Em tempos de positividade tóxica e receitas fáceis para encontrar o bem-estar e a saúde mental, é revigorante escutar as lúcidas reflexões do professor, psicanalista e doutor em Ciências da Religião, Roberto Simões sobre o yoga e o meditar. Autor do livro “Neurobiologia e Filosofia da Meditação” e criador do portal Yoga Contemporâneo, que possui cursos, grupos de estudos, artigos, imersões e meditação, Beto defende que a potência do Yoga vai muito além de acalmar a mente, limpar os pensamentos ou ser positivo.
“O yoga possibilita esse mergulho momentâneo para fora dos ordenadores de realidade que nos compõem, promovendo alívio. Mas se você só praticar o yoga, a meditação, em busca deste alívio, vai ficar anestesiado, sem clareza, sem discernimento”, diz.
Esse discernimento lúcido, que nos permite compreender com sabedoria o que é real e o que não é real, onde está o eu e o não-eu, o que é permanente e o que é passageiro, tem um nome em sânscrito: Viveka.
“Eu entendo que Viveka, o discernimento, é muito mais importante do que o Samadhi, a iluminação, ou a eliminação dos Mayas, as ilusões. “Essa ‘sacação’ é a matriz de qualquer yogar ou meditar maduro, porque, mesmo que você não queira, sempre vai encontrar o princípio da realidade.”

Alcançar esse estado de lucidez pode exigir mais flexibilidade e causar mais desconforto do que uma postura complicada. Mas, como em uma Sirsana, é por aí que será possível ver novas perspectivas da realidade e sustentar o peso do real sem ilusões.
“Dá uma certa angústia, ao mesmo tempo, humildade entender que não há uma plenitude, nem uma linha de chegada. O yoga não é do ponto A para o ponto B. Tudo já é ponto B. É no caminho que a gente vai se encontrando e contando a nossa própria história.”
SobreSentir – Começando por uma pergunta básica: yoga ou yôga? Como a gente deve pronunciar corretamente essa palavra.
Roberto Simões – Não serei eu a dizer como falar a palavra yoga. Sempre houve uma disputa gramatical da linguagem do yoga, que permanece até hoje entre os conservadores e os mais progressistas. Em geral, quem falava ou pronunciava yôga, com o “ô” circunflexo, era do campo de um professor chamado DeRose. E quem dizia yóga, quase com acento agudo, era adepto de um outro professor chamado Hermógenes.
SobreSentir – No seu portal Yoga Contemporâneo, você publicou um texto que diz: “se você ainda acha que yoga é acalmar a mente limpar os pensamentos ou ser positivo, eu sinto te dizer você está recalcando a potência do próprio yoga.” Qual é a potência do Yoga?
Roberto Simões – A potência do yoga está em você conseguir tomar um distanciamento desse “eu social” que a gente constrói e aprender que nós somos infinitos e, por isso mesmo, nunca iremos compreender completamente quem nós somos. Isso dá uma certa angústia, ao mesmo tempo, uma humildade de entender que não há uma plenitude, nem uma linha de chegada. O yoga não é do ponto A para o ponto B. Tudo já é ponto B. É o caminho que a gente vai se encontrando e contando a nossa própria história. O yoga tem esse potencial. Não significa que todo mundo que pratica yoga o encontre. Mas, ele tem esse potencial de nos desterritorializar de absolutos e certezas inabaláveis – plenitude, céu cristão, Nosso Lar – e nos encontrar no que nós realmente somos: um nada perambulando para lugar nenhum.
“O yoga não é do ponto A para o ponto B. Tudo já é ponto B. É o caminho que a gente vai se encontrando e contando a nossa própria história.”
SobreSentir – Na sua opinião, as pessoas em geral sabem o que fazem quando praticam yoga, pegando a provocação feita pelo escritor Emanuel Carrère em seu livro “Yoga”? Segundo ele, uma multidão de pessoas que pratica Yoga hoje em dia poderiam se beneficiar do seu livro ao entender o que está fazendo quando pratica yoga.
