observe o seu chacal, perceba quando ele te instiga a gritar, perder o equilíbrio. Errar é humano e parte do processo da CNV é desenvolver a autocompaixão. Não queira educar ou mudar o outro. Nós podemos nos relacionar com pessoas diferentes, sem mudá-las. Basta compreendê-las, a partir de uma curiosidade gentil. Precisamos desenvolver uma escuta de cientista, empática, com coração aberto. O conflito se dissolve quando eu começo a empatizar. A busca é por criar pontes nos meus relacionamentos, em vez de muros. Sobre as comunidades, hoje a CNV está muito difundida. É fácil arrumar grupos de pessoas que se interessam pelo assunto. Tem muitos livros, muitos autores, muitas pessoas nas redes sociais que falam desse assunto. E para praticar, até pensando no SobreSentir, sugiro escrever, anotar em um caderno suas observações sobre os seus comportamentos: hoje eu errei, gritei com os meus filhos. Essa prática é uma forma de desabafo emocional. E a partir dali, você vai identificando as suas necessidades. Porque muitas vezes seguimos no automatismo.

A prática da escrita é uma forma de desabafo emocional que nos permite identificar nossas necessidades. Porque muitas vezes seguimos no automatismo.

SobreSentir – Talvez a escrita nos permita entender nossos desejos. Muitas pessoas nem sabem o que querem, não é?

Ingrid Haas – Hoje existe essa abertura do olhar, de falar, mas a nossa geração não foi criada para ter essa compreensão das emoções.

SobreSentir – Como a CNV entrou na vida da doutora em Direito?

Ingrid Haas – Sou leonina, sangue quente. Costumava me definir como espontânea, aquela pessoa que fala o que pensa. Mas, minha família, mãe e irmã, dizia que eu era grossa. Comecei a estudar CNV depois do meu curso de mindfulness, em 2017. Nesse mergulho escutei a seguinte frase: honestidade sem amor é brutalidade. Foi um balde de água fria, que me fez entender o que significava ser grossa. Sim, eu estava sendo honesta, mas sem passar no filtro da empatia. Eu era honesta com os meus pensamentos e opiniões, mas sem o cuidado da escuta do outro. A CNV foi um processo de autoanálise profundo e é até hoje, porque é uma filosofia de vida muito bonita, que nos permite criar pontes nos relacionamentos a partir da compaixão. A transformação aconteceu comigo, dentro da minha casa, no meu relacionamento com os meus filhos, com o meu marido, com a minha família.

SobreSentir – Como é que você trabalha hoje? Você atende públicos diferenciados? Acabou de lançar um livro para adolescentes, “ A descoberta que mudou a minha vida”…

Ingrid Haas – O foco está na diversidade do público, porque aprender a se comunicar de forma não violenta é uma tarefa de todos nós. Em “A Descoberta…” fui direto à fonte para buscar uma linguagem lúdica e que ressoasse com os adolescentes. Pesquisei muito entre eles. Então, esse livro é uma ficção baseada em fatos reais, com assuntos que ensinam a CNV para essa geração. Com ele, eu dou palestra para adolescentes e professores nas escolas. Tenho também uma atuação com a terceira idade, além dos livros infantis.

Ingrid Haas é autora de “Os novos Direitos Humanos” e o recém-lançado “A Descoberta que mudou a minha vida”

SobreSentir – Para finalizar, que mensagem você deixa para as pessoas que desejam fluir melhor, sem conflitos, em seus relacionamentos?

Ingrid Haas – Há uma diferença importante entre conflito e confronto. Enquanto o confronto tende a ser algo negativo, o conflito pode ser fonte de riqueza, dependendo da forma como observamos. Ao entender que o que está acontecendo é importante para cada uma das partes envolvidas abre-se espaço para compreender melhor o outro e buscar a paz. Quando olhamos para o nosso sentir e para as nossas necessidades, fica mais fácil também desenvolver empatia pelas necessidades do outro. Esse movimento muitas vezes é suficiente para que o conflito se dissipe. Afinal, somos seres humanos em constante relação. Diante disso, vale a pergunta: queremos construir pontes ou muros? Cada pessoa pode escolher permanecer no próprio ponto de vista, sem se abrir para escutar quem pensa diferente. Não é possível forçar o outro a ouvir. Há pessoas que permanecem presas aos próprios pensamentos, muitas vezes de forma rígida ou polarizada, e isso também precisa ser reconhecido. A responsabilidade, então, recai sobre cada um de nós: é possível viver com mais tranquilidade quando se escolhe olhar com empatia para o outro, mesmo quando ele insiste no confronto. Em vez de endurecer, acolher pode ser um caminho mais potente

Quando olhamos para o nosso sentir e para as nossas necessidades, fica mais fácil também desenvolver empatia pelas necessidades do outro.

Em vez de endurecer, acolher pode ser um caminho mais potente

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