Roberto Simões – A grande maioria não sabe. A grande maioria está em busca de uma mercadoria que o yoga vende. Numa sociedade organizada pelo capitalismo tardio, neoliberal, que transforma tudo em mercadoria, não seria diferente com o yoga, que vende a promessa do bem-estar, da pureza, quase de encontrar um lugar de harmonia, um caminho do meio. E isso vem transformando corpos em yogamento alienados, que é justamente o oposto do que o Yoga sempre preconizou, não o fim das ilusões, mas o fim da alienação sobre as ilusões (mayas) que nos organizam. É construído no senso comum que o yoga levaria ao fim das ilusões. Mas, se todos os praticantes alcançarem esse objetivo viveremos desiludidos e vamos precisar tomar quetiapina e antipsicótico. Alguém que não tem nenhuma ilusão para viver está em depressão profunda, sem encontrar o sentido da vida, e não é isso que o Yoga preconiza. A ideia é fazer você entender quais são as ilusões que te organizam e que te fazem sofrer, para que aí assim você consiga construir um maya que permita suportar um pouco mais do que é viver no real.
SobreSentir – Um dos seus artigos publicados no portal Yoga Contemporâneo diz que “a prática é uma forma de você suportar estar só com a sua própria respiração e sustentar o peso do real.” Tem sido bem pesado estar nesse mundo contemporâneo. Como não perder o fôlego?
Roberto Simões – Eu acho que a gente tem que sofrer um pouco mais, no sentido de esgarçar essa sensação, senão o yoga acaba entrando como um comprimido para arrefecer os sintomas de ansiedade, da angústia. Eu entendo que o yoga deveria levar você ao extremo desse deserto, para aí sim você ganhar força para se reestruturar ao desestruturar o que vem te causando sintoma. É curioso: a maioria das pessoas chegam ao yoga com sintoma de ansiedade, de depressão, de mal-estar, um não sei o que está acontecendo, mas quando entram no yoga decidem fazer transição de carreira e se tornar um professor de yoga, ou um professor de meditação. Acabam fazendo uma substituição de um lugar que o oprimia para um outro lugar que também o oprime. Retornamos para a alienação: quase nenhum professor de yoga se entende como um trabalhador.
SobreSentir – As pessoas buscam também o Yoga como um caminho para o autoconhecimento?
Roberto Simões – Uma resposta quase clichê à pergunta sobre o porquê se está praticando yoga é “encontrar o meu verdadeiro eu, meu self”. Mas a pessoa vai praticar em Rishikesh e não em Osasco. Vai para qualquer lugar muito longe da América Latina. Isso é uma fuga. Isso é um sintoma, só muda a linguagem. E a meditação, que para mim é sinônimo de yoga, vira um arrefecedor de sintomas e não um destruidor do maya, da ilusão que te organiza. Só assim você é capaz de bancar o teu desejo e seguir em frente. Mas, quem pratica yoga não quer desejar, são iogues indesejantes, como se o desejo fosse algum tipo de pecado. O desejo é o que nos move.
SobreSentir – A meditação não busca, de certa forma, esse apaziguamento dos desejos?
Roberto Simões – Não há esse yoga puro e transcendente da própria cultura e sociedade que o forja. Em geral, a gente imagina que quem pratica yoga e meditação vai conseguir transcender esse mundo. Mas, não tem “fora”. O verdadeiro eu está no caos, não está num lugar de equilíbrio. Esse lugar é um delírio, não existe. Um lugar onde eu nunca mais sofro só é possível no campo da religião. Está certo que o yoga vem da cultura védica, que é uma religião, que conta com o Vedas, que é um livro perfeito em si mesmo. Tem os sutras budistas, tem yoga no sufismo, no sikhismo, no Tantra, que é uma religião do século X. Mas, é só nesse campo da religião que faz sentido você alcançar um lugar onde não há sofrimento. No mundo real, onde a gente vive, na imanência, isso não existe.
“Não tem “fora”. O verdadeiro eu está no caos, não está num lugar de equilíbrio. Esse lugar é um delírio, não existe.”
SobreSentir – E a iluminação? Você acredita neste lugar da iluminação, nessa transcendência?
Roberto Simões – Eu não sei muito bem o que significa a iluminação para você. Mas vamos pensar que iluminação é o tal do Samadhi, esse termo sânscrito que refere-se a um lugar de aquietação da mente, onde há uma desidentificação momentânea do meu eu, da minha lógica. Quando eu pergunto: quem é você? Provavelmente você vai falar sobre o eu histórico-social construído na sua formação profissional, nas suas origens – pai-mãe, na empresa onde você trabalhou… Na meditação é possível alcançar um lugar, um estádio (não um estágio, nem um estado), em que momentaneamente, você perde a sua identidade social. E aí você vai então encontrar-se com o que é impossível de nomear. O eu nomeia o real – lembrando que o real é uma coisa, a realidade é outra. A gente encontra o real a todo momento, só que a gente automaticamente simboliza isso em algo. Nós somos uma floresta de símbolos. A meditação, o yoga, permite tomar um distanciamento momentâneo e encostar nesse real que é impossível de nomear. Quando você retorna, está desafogada desse peso do eu-social, que tem boleto pra pagar, família, filho… Durante uma hora, meia hora, dez segundos, um minuto, duas horas, um retiro de sete dias, como o Sesshin, o yoga promove o desvincular momentâneo desta realidade. Isso diminui a ansiedade.
“O real é uma coisa, a realidade é outra. A gente encontra o real a todo momento, só que a gente automaticamente simboliza isso em algo. Nós somos uma floresta de símbolos. A meditação, o yoga, permite tomar um distanciamento momentâneo e encostar nesse real que é impossível de nomear.
SobreSentir – Mas, tem sempre a volta.
Roberto Simões – Sim, toda prática tem o retorno. Ficar neste estado é esquizofrênico. É preciso retornar para o eu-histórico, mas agora com pedaços de novas terras para conseguir então se reestruturar ou aprender, num processo lento e gradual, a recontar sua própria história. Pensemos no Buda histórico. É um príncipe, que num dado momento, segundo o mito, encontra a velhice, a morte e o sofrimento. Ele abandona a família, seu eu-social e sai peregrinando. Nas práticas de yoga, ele percebe o que o oprime. O que causa o sofrimento é a estrutura social, política, religiosa no qual ele vive. A estrutura védica é uma estrutura de castas onde você, uma mulher, não estaria em nenhuma condição de fazer uma entrevista com um homem. Você estaria na cozinha ao lado da sogra fazendo chapati e chai. Buda vai inventar um mundo no qual as castas e os vedas não fazem mais sentido. É um movimento político. Não está fora da sociedade. Tanto que o budismo começa a crescer a partir do século VIII até o século X. Surge, então, um movimento contra esse crescimento do budismo que vai dar no Vedanta.
SobreSentir – O que é o Vedanta?
Roberto Simões – O Vedanta é o resumo dos Vedas. É um movimento filosófico, religioso e político, que tenta refrear o budismo. O budismo é expulso da Índia. Tanto que tem o Budismo chan, que depois vai virar o zen budismo, que vai para a China, e vários budismos que vão para outros lugares. Esse mesmo movimento acontece com o yoga. O yoga é exportado, transnacionalizado da Índia durante o período da colonização britânica, que acaba em 1947, para outros locais do mundo, sobretudo Europa e Estados Unidos. O yoga que chega até nós já está embebido de diversas influências. Tanto que, hoje, é possível chegar num terreiro de umbanda ou de candomblé e ouvir de um Orixá que é preciso alinhar os chacras. É uma linguagem espírita, mas que também é influenciada pelo yoga. Resumindo, o yoga possibilita esse mergulho momentâneo para fora dos ordenadores de realidade que nos compõem, como o eu-social, promovendo um alívio. Mas se você só praticar o yoga, a meditação em busca deste alívio, vai ficar anestesiado, sem clareza, sem discernimento. O nome que se dá para isso é viveka. Então é possível ter uma iluminação e continuar alienado, Beto? Completamente.
SobreSentir – Você tem um curso na Casa de Saber chamado “Meditação para além da Índia”, em que fala muito bem sobre esse percurso histórico. Quanto o yoga e a meditação atuais carregam das suas origens?
Roberto Simões – Como você mesmo colocou, é no plural, são origens. Não há uma origem, não há o Big Ben do yoga e da meditação. A gente encontra práticas contemplativas entre os povos ameríndios, por exemplo. Isso não é fruto da cultura sul-asiática. O yoga como nós conhecemos, com posturas, asanas, respiração, é algo que vai se fundamentar com mais propriedade no período medieval da Índia, entre os séculos XII e XIV. Trata-se de uma confluência de budistas, sobretudo budistas da linha tântrica, da alquimia, que vem pelas mãos do Islã, além do sufismo e da grande influência da Igreja Católica, porque quem coloniza a Índia é a Companhia das Índias Orientais, de 1600 até 1947, quando a Inglaterra sai como colonizador. A cultura dominante, que foi a inglesa, subjuga a cultura dominada e o yoga passa por adaptações para se mostrar à altura, para mostrar para o mundo que a Índia é muito mais antiga e forte do que o seu colonizador. O yoga que nós conhecemos é uma bandeira nacionalista de alguns yogues e alguns intelectuais da Índia, a chamada Renascença Indiana, que vão lutar pela sua independência. Gandhi, que é talvez o nome que a gente mais conhece dessa geração, está no final desta linha do tempo. Antes dele veio muita gente, como Vivekananda e Ramakrishna.
“O yoga como nós conhecemos, com posturas, asanas, respiração, é algo que vai se fundamentar com mais propriedade no período medieval da Índia, entre os séculos XII e XIV. Trata-se de uma confluência de budistas, sobretudo budistas da linha tântrica, da alquimia, que vem pelas mãos do Islã, além do sufismo e da grande influência da Igreja Católica.”
SobreSentir – Deu certo este movimento, né?
Roberto Simões – Tanto deu certo que estamos aqui hoje conversando sobre a Índia e o sul da Ásia. Talvez alguns de nós tenha tatuado no corpo signos sul-asiáticos como uma divindade ou uma palavra em sânscrito. No Brasil, muita gente se dedica a aprender uma língua que quase nenhum indiano fala, que é o sânscrito. Nós temos na Academia Brasileira especialistas do Bhagavad Gita, que é como alguém ser especialista na Bíblia na China – o que existe. Temos retiros de yoga, que está eternamente em transformação. Malandramente, como um bom capoeirista, o yoga aprende a se manter vivo, diferentemente de outras práticas. Por exemplo, quem você conhece que vai fazer um tipo de oferenda ou um culto à Osíris? As religiões que não aprenderam a se adaptar morreram, sucumbiram ao cristianismo. O yoga não. O yoga enfrentou o cristianismo e criou mecanismos para se manter moderno, atual e atuante no mundo. Mas isso acarreta problemas? Sim, o yoga se tornou mais comercial, se juntou à educação física, se tornou mais científico. Isso tem um lado bom e um lado ruim. Assim como tudo no mundo, que para manter-se vivo, aprende a se adaptar à cultura, à sociedade, à política e à economia no qual está sendo inserido. Quem não consegue se adaptar, é duro, rígido, insiste em conservar sua origem imaculada, morre.
O yoga enfrentou o cristianismo e criou mecanismos para se manter moderno, atual e atuante no mundo. Mas isso acarreta problemas? Sim, o yoga se tornou mais comercial, se juntou à educação física, se tornou mais científico. Isso tem um lado bom e um lado ruim. Assim como tudo no mundo, que para manter-se vivo, aprende a se adaptar à cultura, à sociedade, à política, à economia no qual está sendo inserido.”
SobreSentir – Você propõe um “yoga-meditar clínico” ou o “yoga meditação no real”. O que se trata essa sua proposta?
Roberto Simões – Não diria que tem uma proposta aqui. É uma provocação para tentar tirar o yoga das suas seitas, dos seus microuniversos, que giram em torno de uma tríade: um livro sagrado, um mestre ou um guru iluminado e um séquito. Eu proponho trazer o yoga de volta para a comunidade. Em vez de trabalhar de uma forma vertical, em que um detém o poder, sabe interpretar determinado livro e espalha o conhecimento para os vasos esvaziados de saber, eu proponho um yogar horizontalizado. Sobretudo depois da pandemia, o yoga se pulveriza. Nós, como professores, praticantes, meditadores, yogues, precisamos entender os corpos que chegam e não tê-los de bate-pronto como esvaziados. Eu sempre chamei de caminho jesuítico a prática de certos professores em subir o morro, ir até comunidades, presídios ou mesmo universidades para levar a palavra de Patanjali, quase com a palavra do Senhor, a uma população desorientada. É a mesma perspectiva de Padre Anchieta, entendendo os indígenas desprovidos de cultura e precisando ser organizados por alguém que tem uma sapiência superior. Então, o yogar clínico na prática, é ouvir aqueles yogues que chegam para meditar e não falar: “não, não, não. Eu vou interpretar melhor essa experiência que você teve.” Afinal, você faz uma hora e meia de prática, consegue diminuir um pouco esse turbilhão da sua mente, desse eu falante, tem milhares de experiências e percepções e quando retorna com outros signos vem alguém de fora e explica para você. Então o que é vendido para dar liberdade diminui essa liberdade ou domina com o discurso externo. E você começa a produzir um ideal de yoga, um ideal de meditação que é um delírio. Ele nunca chegará. Isso causa angústia, que te leva para a prática, a prática diminui a angústia, mas alguém organiza de fora e você volta a ficar angustiado. Está preso, capturado por um guru iluminado, um livro sagrado e um séquito que os legitima.
SobreSentir – Você é formado em Educação Física, psicanálise, é doutor em Ciências da Religião. Como e quando o yoga entrou na sua vida?
Roberto Simões – Eu comecei a praticar yoga um pouquinho depois de terminar a faculdade de Educação Física, em 1996. Logo nas primeiras aulas eu fui tomado por esse apaixonamento que todo mundo tem quando pratica yoga, de as fichas começarem a cair. Eu falei: “esse lugar é lindo. Eu quero continuar aqui.” Vi que tinha um curso de formação para ser professor de yoga e decidi fazer essa especialização lato sensu, em São Paulo. Meu professor era da linhagem de Kaivalyadhama, do Swami Kuvalayananda, autointitulado o pai do Yoga Científico – um daqueles intelectuais da Renascença indiana. Kuvalayananda vai fundar a segunda escola de yoga no mundo. A primeira foi fundada em 1914 por Vivekananda. Para a minha Tese de Conclusão de Curso (TCC) estudei o que acontece no cérebro enquanto você medita. O nome do TCC era “Neurofisiologia da Meditação”, que quatro cinco anos depois, juntamente com o colega Marcelo Aras, transformou-se em um livro, publicado pela Editora Phorte. Alguns anos depois, a gente faz uma segunda edição expandida chamada “Neurobiologia e Filosofia da Meditação” – um grande resumo das pesquisas em neurociência, em fisiologia, em neurobiologia de meditação.

SobreSentir – O que o levou a sair dos impactos investigação fisiológicos do yoga para a cultura e religião?
Roberto Simões – Comecei a dar muitas palestras e, em uma delas, na faculdade em que me formei em São Paulo, a FMU, eu questionei um dos grandes nomes do yoga, que escreve um livro no século V ou século X, a.C., chamado Patanjali. O Yoga Sutras é uma espécie de Bíblia do yoga, pinçado na modernidade como um grande livro basilar. Não cabe aqui explicar o que eu questionei. Mas, um dos alunos que estava na plateia, acompanhado de um grupo, levantou a mão muito bravo e disse: “Quem você pensa que é para suspeitar e questionar os grandes nomes do yoga, os grandes mestres?” Naquele momento eu me assustei e pensei: o yoga é uma igreja. Aquilo me assusta muito e eu abandono o estágio que eu fazia na Unifesp, estudando o yoga para benefício da saúde, e fui para a PUC, em São Paulo, no Departamento de Ciênciasda Religião, com essa pergunta: o yoga é uma religião?
SobreSentir – O yoga é uma religião?
Roberto Simões – O yoga, sim, tem raiz em várias religiões, em várias espiritualidades. Por 15 anos – fiz meu mestrado, meu doutorado e meu estágio pós-doc na Federal de Sergipe – estudei o yoga como um fenômeno religioso e social, num recorte brasileiro e latino-americano. Entrevistei yogues no Brasil e entendi que embora o yoga tenha raízes em várias espiritualidades, na modernidade ele vai ganhando uma capa (falsa) de laico para se fazer caber. Porque se o yoga entra com uma capa de religião vai enfrentar – como enfrenta – as igrejas evangélicas, a Igreja Católica, e vai apanhar. Então, o yoga, malandramente, se maquia de uma espiritualidade, não religiosa – como se fosse possível alguma coisa nesse sentido – e vai ganhando espaço e campo, sobretudo na classe média do Brasil e do mundo. Ele entra no que a gente chama no campo da Ciência da Religião de Nova Era ou movimento New Age.
SobreSentir – Questionar certezas é uma grande força motriz do seu trabalho?
Roberto Simões – É o cerne de qualquer yogue. Um yogue que não questiona, é um yogue discipular. Eu ouvi nas minhas entrevistas para o doutorado um yogue uruguaio, residido à época no Brasil, dizer: “Não sou eu quem falo, é a tradição que fala através de mim.” Eu achei curioso essa posição, porque ele se exime de qualquer tipo de opinião. Como se fosse possível ser alguém neutro dentro do yoga. Como se ele fosse alguém que não tem liberdade, que é a própria proposta do yoga: se libertar. E se libertar de quê? Se eu estou convertido a um livro e a um guru, não há liberdade. Eu entendo que Viveka, o discernimento, é muito mais importante do que a iluminação, o Samadhi, ou a eliminação de Maya, as ilusões. Viveka, a sacação, é a matriz de qualquer yogar ou meditar maduro, porque você sempre precisa voltar. Mesmo que você não queira, você vai encontrar o princípio da realidade. O princípio da realidade bate na bunda de qualquer yogue sentado no zafu. É preciso encarar a realidade, encarar os seus filhos, encarar o boleto. Que adianta você ser um yogue vegetariano, que não fuma, não bebe, é celibatário mas, não conversa com a sua mãe, não troca ideia com o seu pai, todo mundo te odeia. Você é chato. Você não tem um mínimo de relação social, só se relaciona com aqueles que são convertidos à sua forma de pensar. Isso se assemelha a um pequeno fascista.
“A proposta do yoga é se libertar. Mas, se libertar de quê? Se eu estou convertido a um livro e a um guru, não há liberdade.”
SobreSentir – Sua busca pela psicanálise vem da necessidade de lidar com a realidade?
Roberto Simões – Eu sou muito chamado para dar aula em cursos de formação de yoga, tenho grupos de estudo, você me conheceu na Casa do Saber, frequento festivais de yoga. E eu percebo o quanto é difícil para esse meditante, que acredita que há um eu dentro dele que é imaculado e perfeito, compreender a si mesmo. Essa guinada para estudar a psicanálise vem da necessidade de entender esse eu, esse inconsciente, esse “não sei o quê” que me move e que eu não consigo nomear, que o yoga chama de Purusha, que não por coincidência, tem o mesmo nome que a psicanálise dá, que é espelho. Eu não estou comparando yoga com a psicanálise, longe disso. Mas existe um psicanalista indiano chamado Kakar que diz que a análise a dois é uma meditação a dois. Porque a meditação, assim como o sonho, como o chiste, ato falho, a associação livre de palavras, abre também brecha para o inconsciente vir. Qualquer prática meditativa bem conduzida, qualquer prática de yoga, portanto, bem conduzida, faz o inconsciente vir. E ele é assustador porque ele é o impossível. É impossível nomear o real, o encontro com esse real. O que você faz é jogar símbolos, tentar dar significado para aquilo que você não consegue nomear, porque é impossível você viver no que não é nomeado. Você tem que inventar isso, tem que simbolizar isso.
“A meditação, assim como o sonho, como o chiste, ato falho, a associação livre de palavras, abre também brecha para o inconsciente vir.”
SobreSentir – O que são os grupos terapêuticos oferecidos por você?
Roberto Simões – Eu fui percebendo que os meus alunos do grupo de Estudos ficavam intelectualizados, mas ainda absolutamente perdidos na sua vida cotidiana. Foi aí que eu comecei a abrir grupos terapêuticos em base psicanalítica. A psicanálise trabalha com grupos. Wilfred Bion, por exemplo, é um grande nome das experiências com grupos. Não por coincidência, tem descendência indiana. Geralmente o grupo terapêutico implica um recorte, no meu caso professores de yoga, meditantes, terapeutas holísticos de uma forma geral, e se reúne uma vez por semana para conversar, falar sobre a vida por 90 minutos, com a mediação de um psicanalista. Eu converso com eles sem nenhuma máscara, porque eu estou no espaço de acolhimento, de escuta, onde eles podem falar e se abrir sem ser julgados pelos outros. Essa experiência me fez perceber algo que eu já intuía: uma carga de violência que os yogues e os meditantes não conseguem lidar e se sentem envergonhados. A sociedade exige do professor de yoga uma calma inabalável, uma não violência, mas não dá espaço de escuta, o que gera angústia e mal-estar que se voltam para o próprio campo do yoga com professores despreparados, abusadores psicológicos, sexuais e financeiros nesse campo espiritual.
SobreSentir – Mais uma vez a questão da idealização.
Roberto Simões – Sim, a gente volta para a questão do ideal de yogue. Quando alguém, sobretudo nas mídias sociais, começa a ganhar alunos, discípulos e seguidores, vai se construindo uma máscara gigante e pesada de um yogue que é idealizado por ele mesmo. Uma das primeiras normas éticas do yoga de Patanjali, os Yamas, é a não-violência, Ahimsa. Imagine um professor de yoga, namastê, fala mansa, que paira por cima da sociedade, da política, que não se abala, não deseja… Isso é neurótico, gera angústia porque o princípio da realidade continua batendo na bunda dele e ele não sabe o que fazer com isso, porque não tem quem ouvi-lo. Porque ele não pode se abrir com os alunos e sair desse lugar que os próprios alunos o colocaram. Na clínica eu comecei a perceber que dava para pensar um termo do yoga chamado Parampara que se traduz como a imagem de um guru com seus discípulos falando das escrituras, das suas práticas. Eu penso em grupo terapêutico, em base psicanalítica horizontalizado, um formato diferente desse Parampara. Sem um líder para traduzir o que você fala. Conversando, percebemos as contradições e as angústias que permeiam esse campo. E tem sido bem interessante.
SobreSentir – Por que temos essa necessidade de ter um líder?
Roberto Simões – Tem um documentário chamado Kumaré. É um indiano, que mora em Nova Iorque, diretor de cinema, que se faz a seguinte pergunta: por que o norte-americano está tão obcecado e apaixonado por uma prática que eu sempre odiei? Então o que ele faz? Ele se fantasia como as roupas tradicionais, acentua o sotaque e viaja para o interior dos Estados Unidos com um pequeno séquito, que é na verdade a equipe dele, se dizendo um grande mestre iluminado da yoga, recém-chegado da Índia. As pessoas começam a se juntar e a reverenciá-lo, o acompanham na turnê que ele criou para realizar o filme. Tem uma hora do documentário que ele revela que é um personagem e não um guru, mas os seguidores se negam a acreditar. Não estou falando que todo guru é mentiroso. Mas, viver nessa máscara de perfeição é angustiante. Veja o caso do Osho, que também tem um documentário na Netflix. Há muitos vivendo essa fantasia de acreditar na persona que os outros criaram. O grupo terapêutico tem ajudado alguns professores de yoga a se desvencilhar disso e voltar pro yoga, voltar pra meditação, para o encontro consigo mesmo, entremeado aos outros, sua família, seus alunos.

SobreSentir – Uma inquietação pessoal: até que ponto ler ou estudar demais pode atrapalhar o sentir?
Roberto Simões – Saber não está necessariamente associado a uma linha de pensamento racional. Nós temos cinco formas de conhecer e explicar o mundo: a arte (o mito), a ciência – que é mais recente, tem 400 anos – , a filosofia, a religião e o senso comum. Então, eu posso conhecer e saber muito lendo Fernando Pessoa. Há o saber da poesia. Manoel de Barros tem o quartinho das Inutilidades. Em geral, a gente pensa e associa a sabedoria com alguma utilidade. O poema de Manoel de Barros é inútil, mas tem saber. O yoga não nasce das mãos de um filósofo, cientista, sacerdote, teólogo, mas de um artista. O criador do yoga, no mito, é Shiva, uma divindade absolutamente ambígua, que ao mesmo tempo é mulher e homem. Tem seio, cabelos compridos, gestos mais “afeminados”. Shiva é um dançarino. O saber do yoga se constroi a partir do saber artístico. O saber do yoga vem dessa inutilidade, vem da arte, vem de um disco de Milton Nascimento, que pode não ter nenhuma relação histórica, social, política com o yoga, mas que você ouve e fala: putz! Trazendo agora para a psicanálise, essa sapiência é um lugar de suposto saber. O psicanalista ocupa esse lugar, que para mim o yoga deveria ocupar também, que é do suposto saber. Parece que sabe, mas ele quer ir pro lugar que ele não sabe, porque se eu já sei não tenho mais nada pra aprender. É talvez essa encruzilhada que você me trouxe. “Saber demais não confunde?” É porque temos que ocupar o lugar do não saber e seguirmos mesmo não sabendo, porque a gente nasce um nada, caminha num vale infértil indo pra lugar nenhum. A vida no final não vai dar certo. A gente morre. Por isso que o yoga é tão bonito. Porque nesse caminhar a gente dança como Shiva que pisa numa anão, que é da ignorância, e tem um tamborzinho aqui marcando o ritmo da própria vida, bancando o seu próprio desejo. Enquanto ele dança, ele constrói um círculo de fogo que vai destruindo tudo. Shiva não é Vishnu, mantenedor do caminho do meio e nem Brahma, que é a excelência. Ele é uma divindade “classe-baixa”. Enquanto ele dança, ele vai destruindo tudo, pisando na ignorância. Esse tipo de yogar que não é intelectualizado é o que talvez a gente poderia, com muitas aspas, “resgatar” e que a gente às vezes nem pensa muito. Um yogar mais pé no chão.
“Por isso que o yoga é tão bonito. Porque nesse caminhar a gente dança como Shiva que pisa no anão da ignorância e bate um tambor marcando o ritmo da própria vida, bancando o seu próprio desejo. Enquanto ele dança, ele constrói um círculo de fogo que vai destruindo tudo.”




Deixe uma resposta